O
Centro de Inovação da Amazônia Rioterra apresentou oficialmente à imprensa rondoniense, nesta sexta-feira (31), o Quintais Amazônicos II. O
Rondoniaovivo acompanhou o evento de pré-lançamento do projeto, que foi financiado com um aporte de R$ 55,4 milhões do
Fundo Amazônia, obtidos via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A iniciativa tem como meta estruturar as cadeias produtivas do cacau, açaí e banana ligadas à bioeconomia, unindo a adequação florestal de pequenas propriedades à geração de renda na agricultura familiar. O projeto atuará diretamente em 15 municípios do estado, mas não haverá uma reserva de caixa fixa ou partilha prévia de verba por cidade.
O coordenador de projetos da Rioterra, Alexis Bastos, deixou claro que o fluxo financeiro dependerá diretamente do engajamento das comunidades locais: "Os municípios que se organizarem melhor, que mobilizarem mais público e que executarem um trabalho com as bases dos agricultores, são os municípios que vão receber os investimentos primeiro e que vão receber mais investimento".
FOTO: Alexei explica sobre a articulação da Rioterra e dos órgãos públicos de Rondônia - Ícaro Campos da Cunha / Rondoniaovivo
Bastos explicou que "são 55 milhões para todos os municípios e aqueles que se organizarem, se articularem melhor vão receber mais investimento, vão ter os seus agricultores mais atendidos".
De 'terra morta' a modelo de sustentabilidade
O grande destaque do evento foi o depoimento de Solange Simão, agricultora familiar de Itapuã do Oeste, município considerado o coração da agricultura familiar no estado. Beneficiária das fases anteriores do projeto, Solange descreveu a transformação radical do seu sítio de três hectares, que antes era uma área completamente degradada e sem vegetação ativa.
"Na minha vida e na minha família foi a... uma chave que virou", relatou a agricultora. "Porque você está numa propriedade toda degradada, sem regularização ambiental e é difícil porque você não tem acesso a crédito, você não tem acesso a nada, você não tem renda. Mudou totalmente a minha vida".
FOTO: Solange foi vencedora da premiação do 8° Concafé em 2023 - Rioterra / Assessoria
Solange destacou o orgulho de ver sua área restaurada e hoje reconhecida pelas autoridades agrícolas estaduais: "O que me deu muito mais orgulho ainda foi olhar para uma propriedade que ninguém dava nada por aquela propriedade. E aí, ter, por outro lado, você olhar e ver ali que o Estado tava te referenciando como área modelo de sustentabilidade".
Com a restauração produtiva do solo por meio dos Sistemas Agroflorestais (SAFs), ela passou a colher polpas, café e frutas com padrão de excelência, assegurando independência financeira.
"Hoje eu falo que eu não troco meu salário da propriedade por um salário da cidade. Porque é qualidade de vida... Tudo que serve pra eu comer, serve pra eu vender. Aquilo que não serve para comer não serve para vender. Eu trabalho com qualidade - em todas as questões. E aí virou-se a chave porque quando você tem qualidade, você tem valor".
Invisibilidade feminina e espaços dedicados de poder
A inclusão e o protagonismo das mulheres rurais são pilares centrais do Quintais Amazônicos II, que prevê a capacitação de 100 mulheres em processamento de alimentos e metas de participação feminina nas equipes técnicas. De acordo com a presidenta da Rioterra, Fabiana Gomes, o projeto atuará diretamente para combater o apagamento histórico da mulher nas tomadas de decisão da roça.
"Desenvolvemos os projetos e estamos há quase 27 anos no campo. Quando chegamos nas propriedades, falamos muito de gestão da propriedade", afirmou Gomes. "A mulher tem um papel super importante e às vezes invisibilizado. A gente entende que projetos como este, que vão trabalhar as cadeias produtivas, são importantes - e que a mulher, que tem um papel super necessário, merece ter espaços dedicados".
FOTO: A presidenta da Rioterra é doutora em geografia - Rioterra / Assessoria
Fabiana garantiu que o projeto reservará vagas específicas nas capacitações para assegurar que esse público tenha autonomia financeira.
Tecnologia de ponta e crédito sem burocracia bancária
Para além do fomento tradicional, o Quintais II traz duas inovações de mercado para Rondônia:
Primeira biofábrica de mudas do estado
Instalada em laboratório com ambiente controlado, produzirá mudas de banana por micropropagação, com alta qualidade genética, livres de patógenos e com produção precoce.
A capacidade inicial de operação será de 1 milhão de mudas por ano. A banana é crucial no arranjo produtivo, pois serve de sombreamento físico para o cacau e o açaí.
FOTO: Mudas do viveiro - Rioterra / Assessoria
Fundo rotativo de crédito
O fundo vai funcionar como uma linha de financiamento paralela à rede bancária comercial tradicional. O fundo terá exigências burocráticas menores, facilitando pequenos empréstimos para que o produtor adquira fertilizantes, adubos e kits de irrigação.
Calendário de mobilização regional
Após o lançamento oficial para a imprensa na capital, a equipe técnica e os educadores da Rioterra vão iniciar uma caravana de apresentações regionais ao longo do mês de agosto para cadastrar os produtores interessados.
Os eventos de cadastramento e oitiva das comunidades já têm as seguintes datas confirmadas em Rondônia:
05/08: Cacoal (Câmara Municipal, das 9h às 11h);
06/08: Ji-Paraná (IFRO Campus Ji-Paraná, das 9h às 11h);
07/08: Ouro Preto do Oeste (Teatro Municipal, das 9h às 11h);
11/08: Jaru (Fimca, das 9h às 11h);
12/08: Itapuã do Oeste (Câmara Municipal, das 9h às 11h);
13/08: Ariquemes (Centro de Empreendedorismo e Inovação - CEI, das 9h às 11h);
19/08: Porto Velho e Candeias do Jamari (IFRO Campus Calama, das 9h às 11h).
Para se credenciar no projeto, o agricultor familiar deve possuir uma propriedade de até 240 hectares, apresentar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) ativo e comprovar a posse ou documento do imóvel.
As inscrições e a assistência técnica são inteiramente gratuitas, sendo todos os custos operacionais cobertos pelos recursos do Fundo Amazônia.
FOTO: A primeira edição do Quintais Amazônicos iniciou em 2013 e terminou em 2017 - Ícaro Campos da Cunha / Rondoniaovivo