Fronteira com a Bolívia, avanço das facções, disputa territorial e episódios recentes de violência colocam a segurança pública no centro do debate eleitoral
Foto: Secom/PMRO/Operações
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Há temas que entram em uma campanha eleitoral porque os candidatos escolhem falar sobre eles. Outros chegam porque a realidade obriga. Em Rondônia, a segurança pública reúne hoje características que podem transformá-la em uma das principais pautas das eleições de 2026.
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O cenário não se explica apenas pela sensação de insegurança. Há uma combinação de fatores objetivos: a posição geográfica estratégica do Estado, os 1.342 quilômetros de fronteira com a Bolívia, as rotas usadas pelo tráfico internacional, a presença de organizações criminosas nacionais e episódios recentes que indicam uma disputa cada vez mais agressiva por território.
Ao mesmo tempo, pesquisas nacionais mostram que segurança, violência e criminalidade já estão entre os temas que mais mobilizam o eleitor brasileiro.
Uma pesquisa Nexus/BTG divulgada no fim de julho apontou que 30% dos entrevistados colocaram segurança pública, violência ou criminalidade entre os assuntos mais importantes para as eleições de 2026. O percentual ficou acima de saúde pública, citada por 25%, e de corrupção, com 22%.
Isso ajuda a explicar por que a segurança deixou de ser apenas uma pauta tradicional de policiais, especialistas e candidatos da chamada “linha dura”. Ela passou a ocupar espaço central no debate político nacional.
E, em Rondônia, existem razões adicionais para que o tema seja tratado com ainda mais atenção. E é isso que o Portal Rondoniaovivo busca colocar em debate neste momento oportuno em que o futuro de Rondônia está em disputa eleitoral, em que serão escolhido os senadores, deputados federais, deputados estadual e o próximo governador e vice.
O Estado tem uma característica que poucos estados brasileiros compartilham com tamanha intensidade: está inserido diretamente em uma rota internacional do crime organizado.
Rondônia possui 1.342 quilômetros de fronteira com a Bolívia, atravessando áreas urbanas, rurais e ribeirinhas e envolvendo rios como Guaporé, Mamoré e Madeira. A própria geografia transforma o controle territorial em um desafio permanente para as forças de segurança.
A preocupação ganhou ainda mais dimensão nas últimas semanas. Uma reportagem especial da Band, produzida em parceria com a Polícia Federal e publicada em 4 de agosto, mostrou a atuação de olheiros ligados ao PCC e ao Comando Vermelho na região de fronteira entre Rondônia e Bolívia. Segundo a reportagem, informantes monitoravam a movimentação das forças de segurança — e até da própria equipe jornalística — por meio de aplicativos de mensagens.
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A situação também tem sido retratada pela imprensa internacional. Reportagens da agência AFP, replicadas por veículos brasileiros, mostraram o avanço da influência de facções brasileiras em cidades bolivianas próximas a Rondônia, especialmente na região de Guayaramerín, vizinha de Guajará-Mirim. As apurações apontam que grupos criminosos usam a região como parte de rotas ligadas ao tráfico de cocaína e enfrentam disputas violentas pelo controle dessas áreas — um cenário que levou o governo boliviano a lançar, em agosto, um plano de reforço da segurança fronteiriça batizado de “Fronteiras Seguras”.
Esse é um ponto fundamental para entender o problema. Rondônia não está apenas combatendo o crime que acontece dentro de suas cidades. O Estado está localizado diante de uma das principais portas de entrada de drogas e armas usadas por organizações criminosas que operam em escala nacional e internacional.

Nos últimos meses, o noticiário policial passou a registrar episódios que chamam atenção pela característica de disputa entre organizações criminosas.
Em julho, o Rondoniaovivo registrou sete mortes em apenas 13 dias em Porto Velho, em uma sequência de execuções que reacendeu o alerta sobre uma possível intensificação da disputa territorial entre grupos criminosos. A reportagem apontou características nos crimes compatíveis com execuções e relacionou o cenário à disputa histórica entre PCC e Comando Vermelho.
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Pouco depois, em 6 de agosto, a Polícia Civil prendeu na região da Ponta do Abunã um homem apontado pelas investigações como principal liderança do Comando Vermelho naquela área. A prisão ocorreu no âmbito da Operação Brasil Contra o Crime Organizado.
No Cone Sul, a situação também chamou a atenção das autoridades. Em junho, uma força-tarefa formada por Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Técnico-Científica deflagrou a Operação Antípoda para combater organizações criminosas que atuavam na região de Vilhena, Pimenteiras do Oeste e Rolim de Moura.

