O lançamento do livro "Madeira-Mamoré: A Ferrovia Desgovernada – Narrativas de 1966 a 2026", de autoria do museólogo Antônio Ocampo Fernandes, sistematiza um registro documental sobre os 60 anos de desativação e as condições de preservação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). A obra, composta por 536 páginas, reúne atas, relatórios administrativos, ofícios e recortes de jornais de época. Em entrevista ao Conexão Rondoniaovivo desta sexta-feira (7), o autor fala de sua obra e vida.
A trajetória de preservação e o retorno a Rondônia
A motivação para o desenvolvimento da pesquisa documental partiu, segundo Antônio Ocampo, da "preocupação de deixar que essa memória não se perdesse". O autor, que possui formação acadêmica em museologia e atuou no serviço público federal, optou por retornar a Porto Velho para dar andamento aos seus trabalhos de catalogação e salvaguarda de acervos, recusando propostas de transferência e atuação em museus do Rio de Janeiro.
Ocampo descreve a sua determinação em voltar para o seu estado de origem na juventude: "Tinha aqueles calendáriozinhos da Igreja Católica que tu arrancava todo dia aquela paginazinha regressiva [...] eu todo dia arrancava: 'pô, é menos um dia no Rio, é menos um dia no Rio'. Queria voltar."
Após o retorno, o autor dedicou-se à gestão cultural e ao arquivamento de documentos oficiais das repartições públicas. "Como eu tive uma 41 anos 42 anos de atividade na vida pública, principalmente na área cultural, eu guardava tudo [cópia de tudo que era da Madeira-Mamoré]", relata.
O método documental e a transição histórica
A obra afasta-se de construções ficcionais e adota uma metodologia baseada no cruzamento de fontes primárias e secundárias. O autor relata que o conteúdo do livro apoia-se em sua coleção de arquivos impressos acumulados ao longo das últimas décadas.
"O livro é baseado mesmo em recortes em jornais do nosso tempo, atas, relatórios, ofícios, tudo eu tenho cópia mesmo." A pesquisa compreende a transição administrativa de Rondônia, desde a fase final do Território Federal até a consolidação do Estado.
Ocampo destaca que o acompanhamento direto de atos governamentais permitiu-lhe registrar as dinâmicas políticas de planejamento da região: "Eu sempre fui muito curioso e eu sempre procurei estar perto dos acontecimentos. Eu vi o Jorge Teixeira chegar empolgado para implantar o estado de Rondônia." O livro também registra a transição diplomática da ferrovia.
Em 1966, foi estabelecido um termo adicional ao Tratado de Petrópolis para pactuar com a Bolívia a desativação da via férrea. O documento previa medidas de compensação ao país vizinho, incluindo a construção de uma rodovia e de uma ponte internacional de integração, infraestrutura cujo andamento prático pendia de execução por parte do Estado brasileiro.
Disponibilidade
O livro "Madeira-Mamoré: A Ferrovia Desgovernada" está disponível para aquisição nas dependências do Museu da Madeira-Mamoré, no Mercado Cultural de Porto Velho e por meio de contato direto com as plataformas digitais do autor.