SONHOS DE TREM: Filme que indicou brasileiro ao Oscar além do poema visual - Por Marcos Souza

Sonhos de Trem” é baseado num conto do escritor Denis Johnson

SONHOS DE TREM: Filme que indicou brasileiro ao Oscar além do poema visual - Por Marcos Souza

Foto: Reprodução

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Essa semana foram divulgados os indicados ao Oscar de 2026. Além das quatro indicações para o filme “O Agente Secreto”, entre os destaques está o diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso, que foi responsável pela fotografia do filme “Sonhos de Trem”, dirigido de forma sensível por Clint Bentley e que está disponível no catálogo da Netflix. 
 
Adolpho fez um trabalho belíssimo nessa produção, que transformou o filme em algo além do poema visual que a trama até pode propor, mas a crueza com que constrói o protagonista, o lenhador Robert Granier (numa bela interpretação do ator Joel Edgerton), cria um filme reflexivo e emocionante.
 
“Sonhos de Trem” é baseado num conto do escritor Denis Johnson e relata, ao longo de quase uma vida adulta até a velhice, a história de um homem comum, o lenhador Robert, iniciando nos anos 1920, quando a América está em um processo de construção e reconstrução. 
 
Robert é um homem sozinho, solitário, que trabalha no interior das regiões florestais cortando árvores e produzindo madeira para a construção de pontes e trilhos de trens, sempre em trabalhos árduos com outros lenhadores, madeireiros e engenheiros, em períodos específicos do ano.
 
 
Calado, tímido, o lenhador, no entanto, busca uma vida com propósitos além do seu trabalho e, quando conhece uma mulher solitária, jovem e que se interessa por ele, a adorável Gladys (Felicity Jones), após frequentar uma igreja, acaba se tornando seu marido, constrói uma cabana próxima a um rio e no meio da floresta, de forma isolada.
 
Para manter em regra o sustento da casa e da nova esposa, Robert viaja por um período de meses para trabalhar nos longínquos rincões florestais, ajudando a construir pontes e trilhos. Mas tem o conforto em saber que a esposa sempre vai estar à sua espera.
 
Com esse plot, a direção do filme consegue traduzir em imagens momentos do relacionamento do casal, mas principalmente do trabalho de Robert, onde ele fica em meio a outros trabalhadores nômades, homens solitários ou marginalizados — seja pela velhice ou pela origem, como os orientais que sofrem preconceito. 
 
E é dessa miríade de relações interpessoais que o personagem vai refletindo sobre a vida dura que leva, a natureza em seu entorno como propósito de vida, remetendo-o a ver a vida com certa expectativa, mas ainda assim conformado com os reveses que testemunha ao seu redor.
 
No meio do filme ocorre um fato que vai mudar totalmente a sua vida. Não vou dar spoiler. Mas é essa mudança que vai elevar a sua constância emocional a um patamar de buscar um propósito maior do que é a rotina de sua vida. A derrocada de um sonho, de uma esperança tão próxima e intensa, vai provocar visões, sonhos que parecem reais, delírios que ele não compreende.
 
 
Pela proposta que parece intimista do protagonista em busca de um propósito de vida maior do que viver em contato com a natureza, sendo parte integral dela, seja como provedor ou mantenedor, esse homem vai compreender que o destino é um mero acaso das consequências de suas escolhas.
 
É um filme fantástico porque, nessa formalização vital e quase fugindo da linguagem tradicional da dramaturgia em criar propósito para uma figura, a confluência de viver em meio à floresta, sofrer com as intempéries e os prazeres que ela pode dar, colide no confronto do amadurecimento natural da sua visão sobre o mundo, o pequeno universo que criou e no qual vive.
 
A fotografia do brasileiro Adolpho é muito sensível, expositiva em captar a transformação do personagem por meio da luz, enquadramentos inusitados de folhas, rios, paisagens panorâmicas, ângulos fechados em cenas simbólicas — a das botas presas por pregos num tronco é uma das coisas mais belas e metaforicamente bem construídas — e diz muito sobre a vida e a lida do personagem. 
 
Ainda mais do que isso, seja na gota de orvalho numa planta úmida, nas janelas abertas e na luminosidade do dia. São camadas de visão e de sentimento que, em determinado momento, servem de reflexo sobre o estado emocional de Robert.
 
 
O salto temporal do filme na parte final, quando o lenhador aposentado vai conhecer o que construiu e descobrir um pouco mais sobre a evolução do homem indo ao espaço, soa poético e encaixa perfeitamente com a intenção da busca que ele vinha fazendo há um longo tempo.
 
“Sonhos de Trem” é um filme altamente bonito, com imagens marcantes, uma história de transformação que almeja ir além do poema visual pela linda fotografia, mas traz um propósito reflexivo sobre a vida, a solidão e até o amor.
 
Assista. Das melhores coisas da Netflix nesse começo de ano. Filmaço!
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