O jogo marcou o fim da geração do PS4 e é o mais bonito e brutal. Tecnicamente, está à frente de qualquer outro em seu realismo
Foto: Divulgação
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Já estão sendo veiculadas nas redes sociais algumas imagens da terceira temporada da série da HBO Max baseada no game “The Last of Us – Parte II”, cenas de bastidores
que mostram a gravação em algumas cidades com o cenário pós-apocalíptico. Ao mesmo tempo, rumores e especulações apontam que o game pode ter uma terceira parte, dando continuidade
ao extraordinário segundo jogo – um dos mais premiados e vendidos da história.
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Sobre a série da HBO Max, a primeira temporada é muito boa e, na minha opinião, é uma das (se não a melhor) melhores adaptações de game para o live-action, mesmo com a polêmica criada por alguns fãs que não gostaram da escolha da atriz Bella Ramsey no papel de Ellie. Já a segunda temporada, que se baseia na segunda parte do jogo, é um desastre completo. Para mim, foi uma das piores coisas que eu vi, e todo o conceito da história original foi adaptado de forma totalmente equivocada, descaracterizando a personagem da Ellie de uma forma absurda.
Diluíram a vingança, que é o mote principal do segundo jogo – mudaram sequências importantes, destoaram personagens, criaram motivações aleatórias.
Enfim. Como a história da parte 2 é longa, por dar ênfase a duas trajetórias bem distintas, porém um espelho extraordinário de motivação e obsessão, os produtores da série dividiram em duas temporadas dedicadas a adaptar esse extenso game.
Aproveitei para rever – jogar novamente – creio que pela sétima vez, e continua atemporal e absoluto.
Desde quando foi lançado em junho de 2020, exclusivamente para o PlayStation 4, há mais de seis anos, eu ainda sinto o mesmo sentimento de um vazio absoluto quando finalizo, e é algo avassalador.
Eu preciso confessar. Chorei e me emocionei muito com o final do game. São quase 25 horas de jogo e tive as sensações emocionais mais devastadoras para o que deve e é uma diversão de escape.
O jogo é talvez o mais brutal e violento que já joguei. Também foi o que me trouxe uma história contundente de trajetórias de duas personagens femininas extremamente fortes e levadas pelo desejo de vingança.
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Mas tudo, tudo tem um preço. E o preço pode ser muito alto e irreversível.
A produtora, Naughty Dog, fez uma premissa ousada e que trouxe a um nível, em nossa psique, a motivação do ódio como ferramenta da maturidade. Um game que deve ser nossa fuga da realidade traz uma viagem cruel e que faz pensar e refletir.
É incrível.
Que jogo!
(Quem não jogou ainda ou não assistiu às duas temporadas da série da HBO Max não continue a leitura, volte depois de ter jogado ou assistido, pois vai ter alguns spoilers importantes)
Tem tantas viradas. Uma melancolia quase que permanente pela morte do seu principal personagem, Joel – que salva e tem uma trajetória de autoconhecimento em emoção reprimida no primeiro jogo ao tornar Ellie sua protegida e o reflexo da filha que perdeu de forma trágica –, que é surpreendente e a causa de tudo que vem pela frente.
Essa parte dois se passa quatro anos depois dos eventos do primeiro jogo, quando Joel impediu que Ellie fosse operada e morta pelos “Vagalumes”, pois ela é a única pessoa conhecida imune à contaminação global que atingiu o planeta, e iriam criar uma vacina a partir de uma enzima localizada no cérebro dela, que iria salvar a todos.
Aqui, a relação dos dois ganha uma dimensão muito maior quando, em flashbacks – as lembranças de Ellie –, somos cúmplices do amor de Joel por ela, refletido principalmente na sequência do museu de história, quando eles entram numa nave e ele a ajuda a ter a sensação de uma viagem espacial – sem dúvida, uma das mais belas cenas já criadas para um game –, tão bem contextualizada na trama paternal –, parece um filme de tão realista e na carga emocional.
Ou, no início do jogo, quando Joel toca no violão e canta para ela a música “Future Days”, do Pearl Jam. De um simbolismo incrível. Para cada acorde, um olhar, a voz rouca de Joel. À flor da pele.
