Não há possibilidade de falar de Jobim sem afeto, principalmente quando se trata dos discos do maestro soberano, que fazem parte da nossa preferência auditiva e afetiva.
Caymmi Visita Tom, 1964
Esse aqui é altar. Jobim chamou Dorival Caymmi para dividir o estúdio e o mestre levou os filhos Nana, Dori e Danilo, junto. Saiu um disco-sarau, sem frescura, só violão, voz e Brasil profundo. É a bossa nova encontrando a raiz baiana. Dois gigantes se admirando sem ego. Você ouve e sente que eles gravaram rindo.
O repertório tem apenas jóias de pura beleza, inspiração melódica e poética. São canções que se tornaram clássicas. Saudades da Bahia: Caymmi abre com aquela nostalgia que só ele tem. Tom no piano é puro suspiro. Tem a bela Inútil Paisagem interpretada por Nana Caymmi com o auxílio luxuoso do pai no contra-canto.
Dizem que Tom deixou o gravador ligado entre as faixas de propósito. Dá para ouvir Caymmi pedindo um cafezinho e comentando “Ô, Tomzinho, essa daí tá danada de bonita”. Virou disco sem saber que virava história.
Outro disco que não sai do meu aparelho de som: Elis & Tom, gravado há 52 anos, mas continua sensacional. Esse não é disco, é briga de titãs que vira amor. Elis exigente, Tom perfeccionista. Gravaram em Los Angeles, com clima tenso e resultado perfeito. Cesar Camargo Mariano segurando tudo no piano quando os dois quase se pegavam no estúdio.
O Lp marca o encontro da voz mais intensa do Brasil com o maestro mais sofisticado. Cada faixa parece última chance de dizer algo importante. A perfeição encontra o perfeccionismo nos 30 takes para gravar Águas de Março. Elis não aguentava mais o “é pau, é pedra”.
No final, saiu o hino. Tom dizia que a letra era catálogo de despejo de quintal. Só Tinha de Ser com Você: Os dois cantando como quem namora escondido. Tem ainda Modinha, Triste, Chovendo na roseira e outras maravilhas.
Dizem, o melhor vem por último. No caso do disco Edu & Tom, de 1981, é a pura verdade. O menos badalado dos três, e justamente por isso o mais gostoso. Tom Jobim e Edu Lobo, dois compositores sem pressão, fazendo música de amigo para amigo.
Soa como fim de tarde em Copacabana com violão na varanda. Mostra o Jobim pós-bossa, mais maduro, flertando com o regional do Edu. Não tem hit de rádio. Tem cumplicidade.
Esses três discos juntos contam o Jobim inteiro: o menino que venerava Caymmi, o gênio que peitou a Elis, e o amigo que sentou no chão para tocar com Edu. Começa por qualquer um. Mas te aviso: depois do primeiro, os outros dois viram necessidade. Qual você vai ouvir primeiro hoje?