O termo trash, geralmente associado a filmes de terror, significa filme de baixo orçamento com violência gore (sangrento) e que de tão intenso, às vezes tem um humor involuntário do que é mostrado em excesso - maquiagem, efeitos práticos mirabolantes para aumentar a carga dramática e de horror. Se tem um filme que possui tudo isso e ainda é criativo e engenhoso é esse clássico do diretor e produtor Sam Raimi, lançado em 1981, “A Morte do Demônio” (Evil Dead).
O filme é um marco significativo dos anos 80 e virou um hit nas locadoras de VHS na época, quando ficou disponibilizado para home vídeo.
Antes uma historieta de fato real.
No final de 1985 e início de 1986, papai comprou em Manaus o primeiro videocassete lá de casa, um aparelho da marca Sharp (nunca esqueci), e foi um sonho encantado realizado para a diversão da família. Na época em Porto Velho, tínhamos uma locadora popular, a Televídeo, que ficava na Avenida Amazonas, três quadras depois da Avenida Governador Jorge Teixeira.
Virou um point para mim, que assistia em média três filmes por dia com o vídeocassete. E o meu gênero favorito sempre foi o terror. Em uma das minhas idas, com a minha mãe e irmãos ocorreu algo inusitado - eu já tinha assistido praticamente quase todas as fitas do gênero disponível nas prateleiras, ou pensava assim, até chegar um cliente no balcão para entregar uma fita VHS.
Estava ao lado dele quando disse:
“Olha, pra que tu me indicou esse filme para assistir Agnes? Tá doida! Fui assistir de noite, eu não sai mais do quarto e tive que fazer xixi numa garrafa que tava lá. Tava com um cagaço de sair”.
Agnes era a atendente, ela começou a rir e olhou para mim.
Eu perguntei: “Que filme é esse?”
Ele disse: “A Morte do cão, sei lá... horrível”
E ela: “Não, é o filme A Morte do Demônio, que vem fazendo um sucesso aqui. Tá todo mundo querendo ele e só temos duas cópias”.
Reservei a que ele estava devolvendo e fiquei muito, muito empolgado.
Assisti em casa a noite, com as luzes da sala apagada e os meus irmãos comigo e a minha mãe, que logo depois de meia hora de filme disse que não era para ela e pegou a Bíblia. “Filme com demônio e pessoas possuídas. Meu Deus, o sangue de Jesus tem poder” e se retirou para o quarto dela.
A minha irmã toda espremida no sofá com um cobertor cobrindo metade do rosto e eu e o meu irmão se divertindo com as cenas grotescas e muito, muito criativas. Que tomadas de câmeras eram aquelas?
***
Esse foi o marco que eu tive para embarcar no mundo sombrio e divertido do diretor, roteirista e produtor Sam Raimi, que depois se consagraria dirigindo a primeira trilogia de sucesso dos filmes do “Homem-Aranha” e o segundo filme do Doutor Destino, pela Marvel,
Em 1985 a maioria dos filmes das locadoras eram piratas, cópias feitas a partir de uma matriz original geralmente dos EUA, um VHS importado e depois legendado, sincronizado na tora - vamos lembrar que os computadores da época não tinham recursos de mídia. O filme “A Morte do Demônio” foi um dos piratas mais procurados. Dois ou três anos depois foi lançado oficialmente no Brasil pela distribuidora Look Vídeo e recebeu um título mais extenso: “Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio”.
Um filme que tem 45 anos desde o seu lançamento, atualmente virou uma franquia de relativo sucesso (já gerou seis filmes, games, peça de teatro e série de TV) e marcante também por ser o primeiro longa-metragem de Raimi, que contou com a parceria do seu amigo de infância, Bruce Campbell, protagonista, que foi produtor executivo e ajudou na captação de recurso para se pagar a produção. Acredite o filme custou 100 mil dólares, em produção quase caseira, pois o elenco, além de Campbell era formado por colegas de faculdades que fizeram o curso de cinema juntos. Os gastos maiores foram na pré-produção com maquiagem e efeitos práticos - em determinado momento do filme foi utilizado até mesmo efeitos de stop-motion (movimento quadro a quadro) com um dos personagens endemoniados.
Mas o interessante é que com poucos recursos, Sam Raimi utilizou um modo de filmagem externa que estava muito a frente do seu tempo utilizando trucagens de câmeras absurdas para captar cenas que desafiavam o espectador a tentar descobrir como ele tinha feito. Uma delas era imitar um Steadicam (a câmera móvel que não treme quando se movimenta em um travelling longo). Ele utilizou um pedaço de madeira e colocou dois operadores para correr ao redor do pântano - onde foram feitas as filmagens - e na edição acelerou. Outro truque que impressiona são as tomadas que cruzam rios e florestas, onde ele mesmo, Raimi, teve que correr com o equipamento improvisado no corpo, pulando troncos e pedras em meio a névoa a noite.
São detalhes técnicos de cinegrafia que o diretor se propôs a fazer do seu filme uma potência visual nunca antes vista numa produção extremamente barata e com uma criatividade fora de série. O diretor utiliza grande angular em alguma tomadas do protagonista para dar a visão do seu medo; edição que explora super-closes, depois acelera e desacelera cenas inteiras para criar pânico e tensão entre os personagens, que ficam condicionados em uma cabana velha de madeira, com porão e diversos quartos.
