O avanço das plataformas de apostas esportivas no Brasil deixou de ser apenas um fenômeno de entretenimento para se tornar um problema econômico com impacto direto sobre o orçamento das famílias e o comércio. Um estudo inédito da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que as bets retiraram R$ 143,8 bilhões do varejo brasileiro entre 2023 e 2025, valor equivalente ao faturamento obtido pelo setor nos dois últimos períodos de Natal, a principal data para as vendas.
Segundo o levantamento, o dinheiro que antes circulava no comércio utilizado na compra de alimentos, roupas, medicamentos, eletrodomésticos e outros bens essenciais passou a ser direcionado às plataformas de apostas, muitas delas controladas por empresas sediadas no exterior. Na prática, recursos que sustentavam pequenos negócios e movimentavam a economia local estão sendo desviados para um mercado digital que gera pouco efeito multiplicador na economia brasileira. Muitas empresas comerciais estão fechando as portas devido a queda nas vendas, o que reforça a preocupação com o sumiço do dinheiro que circulava no comércio varejista e que está sendo destinado para apostas.
Os números revelam uma escalada acelerada. O gasto mensal dos brasileiros com apostas esportivas saltou de R$ 4 bilhões em janeiro de 2023 para R$ 29 bilhões em dezembro de 2025, crescimento superior a sete vezes em menos de três anos.
A CNC calcula que cada R$ 1 bilhão destinado às bets provoca uma redução de 0,7% no faturamento do comércio varejista. O impacto é mais intenso entre as famílias com renda de até cinco salários mínimos, justamente as que destinam a maior parte da renda ao consumo e possuem menor capacidade de absorver perdas financeiras.
O estudo também mostra reflexos diretos sobre o endividamento. Cerca de 269 mil famílias passaram a integrar os cadastros de inadimplência em decorrência dos gastos com apostas. Embora o efeito seja mais forte entre os brasileiros de menor renda, o levantamento identificou aumento nos atrasos de pagamento até mesmo entre famílias que recebem mais de dez salários mínimos. O vício em apostas tem causado perdas consideráveis e o endividamento é percebido no comércio, bancos, operadoras de cartões e com agiotas.
Para representantes do comércio, o crescimento das bets representa uma mudança preocupante no destino da renda das famílias. Em vez de movimentar supermercados, farmácias, lojas de bairro e outros estabelecimentos que geram emprego e arrecadação de impostos, uma parcela crescente do dinheiro está sendo consumida por apostas de alto risco, reduzindo o consumo e enfraquecendo a atividade econômica.
Os dados reforçam que o fenômeno das apostas online ultrapassou o campo do entretenimento e passou a influenciar indicadores econômicos relevantes. Além de reduzir as vendas do varejo, o aumento dos gastos com bets pressiona o orçamento doméstico, amplia o número de inadimplentes e compromete a capacidade de consumo das famílias, especialmente das mais vulneráveis.