O diretor e roteirista Michael Mann é um estilista visual com raízes profundas na estética dos anos oitenta; é uma marca sua em quase todos os filmes que produz e dirige: uso de fachadas de neon refle-tindo na rua de asfalto molhada ou em poças d’água, câmera com o mínimo de saturação nas cenas noturnas e hiper-realismo visual na fotografia de seus filmes. Nos anos 80, ele realizou filmes policiais espetaculares, como “Profissão Ladrão” (1981) e “Caçador de Assassinos” (1986).
“Fogo contra fogo”, de 1995, é um dos filmes policiais mais espetaculares já realizados para o cinema. Com quase três horas de duração, o filme tem claramente três tempos divididos em tela para acompa-nharmos o duelo improvável do experiente chefe de polícia Vincent Hanna (Al Pacino), do Departa-mento de Homicídios da Polícia de Los Angeles, e o ladrão especialista em roubos Neil McCauley (Robert De Niro), cujos planos e ações são elaborados de uma forma que evite falhas; por isso, ele é liso e um dos mais procurados.
O filme é famoso também por reunir, pela primeira vez em um mesmo filme, dividindo o mesmo tem-po de tela, duas lendas de Hollywood: os atores Al Pacino e Robert De Niro, que só haviam trabalha-do juntos em um mesmo filme em 1974, no clássico “O Poderoso Chefão - Parte II”. Só que nunca se encontraram em cena, pois De Niro fazia o pai do personagem de Pacino, mais jovem, Vito Corleone papel que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.
O que torna “Fogo contra fogo” tão poderoso é o seu enredo policial, essa dupla de atores geniais e a forma como Michael Mann realiza o filme, com várias sequências de ação de tirar o fôlego e por tra-zer tramas secundárias importantes para a narrativa, que solidificam a história, aprofundando os per-sonagens, tornando-os humanos e, em alguns momentos, falhos.
A vida do policial Vincent, por exemplo, numa relação com uma mulher madura, Justine (Diane Ve-nora), mãe solteira de uma adolescente cheia de traumas um dos primeiros personagens da ótima atriz Natalie Portman , entra num ponto de ruptura por ele passar mais tempo se dedicando à inves-tigação policial do que em casa, gerando brigas homéricas que resultam em um clímax inesperado no meio do filme.
Ou ainda o parceiro de Neil (De Niro), Chris (Val Kilmer, ótimo no papel), seu braço direito nos rou-bos, e o modo como se dedica e é apaixonado pela esposa Charlene (Ashley Judd), a ponto de influ-enciar em suas ações e que pode até mesmo propiciar erros de conduta.
O próprio Neil, um homem extremamente frio, cerebral, nada intenso em suas relações afetivas com mulheres até meio arredio, porém, em determinado momento, quando percebe que todos da sua gangue homens maduros, com famílias formadas são abnegados em dedicar o tempo à crimina-lidade e à família, sente um impacto improvável de ter uma companheira. Acaba cedendo espaço amo-roso à jovem Eady (Amy Brenneman), uma mulher independente e vibrante, que o motiva a planejar um último grande roubo a banco.
Claro, ela não sabe da sua vida paralela como mentor de um grupo de assaltantes sofisticados e bru-tais. Ele não permite que isso entre na relação dos dois, para que ela não sofra nenhum tipo de conse-quência por sua vida errática, o que torna a relação até certo ponto comovente, pela dedicação que ele tem em preservá-la.
Nesse feixe de personagens, ainda tem o poderio dos atores coadjuvantes que integram o filme, com participações pontuais e precisas dentro da trama, como Nate (Jon Voight), um homem de negócios do submundo que tem os melhores contatos e é quem passa as informações necessárias sobre bancos e locais que podem servir para Neil planejar os roubos. Ele é o contato direto e quem consegue negociar praticamente tudo.
“Fogo contra fogo” é um projeto do diretor Michael Mann que ele vinha querendo realizar desde 1989, quando escreveu e dirigiu um piloto para a TV de uma proposta de série intitulada “Os Tiras de Los Angeles”, que chegou a ser exibida na rede NBC. Baseado em uma história real de um policial que realiza uma verdadeira caça a um criminoso que ele admirava. Esse embate na vida real se susten-tava porque não era apenas uma caça de gato e rato; havia uma estrutura emocional forte de confron-to, em vista da inteligência sagaz do líder dos assaltantes.
O filme tem dois pontos altos. O primeiro, e talvez o mais marcante, é quando os personagens Neil e Vincent se encontram em um restaurante para conversar e falar sobre seus trabalhos e, claro, cada um, à sua maneira, fazer um estudo de perfil. Cinematograficamente, esse é considerado um dos grandes momentos, pois são dois grandes atores contracenando numa cena tensa e estratégica, e vale cada se-gundo perceba como a química entre eles, respeitando as características de seus respectivos perso-nagens, é perfeita, transformando esse momento em uma sequência antológica.

O outro ponto alto vem na terceira hora do filme, no terço final, logo após um assalto a banco, com o grupo de ladrões conduzindo pesadas bolsas recheadas de dinheiro para chegar a um carro de fuga. Porém, algo dá errado e tem início um confronto com os policiais liderados por Vincent no meio da rua, entre carros e pedestres, com tiros de fuzis e metralhadoras, em uma das perseguições mais absur-das já realizadas. São cenas violentas, de grande impacto visual, com correria, confronto direto e mui-tos, muitos tiros. Essa é considerada por muitos críticos como a melhor cena de tiroteio já feita pelo cinema. É sensacional, emocionante e com consequências imprevisíveis.
O filme completou 30 anos desde o seu lançamento e continua moderno, vibrante, um autêntico clás-sico moderno que resultou em inúmeras referências para os filmes policiais que vieram depois. Consi-dero o melhor filme do diretor Michael Mann. Se é o melhor filme policial de todos os tempos? Não sei, mas está na minha lista dos cinco melhores da história do cinema, isso é certeza.
“Fogo contra fogo” está disponível nos catálogos de streaming da HBO Max, Prime Video (para alu-gar) e Paramount+. Recomendo muito.
O filme tem uma segunda parte em produção pela Amazon MGM, com o ator Leonardo DiCaprio em um dos papéis principais. O diretor e roteirista Michael Mann quer contar a história como prelúdio e também o que aconteceu depois da trama do filme original. A previsão de lançamento é para 2027.