Por isso, quando, na primeira hora do jogo, somos conduzidos de forma crescente e tensa a uma espécie de armadilha do destino em que um grupo paramilitar – denominado Lobos – encontra Joel e o seu irmão Tommy, que estavam em patrulha, e salvam uma de suas soldados, Abby, somos pegos de surpresa.
Quando Ellie os encontra, Joel está sendo morto de forma lenta e brutal, com Abby segurando um taco de golfe, e ela segura Ellie ao chão, presa, sendo obrigada a assistir à morte da única pessoa que seria capaz de dar a sua vida para salvá-la. É muito doloroso. Tudo explícito, brutal e marcante. Essa imagem é tão poderosa e nos conduz a uma interação que justifica a busca de vingança de Ellie. E ela se transforma, foca uma missão em encontrar os assassinos de Joel, principalmente Abby.
Com ela vai Dina, sua namorada. Seguem uma viagem em busca de pistas que as levem a Seattle, onde devem encontrar Abby e o grupo que ajudou na morte de Joel.
É uma trajetória de imersão no que poderia ser o crescimento pessoal de Ellie, mas é a vingança, a sua razão de arriscar tudo num mundo pós-apocalipse, onde fungos, chamados de Cordyceps, devastaram a humanidade, contaminando e transformando as pessoas em uma espécie de zumbis e até monstros tomados por esporos.
Por isso, as cidades não são como antes. A humanidade não é como antes. Não existe energia elétrica – somente com geradores em alguns locais ou pequenas usinas que abastecem vilas. Comida, munição e armas são itens disputados para sobreviver nesse cotidiano caótico, onde “estaladores” e “corredores” (zumbis primais) podem ser encontrados em todos os lugares, e eles atacam com voracidade.
Ao mesmo tempo, existe uma luta por comando de território entre a força paramilitar “Lobos” e a seita de fanáticos conservadores e brutais intitulados “Cicatrizes”.
No meio dessa guerra e caos, Ellie e Dina vão adentrando cada vez mais no pesadelo da busca pela vingança de Ellie.
Os momentos de respiro são uma ou outra sequência de lembrança de Ellie ou quando encontra um violão e toca algo, logo lembrando de Joel.
É difícil essa trajetória da Ellie, pois tem uma tensão permanente, uma melancolia que deixa a sensação de perda e busca, como se fôssemos a personagem.
E isso é algo que traz uma sensação emotiva vibrante.
Eu fiquei imerso na mesma raiva de Ellie.

A grande virada do jogo. O que eu chamo de indução de sentimento sobre outra perspectiva é quando assumimos a personagem Abby, que matou Joel. Sim, isso mesmo. Retornamos quatro anos antes para compreender o ódio e a sua busca cega de vingança contra Joel.
Plenamente justificável e compreensível pela sua brutalidade, quando descobrimos que ela é uma das melhores soldados do grupo “Lobos” – e que chegou a fazer parte da última tropa do grupo anterior, quando se chamava “Vagalumes”, que foi destroçado por Joel no primeiro jogo – no massacre do hospital.
Abby então tem a sua trajetória mostrada em detalhes. O seu comportamento, a humanização de sua personagem diante dos perigos que enfrenta e principalmente quando é salva por dois jovens, pré-adolescentes, de traços orientais, que foram condenados pelos Cicatrizes quando um deles, Lev, raspa a cabeça e assume a sua identidade de gênero masculina, contrariando os costumes conservadores do grupo.
É essa trajetória de Abby com esses dois que vai transformar completamente a sua vida. Quando assume protegê-los e descobre que suas escolhas vão fazê-la conhecer a dor da perda e o encontro de sua redenção, quando ela percebe que está sendo caçada e já perdeu seus amigos pela sanha de Ellie.
O encontro das duas é um dos ápices do jogo – na sequência do teatro –, quando estamos na perspectiva de Abby contra as ações de Ellie. Como jogador, eu estava perplexo com minhas reações emocionais, sendo conduzido daquela forma. É como se eu, “vilã”, tivesse que matar a “mocinha”, a “heroína” da história. Mas aí você percebe que não existe essa divisão nesse jogo. Elas são humanas e cada uma criou sua obsessão de vida através da vingança.
