ENTREVISTA: ‘Se você não sabe de onde veio, não sabe para onde vai’, diz Marcos Santilli

Fotógrafo do nascimento e da expansão de Rondônia, o ex-diretor do Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP) se entristece com a negligência da memória e da cultura

ENTREVISTA: ‘Se você não sabe de onde veio, não sabe para onde vai’, diz Marcos Santilli

Foto: Reprodução cedida por Marcos Santilli

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Marcos Santilli chegou a Rondônia pela primeira vez em 1977, aos 26 anos, enviado pela Editora Abril para documentar a rápida colonização promovida pelo regime militar. O fotojornalista registrou não apenas a alteração geográfica do território (que ele define como a "maior transformação feita pelo homem no planeta Terra"), mas também o cotidiano de indígenas, seringueiros e migrantes que passavam a habitar a região. Quarenta e nove anos, 50 horas de gravações de áudio e cerca de 15.000 imagens depois, ele retornou a Porto Velho, entre 8 e 17 de agosto, para apresentar o "Projeto Nharamaã", acervo sensorial desenvolvido em parceria com a etnomusicóloga Marlui Miranda.
 
 
 
FOTO: Migrantes do Espirito Santo chegam a Rondônia / Marcos Santilli - Reprodução cedida
 
 
A palestra de som e imagem foi realizada pelo projeto Confluências Visuais, da Pró-Reitoria de Cultura, Extensão e Esporte da Universidade Federal de Rondônia (Unir), em parceria com a Eldorado Filmes. O evento atraiu um público de jornalistas, professores e estudantes, mas o retorno de Santilli ao estado após 14 anos de ausência foi marcado pelo contraste entre a preservação de sua obra e o abandono dos espaços públicos de memória.
 
 
 
 
FOTO: Reprodução de Raissa Dourado / Eldorado Filmes 
 
 
Para compreender a urgência do apelo do fotógrafo, que hoje busca um destino seguro para doar seu acervo histórico, é preciso voltar para 1978. Após a primeira experiência no Norte, Santilli decidiu retornar ao Território Federal de Rondônia de forma independente. Sem o custeio da revista Veja, ele financiou a expedição com recursos próprios. “A primeira vez eu vim com essas economias que eu tinha, mas vim assim com a grana curtíssima, dormir no carro, no sanduíche”, relembra o fotógrafo em entrevista ao Rondoniaovivo.
 
 
 
FOTO: Reprodução cedida por Marcos Santilli
 
 
A recém-aberta BR-364 rasgava a floresta e servia de canal para a chegada diária de milhares de colonos. Ao parar em Vilhena, a porta de entrada do território, ele foi tomado pelo impacto imediato da magnitude daquela ocupação: “Nossa, essa é a rodoviária da Amazônia!”, pensou ao avistar a imensa fila de caminhões e ônibus em meio ao barro.
 
Santilli percebeu que a história era escrita diante de si em ritmo acelerado e que cada dia perdido significava o apagamento de um fragmento daquela realidade. “O grande mérito do meu trabalho foi perceber o que estava acontecendo em tempo real”, avalia. “E o fotógrafo tem que ver a cena antes, não pode ver depois. Se você vê depois, você já perdeu a foto”.
 
Com esse senso de urgência, registrou a derrubada da floresta pelas motosserras, o nascimento de vilas e a presença de seringueiros, garimpeiros e povos originários. Em 1981, contemplado com bolsas da Fundação John Simon Guggenheim Memorial, o fotógrafo e a etnomusicóloga Marlui Miranda percorreram seringais, frentes de garimpo e aldeias indígenas para registrar a sonoridade e o cotidiano da região. O resultado são gravações que reúnem cantos indígenas e canções tradicionais. Ao lado das fotografias, o acervo compõe uma cartografia de uma Rondônia modificada pela colonização.
 
 
 
FOTO: Reprodução cedida por Marcos Santilli
 
 
O retorno de Santilli a Rondônia, em agosto de 2026, marcou sua primeira visita ao estado desde 2012. Ao circular por Porto Velho, o fotógrafo deparou-se com o esvaziamento dos museus e dos espaços culturais. Santilli, que mantém o acervo, em grande parte inédito, sob controle rigoroso de temperatura, faz um apelo público para doar o patrimônio ao estado, desde que haja garantias de conservação.
 
A preocupação com o patrimônio é compartilhada por sua companheira, Kátia Scavancini, que o acompanha nas viagens ao estado desde 2000. Em Porto Velho, os dois visitaram o Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), principal ponto histórico local, e criticaram o modelo de concessão privada do espaço, que classificam como "cultura de dono". “Duas funcionárias numa linha de um ventilador passando calor. A gente estava derretendo lá”, relata Kátia sobre as condições de trabalho e de recepção no local.
 
Para Santilli, que dirigiu o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP) por seis anos, a visita ao museu recém-inaugurado foi insatisfatória. Ele ressalta que, embora os prédios históricos tenham sido restaurados, o acervo exposto é escasso. “O prédio está bacana, recuperado, está mantido, mas o conteúdo do museu é extremamente pobre. Eu não vi nada lá. Vi alguns pedaços de ferro desarticulados que você não sabe bem para que servem”, afirma o fotógrafo. Ele aponta ainda a ausência de recursos expográficos modernos e interativos: “Não tem nada sonoro, nada como ouvir o apito da Madeira-Mamoré”. A ferrovia foi tema de um livro homônimo publicado por Santilli em 1987.
 
 
 
FOTO: Reprodução cedida por Marcos Santilli
 
Para o fotógrafo, a situação do complexo ferroviário reforça a necessidade de encontrar um abrigo seguro e estruturado para as suas 15.000 imagens e gravações. Como define Santilli: “Se você não sabe de onde veio, você não sabe para onde vai. Esse vetor de direção e memória você não pode perder de forma alguma”.
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