A ideia de que o Brasil não possui planejamento urbano é contestada por especialistas da área. Embora cidades brasileiras contem com instrumentos como plano diretor, leis de uso do solo e zoneamento urbano, o debate atual se concentra na eficácia dos modelos adotados ao longo das últimas décadas.
Segundo profissionais de arquitetura e urbanismo, muitos dos problemas enfrentados hoje pelos centros urbanos estão relacionados à influência do urbanismo modernista, caracterizado pela setorização rígida das atividades urbanas. Esse modelo teria contribuído para o crescimento de cidades dependentes do transporte individual, sem a implantação de sistemas eficientes de mobilidade coletiva.
Além dos impactos no trânsito, especialistas apontam reflexos ambientais. Entre eles estão falhas na drenagem urbana, ocupação inadequada do solo e projetos arquitetônicos que desconsideram fatores naturais como ventilação e incidência solar, aumentando o consumo de energia e os custos de manutenção das edificações.
Outro efeito apontado é a expansão das periferias. Com a valorização de áreas centrais e a pressão da especulação imobiliária, famílias de baixa renda acabam sendo empurradas para regiões mais distantes e frequentemente vulneráveis a enchentes, deficiência de saneamento básico e carência de infraestrutura pública.
A arquiteta e urbanista Luciene Aoca destaca que a ocupação desordenada das áreas periféricas também gera impactos ambientais, incluindo a supressão da biodiversidade em áreas próximas aos centros urbanos. Segundo ela, os desafios atuais exigem políticas que conciliem desenvolvimento urbano, sustentabilidade e inclusão social.
Para a especialista, o desafio não está apenas em elaborar novos planos, mas em revisar conceitos que orientam o crescimento das cidades, priorizando soluções voltadas à mobilidade sustentável, à preservação ambiental e ao acesso mais equilibrado à infraestrutura urbana.
O debate ganha relevância em um momento em que diversas cidades brasileiras revisam seus planos diretores, documentos que definem as diretrizes para expansão urbana e ocupação do território nas próximas décadas.