1. Tomara que possa valer a pena todo esse esforço que os Trabalhadores da Educação vêm fazendo nesta última greve do governo Cassol. Que consigamos aquilo a qual carecemos para, no mínimo, trabalharmos sem o medo de que não possamos, no final do mês, pagarmos nossas despesas familiares.
2. Tomara que muitos colegas, ao retornarem para suas escolas no final dessa cansativa luta, possam ainda de forças para enfrentar as outras batalhas que precisam ser combatidas até com mais empenho.
3. Qualquer pessoa honesta que der uma olhadinha na trajetória dos trabalhadores em Educação desde sua constituição inicial, perceberá que, após as ditas e propaladas conquistas obtidas ao longo do tempo pela pelo grupo que sempre dirige este sindicato, nunca foram além das "conquistas" econômicas e nada mais. Uma vez conseguindo o aumento ou a reposição desejada ou não, esta categoria relaxa e goza. O resto que se dane!
4- Basta pensarmos o seguinte: quais foram as melhorias no relacionamento entre os trabalhadores no interior do ambiente de trabalho? As divergências internas diminuíram ou, ao menos, ficaram mais civilizadas? A defesa pela democracia radical entre nós, no ambiente de trabalho ou fora dele, é uma realidade? Não faz dois dias que cheguei de Porto Velho e já soube do repúdio e da hostilidade a minha pessoa de alguns companheiros do SINTERO e de alguns colegas da escola onde eu trabalho,dois deles parentes meus inclusive, a um texto meu que analisa a trajetória do sindicato criticamente. Soube que, se depender deles ninguém, nenhum outro colega, terá acesso ao texto. Para mim, isto se chama: CENSURA.
5- Ora bolas, são essas e outras incoerências, CONTRADIÇÕES, entre o discurso e a pratica dos trabalhadores em educação, especialmente, os professores, que empobrecem qualquer movimento grevista. Faz com que, os mais atentos na sociedade civil, alguns pais e mães de alunos, alguns alunos mesmo e os inimigos acusem o movimento de ter objetivos puramente egoístas. "Os professores sempre se preocuparam apenas com o seu bem-estar pessoal e mais nada". Param de trabalhar apenas para ganhar mais ou repor o que perdeu ao longo do tempo.
6- Buscar reposição salarial ou seu aumento é justo! Isto é inegável! Porém, se isto não se reverter, ou se traduzir de fato em melhoria nos serviços que nos prestamos à sociedade, esta mesma sociedade não terá motivos para apoiar-nos com a convicção de que seus filhos ao concluírem sua passagem pela escola pública, sairão melhores do que entraram. Mais que saber ler , somar ou escrever, saiam capazes de poder agir no mundo em que vive no sentido de fazer dele um lugar melhor para se viver.
7- Precisamos, ao retornarmos ao trabalho, re-ver nossa conduta dentro da escola, com os nossos colegas e nossa relação com quem representa o Estado e os pais dos nossos alunos. Precisamos ler mais, estudar mais, rever nossas práticas, buscar construir algum consenso no interior da escola que permita que os valores democráticos sejam vividos mesmo, com toda radicalidade, intensidade e que saibamos conviver com os diferentes ou com as diferenças internas entre os professores pelo o menos; que aprendamos a construir este consenso sossegadamente, sem agressões, ironias inúteis, sem conservadorismo; tudo pensando em tornar nossa convivência profissional saudável e prazerosa e que isto se reflita no bem-estar dos alunos com quem nos interagimos diariamente.
8- Esta luta é bem maior e mais difícil de realizar, por isso, muitos se contentam em lutar apenas por si mesmo, para ganhar apenas mais. Não obstante, devemos, quem comigo compartilha dessas minhas idéias, insistirem em ir além do aumento salarial, transcender o econômico para vivermos as idéias pedagógicas que sonhamos. Se não for para mudar o sistema, que, ao menos, seja para incomodá-lo ou bagunçá-lo como faz os vírus em nossos computadores.
9- Devemos resistir com inteligência, com educação, mas com a energia necessária a toda imposição vinda das representações de ensino. Podemos até fazer o que eles nos impõem, mas fazer de um jeito que eles não querem. Podemos fazer de uma maneira que seja crítica em relação ao que acreditamos ser errado e não simplesmente fazer por fazer, porque nos mandam fazer. Temos que fazer a "semana da cidadania", qual façamos, mas por que não voltá-la contra o governo que nos massacram? Por que não tornar-la uma denúncia contra o que é injusto na nossa sociedade? Infelizmente, não é isso que tem ocorrido, pelo o contrário, muitos de nossos colegas, inclusive que estão agora fazendo greve, quando faz a tal da semana da cidadania, faz do jeitinho que o governo quer! Para mim, isto sim, é que é PELEGAGEM! Não é de graça que o Pedro Demo afirma que os professores são muitas vezes mais conservadores que os governos para os quais são submetidos.
10- Por fim, espero de coração, que após esta greve, possamos restaurar nosso fôlego e nos devotarmos as outras lutas que são necessárias para que os alunos possam, mesmo dentro de um sistema escolar que lhe domesticam, que tentam lhes transformar em meros parafusos para a indústria e meros assalariados baratos, serem algo diferente disso tudo. Afinal, precisamos de gente que saiba mais que dizer sim-senhor a um patrão, mas saiba dizer não, fazer poesias, músicas, literatura, sejam guerrilheiros nas idéias e etc...