DECLÍNIO COGNITIVO: Testes que combinam movimento e raciocínio podem antecipar sinais de demência

A detecção antecipada abre caminho para intervenções mais rápidas, com potencial de preservar a autonomia e a qualidade de vida e reduzir a progressão da doença

DECLÍNIO COGNITIVO: Testes que combinam movimento e raciocínio podem antecipar sinais de demência

Foto: Ahmed Mulla / Pexels

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Testes que exigem ações físicas e mentais ao mesmo tempo, conhecidos como dupla tarefa, podem ser aliados na detecção precoce de declínio cognitivo em idosos. É o que aponta um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicado na revista Dementia & Neuropsychologia no dia 14 de agosto. Os resultados sugerem que a abordagem proposta pode complementar ferramentas já utilizadas para diagnóstico, favorecendo a identificação de alterações em estágios iniciais.
 
A equipe analisou 144 participantes com mais de 60 anos, divididos em dois grupos: um com pessoas saudáveis e outro com pessoas com possível comprometimento cognitivo. Todos eles foram submetidos a testes cognitivos (como memória e funções visuoespaciais), motores (como equilíbrio, força e mobilidade) e de dupla tarefa, que combinam caminhada com uma atividade mental simultânea (como subtração ou nomeação de animais). Os participantes também foram avaliados quanto ao desempenho em atividades da vida diária, como administrar medicamentos e dinheiro, preparar refeições e lembrar compromissos.
 
Ambos os grupos apresentaram desempenho semelhante em testes motores isolados, mas os idosos com possível declínio cognitivo tiveram pior desempenho nos desafios de dupla tarefa. Embora caminhassem normalmente nos testes simples, mostraram dificuldade ao combinar a marcha com atividades mentais. “Em situações que exigem duas ou mais tarefas simultâneas, o cérebro não consegue processar todas as informações com a mesma eficiência e passa a priorizar o estímulo considerado mais relevante”, afirma Daniella Cristina de Assis Pinto Gomes, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e autora do estudo. Ela explica que, na prática, isso pode levar à redução do desempenho em uma das atividades, como diminuição da velocidade ao caminhar, interrupções ou maior risco de quedas. “Em idosos com demência, é comum observar prejuízos tanto na tarefa cognitiva quanto na motora”, acrescenta.
 
Esse grupo também apresentou comprometimento em tarefas relacionadas à atenção, à lembrança de compromissos e ao gerenciamento de medicamentos, o que sugere que o desempenho em dupla tarefa pode estar associado à capacidade funcional do indivíduo. Os pesquisadores observaram essa associação numa análise inicial, mas ela deixou de ser estatisticamente significativa após o ajuste para fatores como escolaridade, raça e nível geral de cognição — o que indica que mais estudos são necessários para confirmar se a dupla tarefa tem valor preditivo independente sobre a funcionalidade dos idosos.
 
“A demência tem um impacto importante na qualidade de vida, levando progressivamente à perda da autonomia e da independência para a realização das atividades de vida diária”, aponta a pesquisadora. “Nas fases iniciais, porém, a identificação do declínio cognitivo é bastante difícil, porque as dificuldades na realização dessas atividades ainda são muito sutis”, destaca. Para Gomes, os testes de dupla tarefa podem ajudar a modificar esse cenário. “Ao combinarem uma demanda motora com uma demanda cognitiva, geram uma interferência importante durante a realização da tarefa que os torna mais sensíveis para detectar alterações precoces”, defende.
 
Ao antecipar o diagnóstico, a abordagem pode reduzir as chances de progressão da doença e contribuir para a manutenção da qualidade de vida dos idosos. “Quando o comprometimento é identificado precocemente, é possível realizar intervenções que contribuam para mudanças no estilo de vida e implementar estratégias voltadas para a melhora da cognição”, afirma a autora. Mesmo nos casos em que há evolução de um quadro leve para demência, o diagnóstico precoce permite iniciar o tratamento mais cedo, ajudando a retardar os prejuízos cognitivos e a preservar a saúde física e mental.
 
De acordo com Gomes, os testes de dupla tarefa têm potencial para integrar o sistema de avaliação já utilizado no SUS (Sistema Único de Saúde), que realiza a triagem inicial do declínio cognitivo em idosos por meio de um aplicativo da OMS (Organização Mundial da Saúde). “Essa avaliação pode ser realizada nas clínicas de saúde da família e em outros serviços do SUS por meio do aplicativo do ICOPE (Atenção Integrada para as Pessoas Idosas)”, diz. Para a aplicação do ICOPE, é utilizado um conjunto de testes físicos, cognitivos e psicológicos de fácil execução. “A incorporação da avaliação da dupla tarefa seria bastante relevante, por se tratar de uma medida mais sensível e que pode ser aplicada por qualquer profissional da saúde devidamente treinado, como fisioterapeutas e profissionais de Educação Física”, ressalta.
 
Enquanto os testes ainda não integram as estratégias oficiais, a equipe segue avançando em pesquisas sobre o tema, visando ampliar as possibilidades de detecção precoce e contribuir para a preservação do bem-estar da população idosa.
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