Na fotografia, uma menina de dezessete anos tenta amadurecer depressa. O rosto posa para a câmera como quem escreve uma carta em silêncio: os olhos falam, os lábios guardam segredos, o coração pulsa, do outro lado da lente, o dono do seu pensamento. O amor que atravessava cartas, relógios combinados, suspiros distantes. Era fevereiro de 1973.
Era seu primeiro amor - desses que não se repetem, porque só acontecem uma vez na vida. Ele vinha da Bahia, carregava nos olhos a promessa de um futuro e nos gestos à intensidade da juventude. Entre eles havia cinco anos de diferença, mas nenhuma distância capaz de silenciar os encontros de alma. Helena acreditava que amor não era só paixão passageira: era raiz, era dor e era poesia.
As cartas seguiam o destino, mas não chegavam às mãos do amado. Interceptadas, escondidas, amaldiçoadas. A família ergueu muralhas contra o romance, como se fosse possível barrar o que nasce no coração. Ainda assim, Helena mandava as fotos, uma a uma, como quem insiste em não deixar morrer o que já era eterno dentro dela.
“Naquela época, as fotografias eram raridade. Não havia celulares, não havia nuvem. Era preciso câmera, filme, revelação. Caro, trabalhoso”. Por isso, cada retrato era um tesouro. Helena quis enviar ao seu primeiro amor a lembrança viva de seu rosto, e assim posou, tentando transmitir na imagem toda saudade, todo amor, toda esperança.
O tempo, implacável, trouxe outras estradas: o casamento, os filhos, os tantos lugares onde morou, sempre com as rodinhas da vida a lhe conduzir. Mas bastava olhar aquela foto para sentir a pontada doce da saudade - a lembrança de que, um dia, amou como nos romances que lia nas fotonovelas.
O amor não terminou. Ficou suspenso no tempo, como uma música interrompida no meio da melodia, como a série de fotografias revelando uma saudade. Um romance forte como Romeu e Julieta, terminou não pelo cansaço do sentimento, mas pela força de um mundo que não soube acolhê-lo. Restaram as marcas. Helena sabe: o primeiro amor não envelhece. Permanece guardado nas fotografias, na aliança esquecida no dedo adolescente, no coração que bateu tão forte que chegou a ser ouvido do lado de fora do peito.
Helena seguiu. Casou-se em novembro de 1973, formou-se professora, foi mãe, avó, empresária, cigana de tantas casas e cidades. Leva a vida com rodinhas nos pés, mudando sempre, porque para ela “mudar é recomeçar”. Mas basta um olhar demorado nas fotos antigas para sentir o arrepio da memória: o calor dos bailes, as brincadeiras, a amizade da turma da escola Conselheiro Crispiniano, que permanecem até hoje, o vazio do portão onde ele costumava esperar, e sobretudo o coração acelerado daquele primeiro amor.
Porque alguns amores, mesmo separados, nunca se vão. Aquilo que não pôde ser. Um brilho no olhar como se o tempo fosse apenas um detalhe.

Crônica escrita a partir de relatos de registros fotográficos de Maria Helena de Almeida Parado Malz, 70 anos, em entrevista concedida no dia 04 de agosto de 2025.
Amelia Neves é aluna do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
As fotografias fazem parte do acervo pessoal da entrevistada.