Um dos melhores e mais ousados truques de câmera feita por Raimi é a cena final, assustadora, feita de forma improvisada com uma câmera montada em uma bicicleta e conduzida de forma rápida através da cabana, criando uma sequência de captura contínua e acelerada, que depois recebe um trato na edição criando o impacto.
O uso do cenário - acredite de novo, natural, a cabana remota - foi um achado do diretor que encontrou a locação na região da cidade de Morristown, no Tennessee, dentro de uma floresta mesmo.
Na história cinco jovens estudantes vão passar um fim de semana em uma cabana isolada nos bosques de Tennessee, Ash (Campbell) e a sua namorada Chery (Ellen Sandweiss), o seu melhor amigo, Scott (Richard DeManincor) e a sua namorada, Shelly (Theresa Tilly) e a melhor amiga dela, Linda (Betsy Baker), mas desde o início percebem que tem algo sinistro rodeando o caminho até o local. Após cruzar uma ponte rústica de madeira eles chegam a velha cabana.
Na primeira noite enquanto se organizam na sala, uma porta fixada no chão de acesso ao porão abre violentamente de forma involuntária. Assustados, eles resolvem descer e verificar o que tem naquele cômodo. Logo encontram alguns objetos estranhos, mas fixam a sua atenção no Livro dos Mortos (o Necronomicon Ex Mortis, encadernado em pele humana e escrito em sangue) que encontram junto com um gravador que está com uma fita gravada pela pessoa que estava anteriormente na cabana, que descobrimos ser um arqueólogo ocultista.
No teor da fita está a voz desse homem recitando a tradução de algumas passagens do livro. Quando eles vão ouvir a fita, após uma das intervenções vocais do arqueólogo, algo desperta na floresta e se cria um clima de puro terror entre os estudantes ao perceberem que estão fadados a serem possuídos por um demônio, restando a um deles, Ash, combater os possuídos e o próprio demônio - se é que isso é possível - durante toda a madrugada.
Sam Raimi não esconde suas influências na história e no mote de algumas sequências fortes, tensas ou de humor mesmo, retirando inspirações em clássicos como “A Volta dos Mortos Vivos” (1968/George Romero), “O Exorcista” (1973/William Friedkin), ”O Massacre da Serra Elétrica” (1974/Tobe Hooper) e a série clássica “Os Três Patetas” - quem assistir vai entender.
O filme após estar pronto e lançado nos cinemas, atraiu o interesse de um produtor, chamado Irvin Shapiro, que ficou fascinado com a história e o modo como foi filmado, e no ano seguinte, 1982, ajudou a ser exibido no Festival de Cannes, recebendo boas críticas. O escritor Stephen King, que na época já tinha o prestígio por conta dos filmes “Carrie, A Estranha” (1976), de Brian De Palma, e “O Iluminado” (1980), de Stanley Kubrick, baseado em obras suas consagradas, assistiu ”A Morte do Demônio” e adorou, convencendo depois a produtora New Line Cinema - braço independente da Warner Bros. - a distribuir a película.
Para o padrão de filme barato no gênero, com o custo de 100 mil dólares (90 mil injetados na pré-produção), a renda total, apesar de ser considerada baixa comercialmente, para o benefício de custo e lucro foi um grande sucesso, principalmente na distribuição internacional, conseguindo arrecadar próximo de U$ 2,5 milhões.
No agregador de críticas e avaliações do Rotten Tomatoes o filme relata um índice de aprovação de 95% e uma classificação média de 8,04 / 10 com base em uma agregação de 60 comentários.
O filme gerou duas continuações escritas, produzidas e dirigidas por Raimi, sempre com Campbell como protagonista no papel de Ash, o segundo filme - praticamente uma refilmagem do primeiro, só que com um humor mais acentuado - foi lançado em 1987 como “Uma Noite Alucinante 2”. O terceiro filme estreou nos cinemas em 1992, “Uma Noite Alucinante 3 - Army of Darkness”, apesar de ter o seu público cativo, foi o que menos faturou, recuperando seu custo quando lançado em home vídeo (DVD).
Nos anos 2000 gerou vários games e até uma peça musical que foi encenada no Canadá, e com o sucesso acabou sendo montada em Nova Iorque. Foi o estopim para Raimi e Campbell produzirem uma série para a TV, “Ash vs Evil Dead”, que se sustentou por três temporadas (2015 a 2018) no canal Starz, migrando posteriormente para o serviço de streaming da Prime.
Em 2013 o clássico ganhou um reboot mais caprichado, produzido por Raimi, mas já com direção do uruguaio Fede Álvarez (que depois faria o ótimo “Alien: Romulus”/2024), que fez relativo sucesso, mas deixou o humor de lado e partiu para o gore com vontade e sequências brutais de horror explícito. Dez anos depois, em 2023 foi lançado uma sequência ou remake com outra situação, “A Morte do Demônio: A Ascensão”, que, de novo, primou pela brutalidade e cenas intensas. Foi um sucesso.
Essa semana estreou o sexto filme da franquia, a mesma premissa clássica com outra história, “A Morte do Demônio: Em Chamas”, dirigido agora pelo francês Sébastien Vanicek (diretor de “Infestação”), com produção de Sam Raimi e Rob Tapert.
O filme clássico original está disponível no catálogo do serviço de streaming da HBO Max, assim como os filmes de 2013 e 2022.
Para fãs de filmes de terror é obrigatório e uma aula de cinema inventivo.