Nesse ponto do jogo, percebemos quantas vidas as duas mataram para chegar nesse encontro, quantas perdas foram necessárias para esse embate. A explosão emocional com a sobrecarga de desgaste físico em Ellie é notável. Mesmo com o apoio da Dina, ela entra num ciclo de sentimentos que faz com que seja tomada por uma ira violenta que a leva a extremos. Mas ainda não acabou.
A história prossegue para as duas depois desse ponto e, enquanto Ellie tem a possibilidade de viver em paz, como família, Abby, ao lado de Lev, vai descobrir que a sua busca pelo extinto grupo Vagalumes na cidade de Santa Barbara pode ser o destino inesperado que não pensaria alcançar.
Com os velhos fantasmas lhe assombrando e sem conseguir seguir em frente diante disso, Ellie prefere correr o risco de perder tudo que ainda lhe restou e vai concluir a sua vingança em busca de Abby novamente, para o último e decisivo encontro. Onde finalmente ela vai perceber a grande verdade da sua trajetória de vida.
Então, somos conduzidos à sequência final, da lembrança linda do seu último encontro com Joel, numa troca de diálogos sentidos, cheios de emoção, dor e esperança. Melancólico, mas na risca da saudade do único homem que amou de verdade, com seus defeitos e qualidades, como um pai.
Ellie parte e se vai para o destino vago que ainda lhe restou...
“The Last of Us – Parte II” é o jogo mais bonito que você vai ver na sua vida. Tecnicamente, está à frente de qualquer outro em seu realismo.
Os gráficos são em alta definição, com detalhes absurdos de textura de pele, ambientação. As expressões faciais dos personagens, realistas ao extremo, em que o silêncio em alguns diálogos é decifrado com os olhares, bocas, um abaixar de cabeça. Tudo caprichado, esmerado, com uma jogabilidade incrível, comandos simples de decorar e usar.
As personagens principais têm características diferentes na jogabilidade. Enquanto Ellie é infiltração, agindo na surdina para eliminar seus algozes, Abby é mais corpo a corpo, combates pesados e diretos – até mesmo por conta de ela ser militarizada e ter um físico de atleta.
As lutas e o enfrentamento com os inimigos e infectados elas utilizam diversas armas e alguns “chefões” são surpreendentes, principalmente quando a Abby enfrenta - o que pra mim é o mais espetacular deles - o “Rei dos Ratos” no porão do hospital onde foi o epicentro da contaminação causada pelo Cordyceps.
A trilha sonora – do excelente músico Gustavo Santaolalla, toda feita em cordas, violão, cello, banjo e viola – é um show à parte, com músicas pontuadas no tempo certo, muito bem contextualizadas dentro da trama.
Jogaço, e eu posso afirmar que esse é melhor que o primeiro em muitos pontos, mas eles se tornam essenciais para contar uma história que ainda não acabou.
O jogo foi um grande sucesso de vendas e conseguiu dividir alguns jogadores que deram pontos negativos relevantes, mas que se esvaíram em sua justificativa. A bad vibe, tristeza desoladora da primeira hora e meia, a tensão permanente não agradaram muito, principalmente no final, quando se espera que Ellie cumpra a sua vingança.

Eu recomendo muito o documentário oficial com o making of, que foi lançado em fevereiro de 2024: “Grounded II: Making The Last of Us - Part II”, e que está disponível gratuitamente no canal oficial da Naughty Dog no YouTube. O doc mostra os bastidores e como foram difíceis o desenvolvimento, os desafios da história, as decisões de design e os problemas enfrentados pelo estúdio durante a criação do jogo, que inclui um vazamento hacker no período da pandemia, meses antes de ser lançado.
A desenvolvedora do jogo lançou em janeiro de 2024 a versão remasterizada, “The Last of Us - Part II Remastered” exclusivo para o PlayStation 5 e em 3 de abril de 2025 finalmente para computadores (Windows).
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