Escola Jornalista Fernando Escariz: uma história que nasceu da comunidade e transformou a Educação Infantil em Porto Velho
Primeira diretora da unidade, professora Rosinete de Jesus Pereira Almeida relembra os desafios enfrentados desde 2004, a municipalização e os 14 anos dedicados à gestão da escola
A história da Escola Jornalista Fernando Escariz começou muito antes de sua consolidação na rede municipal de ensino de Porto Velho.
Ela nasceu de uma necessidade concreta das famílias do bairro Marcos Freire: encontrar um lugar para que crianças pequenas pudessem estudar.
Criada a partir de um projeto social da empresa Termo Norte, a escola recebeu o nome do jornalista Fernando Escariz, um dos gerentes da empresa e idealizador da iniciativa.
O projeto buscava atender à demanda por creches e unidades de Educação Infantil no Marcos Freire e bairros próximos.
Em maio de 2004, a instituição iniciou suas atividades como escola comunitária, administrada por uma associação.
Um dos principais nomes dessa primeira fase foi o da professora, pedagoga e especialista em Educação Rosinete de Jesus Pereira Almeida, primeira diretora da unidade.
Em entrevista ao jornalista Miro Costa, Rosinete relembrou como recebeu o convite que daria início a uma trajetória de 14 anos à frente da escola.
Segundo ela, o convite partiu da irmã Carmen, então diretora da Escola Marcelo Cândia, onde Rosinete trabalhava.
A Termo Norte havia oferecido às Irmãs Marcelinas a possibilidade de administrar a nova unidade.
“Ela me fez o convite para ser diretora da escola”, recordou Rosinete.
Uma escola onde havia uma necessidade
Naquele momento, um dos maiores problemas enfrentados pelas famílias era justamente a falta de vagas para as crianças menores.
“A comunidade tinha necessidade de uma escola que atendesse essas crianças de 3 a 5 anos, porque não tinha escola no bairro”, explicou a ex-diretora.
A estrutura estava disponível, mas fazer uma escola funcionar exigia muito mais.
Nos primeiros anos, Rosinete lembra que a falta de profissionais foi um dos principais obstáculos.
Havia carência de professores e também de servidores para funções essenciais, como limpeza e preparo da merenda.
Por falta de docentes, durante o período da associação apenas três salas de aula conseguiam funcionar.
Para organizar e fortalecer a administração comunitária da unidade, Rosinete criou a Associação Jornalista Fernando Escariz, iniciativa que contou com o apoio da jornalista Marilza Rocha.
Esse trabalho abriu caminho para uma nova etapa.
Da escola comunitária à rede municipal
Em 2005, a Escola Jornalista Fernando Escariz passou a funcionar em parceria com a Prefeitura de Porto Velho por meio de convênio.
No ano seguinte, em 2006, veio a municipalização.
Rosinete conta que o processo ocorreu durante a gestão do então prefeito Roberto Sobrinho, quando Epifânia Barbosa estava à frente da Secretaria Municipal de Educação.
A visita de uma equipe técnica da Semed foi determinante para o futuro da unidade.
“Os técnicos da Semed visitaram a escola, gostaram muito e me fizeram a proposta de municipalizar. Conversei com a irmã Carmen e ela concordou”, relembrou.
A mudança trouxe reflexos imediatos.
Com a entrada definitiva na rede municipal, a escola passou a receber os profissionais necessários para ampliar o atendimento.
Segundo Rosinete, foram lotadas oito professoras, além de merendeira, profissionais de limpeza e guarda noturno.
“Pude matricular mais crianças, porque na época da associação só funcionavam três salas de aula por falta de professores”, destacou.
A autorização para o funcionamento da EMEIEF Jornalista Fernando Escariz e para a oferta do Ensino Fundamental teve origem no Processo nº 09.049.19-07, decorrente do Ofício nº 052/2007, de 14 de novembro de 2007.
Entre as conquistas daquele período, Rosinete destaca também a regularização da instituição perante o Conselho Municipal de Educação, com sua autorização e posterior reconhecimento para funcionamento dentro das normas educacionais.
14 anos dedicados à escola
Mesmo depois da municipalização, a história de Rosinete com a Fernando Escariz continuou.
Ela permaneceu na direção e foi reeleita por três mandatos através do Processo de Gestão Democrática.
Ao todo, foram 14 anos à frente da instituição.
