'Para alguns, é o último sabor real da inocência e o primeiro sabor real da vida. Mas, para todos, é o momento do qual as memórias são feitas.' (Frase do cartaz original)
Foto: Divulgação
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Das amizades dos meus 13 anos de que tenho lembrança, só o Humberto “Cara de Amélia”, que morava a uma quadra do Colégio Dom Bosco, onde estudávamos a 6ª série, e da turma do futebol das tardes, depois da educação física. Em 1982, o Dom Bosco tinha uma quadra que ficava ao lado do pátio das salas de aula e também uma grande descida - barranco - de barro e areia que desembocava em um grande areal, onde havia um campo de futebol improvisado. Ali era sensacional quando chovia, pois era lama e poças d’água, e as turmas do ensino médio que tinham o melhor time adoravam surrar os times do ensino fundamental, que éramos nós. Nunca esqueci dos palavrões, das gritarias e, principalmente, das parcerias que criávamos entre os que tinham a mesma idade. Jogar bola era aquele momento raro em que todos se falavam e tiravam onda, sem intrigas, sem bullying.
Depois, tudo voltava ao normal, e era como se aquelas horas de diversão não tivessem existido. Nos corredores e nas salas, as turmas não se misturavam, e os mais velhos ainda davam caçuletas nas orelhas dos mais novos ou “batizavam” (pisavam, com gosto) os que tinham tênis novos.
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Fiz esse preâmbulo para escrever que o filme “Conta Comigo” (Stand by Me/1986), do diretor Rob Reiner, é justamente sobre amizade e parceria, além de uma espécie de distopia juvenil, quando o mundo ainda carregava um tanto de inocência, mas no horizonte já despontavam alguns desafios que colocariam à prova o aprendizado que formaria as mudanças necessárias para adquirir maturidade.
Quarenta anos depois de seu lançamento, “Conta Comigo” continua sendo um filme muito relevante dentro da sua proposta de ser uma aventura dramática juvenil em que se fala não só de amizade, mas também de elegia.
Baseado no conto “The Body” (que, no Brasil, recebeu o título “O Outono da Inocência – O Corpo”, integrante da coletânea de contos “As Quatro Estações”), de Stephen King, na época este foi o segundo filme mais bem avaliado pelo Rotten Tomatoes com 89% , enquanto “Carrie, a Estranha”, do diretor Brian De Palma, permanecia no topo, com 94%.
O filme teria o mesmo título original do conto, “The Body” (O Corpo). Porém, os produtores e a distribuidora Columbia Pictures não gostaram, pois poderia ser associado a um filme de terror. Então, foi escolhido “Conta Comigo”, em referência justamente à música-tema “Stand by Me”.
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Vale citar uma das melhores curiosidades a respeito do filme, antes mesmo de ele ser lançado, quando o diretor Rob Reiner convidou Stephen King para assistir à obra na íntegra. Após o término da projeção, Reiner disse que o escritor tremia e permaneceu mudo por um certo tempo. Ele saiu, deu uma volta pela sala e retornou para abordar Reiner e, emocionado, disse que era a melhor adaptação de uma obra sua que já tinha visto.
Não havia melhor elogio.
No ano de 1985, o escritor Gordon “Gordie” Lachance (Richard Dreyfuss, na fase adulta do personagem), ao ler um jornal, depara-se com a notícia do assassinato do advogado Chris Chambers (vivido por River Phoenix, quando pré-adolescente), um amigo de infância que havia muito tempo não via e de quem apenas sabia que era um profissional dedicado às causas sociais e à defesa das minorias.
Tocado pela notícia, ele começa a lembrar, em um flashback, e narra um fato ocorrido quando tinha 12 anos, em 1959, durante um fim de semana do feriado do Dia do Trabalho, na cidade de Castle Rock, no estado do Oregon. Nesse período, ele, Gordon (vivido pelo ator Wil Wheaton), tinha os melhores amigos do mundo. Além de Chris, havia o robusto Tessio (Jerry O’Connell) e o problemático Teddy Duchamp (Corey Feldman).