Em julho, outra operação, batizada de Compressor, investigou uma cadeia logística usada por uma facção de âmbito nacional para transportar e distribuir drogas provenientes de Guajará-Mirim, com mandados cumpridos em Porto Velho e na própria cidade fronteiriça.
São episódios diferentes, em regiões diferentes, mas que ajudam a compor uma mesma fotografia: o crime organizado está sendo tratado pelas autoridades como um problema territorial, logístico e financeiro — e não apenas como uma sucessão de crimes isolados.
Existe um dado importante que precisa entrar na discussão para evitar uma narrativa baseada exclusivamente no medo.
O Brasil apresentou melhora nos indicadores de violência letal. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais em 2025, uma redução de 8,2% em relação a 2024. A taxa chegou a 19,1 mortes por 100 mil habitantes, a menor da série histórica iniciada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2012. Mas Rondônia esteve entre os estados que caminharam na direção contrária.
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De acordo com o mesmo levantamento, Rondônia registrou aumento de 7,5% nas Mortes Violentas Intencionais em 2025, o segundo maior crescimento entre os sete estados que tiveram alta no indicador — atrás apenas do Rio Grande do Norte (19,6%) e à frente de Acre, Roraima, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro.
Enquanto o país, em média, apresentou redução, Rondônia registrou crescimento — puxado principalmente pelo salto nas mortes decorrentes de intervenção policial, que passaram de 8 casos em 2024 para 47 em 2025.
Por outro lado, o Estado também apresenta um indicador positivo extremamente relevante: levantamento do Instituto Sou da Paz, replicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta Rondônia entre os estados com melhor índice de esclarecimento de homicídios do país. Dos homicídios dolosos ocorridos em 2023, 92% foram esclarecidos até o fim de 2024, o segundo melhor resultado do Brasil, atrás apenas do Distrito Federal (96%) e muito acima da média nacional, de 36%.

Ou seja, a discussão eleitoral precisa ser mais sofisticada do que simplesmente dizer que “a violência aumentou” ou que “a segurança está funcionando”.
Rondônia possui estruturas e resultados importantes, mas enfrenta uma transformação do perfil do crime que exige novas respostas.
A realidade atual exige uma discussão sobre inteligência, investigação, fronteira, sistema prisional, tecnologia, integração entre forças e, principalmente, dinheiro.
As facções criminosas deixaram de funcionar apenas como grupos envolvidos diretamente na venda de drogas. Hoje, organizações criminosas têm estruturas logísticas, comunicação, lavagem de dinheiro, distribuição, recrutamento e capacidade de ordenar ações a distância.
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O debate nacional de 2026 já incorporou essa mudança. Na corrida presidencial, Lula e Flávio Bolsonaro apresentam planos diferentes para enfrentar as facções — o petista aposta mais em prevenção, integração entre União, estados e municípios e inteligência policial, enquanto o senador do PL prioriza o endurecimento penal, a ampliação do sistema prisional e o uso das Forças Armadas. Mesmo com essas diferenças de método, os dois programas convergem em alguns pontos: a necessidade de atacar a estrutura econômica das organizações, controlar fronteiras, usar tecnologia e isolar lideranças criminosas.
Isso demonstra que a segurança pública deverá ocupar espaço relevante também na disputa estadual. E Rondônia tem uma particularidade: o governador eleito em 2026 terá de administrar a segurança pública em um Estado amazônico que funciona simultaneamente como território de passagem, fronteira internacional e corredor logístico.
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Em maio, durante a Operação Fronteira, a Polícia Rodoviária Federal informou a prisão de sete pessoas em Rondônia, além da apreensão de uma arma, 33 munições e aproximadamente 60 quilos de entorpecentes.
Em março, uma operação na região do Rio Abunã e da BR-364 resultou na apreensão de aproximadamente 391 quilos de drogas, além de arma e munições.
Em junho, o Governo de Rondônia anunciou a destinação de R$ 58,4 milhões para a Segurança Pública, com recursos voltados, entre outras ações, ao policiamento, à tecnologia e à modernização dos serviços.

Os números mostram que existe reação do Estado. Mas também mostram o tamanho da pressão sobre as estruturas de segurança.
Diante desse cenário, talvez a pergunta mais importante das eleições de 2026 não seja simplesmente: “Quem é mais duro contra o crime?”
A pergunta deveria ser: “Qual candidato tem o plano mais consistente para impedir que o crime organizado conquiste território em Rondônia?”
Isso envolve discutir questões concretas:
A eleição de 2026 ocorre em um momento particularmente sensível. A pesquisa nacional mostra que segurança já está entre os assuntos mais importantes para o eleitor. A imprensa passou a dedicar cada vez mais espaço ao avanço das facções e à disputa pelo controle de áreas de fronteira.
Em Rondônia, operações policiais recentes mostram a atuação de organizações criminosas em diferentes regiões do Estado. E episódios recentes em Porto Velho e na Ponta do Abunã demonstram que o problema não está restrito à linha internacional.
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Ao mesmo tempo, os dados oficiais mostram que o Estado tem capacidade de resposta e apresenta indicadores positivos na investigação de homicídios.
Por isso, a discussão não deveria ser construída apenas pelo medo. Deveria ser construída pela urgência e essa a proposta dessa pauta discorrida pelo Rondoniaovivo.
Rondônia ainda tem a oportunidade de impedir que problemas observados em outras regiões do país se consolidem em seu território. Mas, para isso, a segurança pública precisa deixar de ser uma pauta episódica — que aparece depois de uma onda de homicídios ou de uma operação policial — e passar a ser tratada como política de Estado.
Em uma eleição na qual serão escolhidos governador, deputados estaduais, deputados federais e senadores, a segurança pública também precisa ser discutida como uma responsabilidade compartilhada entre Estado, União e municípios.
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A fronteira não é apenas uma linha no mapa. É uma porta de entrada para oportunidades econômicas, integração regional e desenvolvimento — mas também pode ser explorada pelo crime organizado.
É justamente por isso que a segurança pública pode deixar de ser apenas mais uma pauta das eleições de 2026 em Rondônia e se transformar em uma das principais decisões que o eleitor terá de tomar diante da urna.
Porque a questão, daqui para frente, talvez não seja apenas quantos policiais Rondônia terá. A questão é quem terá o controle do território: o Estado ou o crime organizado.
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