FRIGON: MPF aponta compra de 260 mil cabeças de gado irregulares pelo Frigorífico Irmãos Gonçalves

Auditoria do órgão federal revela indícios de desmatamento ilegal, invasão de áreas protegidas e trabalho escravo em 32,6% dos abates realizados em Rondônia entre 2023 e 2024

FRIGON: MPF aponta compra de 260 mil cabeças de gado irregulares pelo Frigorífico Irmãos Gonçalves

Foto: Reprodução via Rondônia em Pauta / Ilustrativa

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O Ministério Público Federal (MPF) divulgou os resultados do 3º ciclo de auditorias do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, apontando que o Frigorífico Irmãos Gonçalves, o maior processador de carne de Rondônia e o sexto maior em operação em toda a Amazônia Legal, pode ter abatido 260.952 cabeças de gado criadas em fazendas com irregularidades socioambientais. O levantamento abrange as atividades de abate realizadas pelas indústrias do setor entre os anos de 2023 e 2024.
 
 
Recusa de auditoria e análise de dados públicos
 
 
Ao contrário dos demais produtores de carne que atuam na Região Norte e colaboram de forma ativa com as auditorias do MPF, o frigorífico Irmãos Gonçalves recusou-se a apresentar as informações comerciais de suas aquisições. 
 
Diante da falta de dados voluntários, o órgão ministerial utilizou dados públicos automatizados para verificar a totalidade das Guias de Trânsito Animal (GTAs) e remessas destinadas às unidades da empresa instaladas em Rondônia.
 
O cruzamento de dados identificou que 32,6% do total de 800.141 animais abatidos pelo frigorífico em dois anos possuíam indícios de inconformidades socioambientais. As 260.952 cabeças de gado sob suspeita foram associadas a fazendas com ocorrência de desmatamento ilegal, invasão de terras indígenas e unidades de conservação, ou com registros de exploração de mão de obra em condições análogas à escravidão.
 
O procurador da República em Rondônia, Gabriel de Amorim Silva Ferreira, destacou que o MPF dispensará uma atenção rigorosa ao frigorífico devido ao seu elevado volume de operações no estado. 
 
De acordo com o procurador, em reuniões institucionais preliminares, a administração da empresa alegou que mantém sistemas próprios de monitoramento, mas que "não iria se sujeitar às auditorias do MPF". "Por que a empresa se recusa a ser transparente com a sociedade civil?", questionou o procurador.
 
 
Histórico 
 
 
A história do Grupo Irmãos Gonçalves se desenvolveu em paralelo com o próprio processo de colonização recente e crescimento demográfico do estado de Rondônia. A empresa iniciou suas atividades em 1977, período em que Rondônia ainda possuía a condição administrativa de território federal brasileiro. 
 
O negócio começou sob o nome de "Casa Gonçalves", uma pequena instalação comercial localizada no município de Jaru. Ao longo das décadas seguintes, a empresa expandiu-se no mercado de varejo e tornou-se a maior rede de supermercados de Rondônia, operando 18 lojas amplas distribuídas por 10 municípios do estado.
 
Consolidado no setor supermercadista, o grupo verticalizou suas operações ao ingressar na cadeia de pecuária de corte, estruturando o Frigorífico Irmãos Gonçalves Comércio e Indústria Ltda. (Frigon), que passou a liderar o processamento de carne bovina em Rondônia.
 
 
Precedentes de condenações judiciais por danos na Resex Jaci-Paraná
 
 
Os apontamentos emitidos pela auditoria do MPF em 2026 ocorrem após a empresa sofrer importantes derrotas jurídicas associadas a crimes ambientais em áreas protegidas. A 1ª Vara de Fazenda e Saúde Pública de Porto Velho condenou o Frigorífico Irmãos Gonçalves e dois pecuaristas ao pagamento de R$ 9.582.224,50 em indenizações por desmatamento e exploração irregular na Reserva Extrativista (Resex) Jaci-Paraná.
 
Laudos elaborados pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam) comprovaram o desmatamento a corte raso de 570,48 hectares de floresta nativa no interior da reserva. 
 
As Guias de Trânsito Animal (GTAs) anexadas ao processo confirmaram que os animais criados de forma proibida dentro da unidade de conservação foram vendidos e abatidos nas instalações do Frigorífico Irmãos Gonçalves.
 
Na sentença, a juíza Inês Moreira da Costa determinou a responsabilidade civil indireta da empresa, argumentando que a compra de gado criado de forma ilegal em reservas extrativistas financia e incentiva a continuidade da grilagem e da degradação ambiental da floresta protegida.
 
A condenação de primeira instância estipulou:
 
R$ 6,18 milhões destinados ao custeio de reflorestamento da área atingida;
R$ 3,09 milhões decorrentes de danos ambientais intercorrentes;
R$ 300 mil fixados como indenização por danos morais coletivos.
 
Os réus também foram obrigados a retirar todo o rebanho bovino da área protegida, demolir as benfeitorias construídas na reserva e executar um Projeto de Recuperação de Área Degradada e Alterada (Prada).
 
 
Posicionamento do grupo
 
 
Em esclarecimentos e notas oficiais enviados à imprensa, o Grupo Irmãos Gonçalves declarou que não possui propriedades rurais, não desenvolve criação de bovinos e jamais manteve benfeitorias ou exploração agropecuária direta no interior da Reserva Extrativista Jaci-Paraná.
 
A diretoria do frigorífico esclarece que atua estritamente no segmento industrial de abate de animais adquiridos de pecuaristas parceiros. 
 
A empresa sustenta que todas as transações comerciais de compra de gado são amparadas por documentos obrigatórios emitidos de forma oficial e autorizados pelos órgãos de controle do Governo do Estado de Rondônia, tais como a Agência Idaron e a Secretaria de Finanças (Sefin), que validam a circulação do gado e atestam a regularidade da origem de cada lote. 
 
O grupo ressalta que respeita as decisões judiciais e que continuará adotando as medidas cabíveis nos tribunais para comprovar a legalidade e a conformidade ambiental de suas operações comerciais.
Direito ao esquecimento
Selmir Welke - 25/08/2026 07:03
Mais um concorrente que os irmãos Batistas( cumpanheiro do ladrão de 9 dedos ) querem derrubar. Mas pra isso eles precisam usar o sistema que o fez crescer.

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