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Em tempos recentes, a extrema-direita apropriou-se do discurso de que seria a única e legítima protetora do agronegócio, rotulando qualquer força de centro ou de esquerda como prejudicial a esse pilar da economia nacional.
Rondônia, como se sabe, embora seja um estado jovem — com apenas 45 anos —, já desponta como um gigante na agricultura, destacando-se tanto na produção de grãos quanto na de proteína animal. O acirramento ideológico nacional desembarcou por aqui em 2018, culminando na eleição do bolsonarista Marcos Rocha ao governo do Estado, reeleito em 2022 e hoje em seu último ano de mandato.
Marcos Rocha sucedeu Confúcio Moura, que também governou Rondônia por dois mandatos. Em sua primeira gestão, Confúcio teve como vice o empresário Airton Gurgacz; na segunda, Daniel Pereira. Sem entrar no mérito da concepção política do próprio Confúcio, seus dois vices vieram de partidos de esquerda: Airton, do PDT, e Daniel, do PSB. Vale registrar ainda que Confúcio foi prefeito de Ariquemes por dois mandatos. No primeiro, o vice foi Amauri Guedes (PT); no segundo, o empresário Márcio Raposo, à época no PFL.
Como se vê, nos últimos 16 anos, Rondônia foi governada primeiro por um bloco de centro-esquerda e, em seguida, por um de direita. Dentro da narrativa de que a esquerda significa o atraso para o campo, enquanto a direita seria a "última bolacha do pacote", era de se imaginar que a gestão de Marcos Rocha ganhasse de goleada da de Confúcio Moura. Ao menos é isso que se esperaria para confirmar o jargão bolsonarista.
A resposta a essa indagação, contudo, veio da boca de um deputado estadual de direita: o Delegado Camargo. Durante a 13ª Rondônia Rural Show, em Ji-Paraná, o parlamentar traçou um comparativo entre os dois governos que acabou por desestruturar a retórica de seu próprio campo político. Segundo os dados apresentados, Confúcio, operando com um orçamento anual 50% menor, fez o "milagre da multiplicação" acontecer no campo.
É fundamental lembrar que a festejada Rondônia Rural Show, hoje o maior evento do agronegócio no Norte brasileiro, é uma criação da gestão de Confúcio Moura. A feira teve sua primeira edição em 2012, período em que o petista Anselmo de Jesus comandava a Secretaria Estadual de Agricultura (Seagri).
Quem quiser conferir os detalhes do pronunciamento do deputado Camargo pode acessar o portal da Assembleia Legislativa de Rondônia (noticia disponível em: [https://www.al.ro.leg.br/noticias/delegado-camargo-denuncia-queda-de-60-no-orcamento-da-agricultura-no-governo-marcos-rocha](https://www.al.ro.leg.br/noticias/delegado-camargo-denuncia-queda-de-60-no-orcamento-da-agricultura-no-governo-marcos-rocha)).
Quando o discurso ideológico tentar se sobrepor aos fatos no debate sobre o apoio ao agro, os dados oficiais estão à disposição. Afinal, no xadrez político, ninguém é melhor para balizar a realidade do que os próprios números — ou, como diz o ditado adaptado ao jargão popular, é a "cobra morta e o porrete demonstrado".
* DANIEL PEREIRA. advogado, ex-governador (2015/2017) e governador em 2018.
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