“Foi um aprendizado. Cresci muito como profissional da Educação”, afirmou.
Para ela, um dos fatores responsáveis por preservar a identidade da escola ao longo de tantas transformações foi a forma como o ensino era conduzido.
“Acredito que foi devido à nossa metodologia de ensino e ao comprometimento dos professores em ofertar uma educação de qualidade.”
Quando questionada sobre pessoas que marcaram sua trajetória, Rosinete evita escolher apenas um nome.
“Todos os alunos que passaram pela escola tiveram sua importância e toda a equipe de funcionários sempre foi muito dedicada.”
A experiência também mudou sua compreensão sobre o papel de quem administra uma escola, especialmente na Educação Infantil.
“Foi uma experiência ímpar. Fui gestora, administradora, contadora, psicóloga, fiz de tudo um pouco”, contou.
Rosinete reconhece que administrar uma instituição de ensino envolve responsabilidades que ultrapassam as questões pedagógicas.
Para ela, um dos maiores desafios está justamente nas relações humanas.
“Não é fácil administrar uma instituição de ensino com tantas responsabilidades. Acredito que o mais difícil é administrar os recursos humanos”, avaliou.
O reconhecimento que ficou
Em 2014, a unidade passou a ofertar exclusivamente a Educação Infantil, embora tenha mantido em sua identificação a sigla EMEIEF.
Rosinete permaneceu na direção até 2018, quando encerrou sua trajetória profissional na unidade em razão da aposentadoria por tempo de serviço.
Em abril daquele ano, Ana Célia Privado dos Santos Bezerra assumiu a direção.
Ao recordar o momento em que deixou a escola depois de 14 anos, Rosinete resume o sentimento em poucas palavras: “Dever cumprido.”
Entre tantas realizações, entretanto, o que mais a emociona não está em documentos ou números.
“Encontrar os ex-alunos, ser reconhecida por eles e receber o carinho deles”, respondeu ao falar sobre uma conquista que lhe proporciona orgulho especial.
Hoje, a escola representa para a ex-diretora “muito trabalho e dedicação à educação do município”.
E, se pudesse voltar a maio de 2004 e conversar com a professora que aceitava o desafio de dirigir uma pequena escola comunitária, Rosinete já sabe o que diria:
“Vai em frente que vai dar tudo certo. Força, coragem e fé.”
Escola atravessou o desafio da pandemia
Anos depois daquela primeira fase, a Escola Jornalista Fernando Escariz enfrentaria outro momento desafiador: a pandemia da Covid-19.
Durante a suspensão das atividades presenciais, a unidade buscou alternativas para manter o vínculo com os estudantes e garantir a continuidade do trabalho pedagógico.
As turmas de 4 e 5 anos participaram de aulas remotas pelo Google Meet, com atividades recreativas e lúdicas, utilização de livros didáticos e materiais impressos.
A escola também organizou plantões para a entrega das atividades às famílias. Mesmo durante o período de restrições, projetos escolares foram adaptados, com ações em formato drive-thru, como o “Arraial Fernandinho na Roça”,comemoração do Dia das Crianças e formatura.
Posteriormente, seguindo as diretrizes da Semed, a unidade preparou seu plano de retorno presencial, envolvendo servidores e famílias e adotando os protocolos sanitários vigentes naquele período.
Uma história que continua
Atualmente, a Escola Jornalista Fernando Escariz conta com quatro salas de aula e oito turmas, distribuídas entre os períodos matutino e vespertino.
São 185 crianças, com idades entre 3 e 5 anos, atendidas na unidade.
Mais de duas décadas separam a atual estrutura daquele início comunitário de maio de 2004.
Uma trajetória construída por professores, servidores, famílias e pelas crianças que passaram pelas salas da Fernando Escariz.
Para Rosinete, a responsabilidade agora está com as novas gerações que continuam escrevendo essa história.
“Que deem continuidade ao trabalho que construímos lá em 2004, com responsabilidade com o aprendizado das crianças que nos são confiadas”, declarou.
Da escola comunitária que funcionava com apenas três salas por falta de professores à unidade integrada à rede municipal, a Fernando Escariz carrega em sua trajetória a marca de quem ajudou a construí-la desde o começo.
E para sua primeira diretora, depois de 14 anos conduzindo essa transformação, o significado permanece ligado àquilo que deu origem a tudo: trabalho, aprendizado, dedicação e compromisso com a educação.