Massacrado na estreia, Cotton Club, de Francis Ford Coppola, é um filme subestimado que merece revisão. Se não pelo roteiro, pelo elenco, números musicais e reconstituição de época. Quase tudo se passa no lendário clube do Harlem nos anos 1920/1930, onde negros podiam se apresentar, mas não assistir.
Coppola e Mario Puzo, dupla de O Poderoso Chefão, dividiram a trama em duas frentes: o submundo da máfia e os artistas do Cotton Club. O trompetista Dix Dwyer, vivido por Richard Gere, se envolve com Vera Cicero, namorada do gângster Dutch Schultz. Seu irmão Vincent, Nicolas Cage, mergulha no crime. Bob Hoskins é Owney Madden, o dono do clube com laços na máfia. Gregory Hines brilha como sapateador em busca de reconhecimento.
Cenas e personagens de Cotton Club, de Francis Ford Coppola
A produção esbanja figurino, carros, cenários e jazz, com trilha de John Barry. Custou US$ 58 milhões e fez só US$ 25,9 milhões nos EUA. Teve indicações ao Oscar de Direção de Arte e Edição, e ao Globo de Ouro de Melhor Diretor. Evoca lendas como Billie Holiday, Duke Ellington, Cab Calloway, além de gângsteres reais como Dutch Schultz e Bumpy Johnson. Laurence Fishburne viveu Bumpy aqui e em Hoodlum, de 1997. No Brasil recebeu o título Homens Perogosos.
Com marca operística, Cotton Club não é O Poderoso Chefão, mas tem a grandeza de Coppola, música, ação e a assinatura de Puzo. Os bastidores foram caóticos: Coppola exigiu dirigir, Gere saiu e voltou por US$ 1,5 milhão a mais. Aprendeu trompete e piano para tocar os próprios solos. Em 2017, The Cotton Club Encore restaurou 30 minutos e equilibrou melhor a história dos irmãos Williams, vividos por Gregory e Maurice Hines.
Se Cotton Club é grandioso e trágico, O Ajuste Final dos irmãos Coen é seco, irônico e cerebral. Clássico cult de 1990, homenageia o noir dos anos 30/40 e Dashiell Hammett, especialmente Colheita Vermelha e A Chave de Vidro.
Albert Finney (Leo) e Gabriel Byrne (Tom), no clássico moderno O Ajuste Final, dos Irmãos Ethan e Joel Coen.
Gabriel Byrne é Tom Reagan, conselheiro do chefão irlandês Leo, vivido por Albert Finney. Tom se envolve com Verna, Marcia Gay Harden, amante de Leo e irmã do trapaceiro Bernie Bernbaum, John Turturro. Jon Polito é o rival Johnny Caspar e J.E. Freeman seu capanga Eddie Dane. A trama gira em torno de lealdade, traição e um xadrez sangrento entre gangues.
A direção de Joel e Ethan Coen entrega cenas antológicas. O ataque à casa de Leo ao som de "Danny Boy" é violência poética. Os diálogos são afiados, no estilo Billy Wilder. A fotografia de Barry Sonnenfeld usa chapéus como símbolo visual. O chapéu de Tom representa controle: com ele na cabeça, manipula; sem ele, duvida. Na floresta de Miller's Crossing, corre atrás do chapéu levado pelo vento. Corre atrás do controle absoluto. No fim, coloca o chapéu e sai sozinho. Venceu o jogo, perdeu as pessoas.
Fechando o tríptico vem Era uma Vez na América, de Sergio Leone. É o único filme de gângster que se equipara a O Poderoso Chefão, mas como antítese. Se Coppola romantiza família e poder, Leone destrói qualquer glamour. Lá é Shakespeare, aqui é tragédia suja de rua.
Com 3h49 sem um segundo desperdiçado, Leone guia um épico sobre a Máfia Judaica estrelado por Robert De Niro, impecável como Noodles, e James Woods como Max. Joe Pesci completa o elenco. A trilha de Ennio Morricone é inspirada e dolorosa. Estreou em 1984 e segue essencial.
Robert De Niro (Noodles) e James Woods (Max) são os personagens principais do épico Era uma vez na América, obra-prima de Sérgio Leone
O tempo destrói tudo, menos a culpa. O filme cobre 40 anos de Noodles, do garoto do gueto ao velho arrependido. Dinheiro, poder, amizade: nada sobrevive. Só o peso das escolhas. Ele trai os amigos, perde a mulher que ama e termina sozinho. O "Sonho Americano" é ilusão. A América não recompensa. Corrompe. O título ironiza: "Era uma vez", conto de fadas podre.
A memória não é confiável. Tudo é narrado pelas lembranças de Noodles, misturando passado, presente e delírio de ópio. Leone diz: reconstruímos o passado para nos perdoar. Mas a verdade não volta. O sorriso final no ópio é ambíguo de propósito. Foi sonho? Foi real? Não importa. A mensagem é clara: você não escapa de quem você foi. É arrependimento, não redenção. A cena do telefone tocando por três minutos é o passado cobrando. E não dá pra desligar.
O elo entre os três
Cotton Club, O Ajuste Final e Era uma Vez na América formam um painel do gângster americano em três registros. Coppola filma a era do jazz como ópera: música, excesso e melancolia, ligando arte e crime no mesmo palco. Os Coen destilam Hammett e Kurosawa num noir cerebral onde o poder é mental e o preço do controle é a solidão. Leone filma o tempo como carrasco: nada de redenção, só fantasmas e ópio.
Todos fracassaram na bilheteria e viraram cult. Todos negam o glamour fácil. Cotton Club ecoa Poderoso Chefão na parceria Coppola/Puzo. O Ajuste Final cita Poderoso Chefão em Tom Reagan/Tom Hagen e bebe de Yojimbo, de Kurosawa, que por sua vez se inspirou em Hammett. Era uma Vez na América é o anti-Poderoso Chefão: troca honra por culpa, família por traição.
Um mostra o custo humano da era de ouro. Outro, o prazer doentio de vencer o xadrez. O último, que não há vitória. Só o telefone tocando, o chapéu na cabeça e o sorriso vazio depois que o caminhão de lixo engole tudo.