O grupo descobre que o corpo de um garoto, Ray Brower, que estava desaparecido, foi supostamente encontrado à beira dos trilhos do trem que passa pela cidade, em uma parte da floresta. Tessio relata ao grupo que seu irmão mais velho, Billy, e um amigo, Charlie, disseram que viram o corpo, mas não querem contar para a polícia, pois estavam em um carro roubado quando o avistaram.
Então, Chris e Teddy dão a ideia de procurar o corpo e resgatá-lo, o que, no início, divide o grupo. Mas, por fim, resolvem se aventurar como uma forma de passar o tempo no feriado prolongado e, quem sabe, virar heróis e serem reconhecidos por esse feito. Seria também uma jornada de investigação, evitando que o grupo mais velho do irmão de Tessio chegasse ao local antes.
Combinam mentir aos pais e responsáveis, dizendo que vão acampar no quintal de um deles como forma de diversão. Em determinado momento, durante os preparativos, Chris mostra a Gordon uma pistola automática Colt .45, um jeito arriscado que ele encontrou de se defenderem na floresta, temendo animais ou algum outro perigo. Isso deixa o grupo mais seguro, mas também receoso, pois todos sabem que a aventura terá consequências caso não dê certo.
É justamente nos dramas familiares que vamos descobrindo o que envolve cada um deles, como o fato de Gordon ter perdido o irmão mais velho, Denny (participação especial do ator John Cusack, ainda bem novinho), que era o filho favorito da casa, e seu pai viver expondo isso. Ou Teddy, que tem uma relação complicada com o pai nunca mostrado em cena, mas cujas narrativas, quando discutidas intensamente entre eles, demonstram que a brutalidade paterna mexe com o psicológico de Teddy. Já Chris tem uma família atípica, que não acredita nele e prefere deixá-lo de lado, levando-o a uma vida rebelde, por vezes inconsequente, mas sempre fiel às suas amizades, como se nelas agarrasse a esperança de acreditar que tem um futuro.
São esses dramas de fundo que nos levam a nos identificar com os personagens, torcer por eles e acompanhar cada discussão, interação de amizade e entrega nos momentos mais tensos. A sensibilidade do roteiro e a interpretação dos atores ajudam na imersão da história, que terá algumas reviravoltas significativas. A narração em off pontua algumas situações, de forma discreta, para que nós, espectadores, tenhamos apenas um apontamento de algumas motivações.
O aprendizado que a história propõe para aqueles meninos, em um período em que a amizade parece ser eterna mas sem o ser de fato , traz a chamada elegia que mencionei: recordações marcantes que, de alguma forma, nos ensinaram muito sobre a vida. É um ponto crucial que “Conta Comigo” transparece para além de uma aventura juvenil ou de um drama lacrimoso que não é , deixando um sabor de nostalgia que mexe com as emoções.
A trilha sonora do filme é um personagem à parte. A escolha muito bem feita das canções, clássicos do rock e do doo-wop do final dos anos 50 e início dos anos 60, recheia algumas cenas com a leveza necessária. O conflito principal, no clímax do filme, quando o grupo de Gordon e Chris encontra o corpo e acaba se deparando com a gangue dos mais velhos, que inclui o irmão de Tessio, traz tensão e humor, mas com uma dramaticidade pontuada no tempo certo. Trabalho primoroso de direção de Rob Reiner, que soube dar consistência emocional ao roteiro, muito bem adaptado por Raynold Gideon e Bruce A. Evans, que também se destacaram anos depois por terem escrito “Instinto Secreto” (2007), filme de suspense com Kevin Costner e William Hurt.
O encerramento do filme, com Gordon adulto brincando com os filhos, um deles com a idade que tinha quando viveu seus melhores momentos da juventude, ao som da música “Stand by Me”, clássica canção de Ben E. King, é de desmontar qualquer coração frio.
“Conta Comigo” recebeu indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e também duas indicações ao Globo de Ouro (Melhor Filme e Melhor Diretor), porém não venceu nessas principais premiações. O filme tornou-se um enorme sucesso comercial, arrecadando US$ 52 milhões a partir de um orçamento de apenas US$ 8 milhões.
O filme está disponível nos catálogos das plataformas de streaming Prime Video (Sony) e Netflix. Quem ainda não assistiu a esse clássico da Sessão da Tarde, assista: é uma obra-prima.
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