Áudios obtidos com exclusividade pelo Rondoniaovivo registram a articulação interna do Comando de Greve e do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil (STICCERO) para paralisar 100% das atividades. Em mensagens disparadas aos operários no início da tarde desta quarta-feira (1), as lideranças são taxativas: "Se vocês decidirem ir pra frente do serviço, é para cruzar os braços, não é para ninguém trabalhar".
A revolta da categoria ocorre em meio ao silêncio da concessionária sobre o Acordo Coletivo de Trabalho 2026/2027. "Nem um retorno da empresa além do que vocês já sabem", lamentou um dos líderes em áudio vazado.
Para garantir a adesão total à greve, o sindicato dividiu suas forças. Enquanto um grupo mantém o cerco na Expresso Porto, na capital, equipes estão "descendo de madrugada" para dar suporte e paralisar as obras nos municípios de Ariquemes, Ji-Paraná, Ouro Preto do Oeste e Pimenta Bueno. "Segurem a onda aí. Amanhã nós estamos com vocês no trecho", convocou um diretor sindical nos grupos de WhatsApp da categoria.
Terceirização
Como registrou o Rondoniaovivo, na última semana a concessionária da rodovia emitiu nota oficial afirmando que a paralisação não envolvia seus colaboradores diretos e que não tinha gestão sobre os recursos humanos das prestadoras de serviço. No entanto, relatos e denúncias enviadas à reportagem contam que o distanciamento alegado pela concessionária é apenas burocrático.
Em um dos áudios recebidos, uma fonte próxima aos trabalhadores detalha a manobra empresarial para isentar a concessionária das responsabilidades trabalhistas: "Eles estão parados. Na verdade não é a terceirizada, é uma empresa deles também. São duas empresas do mesmo grupo. Tá feio, tá dando treta", revelou o denunciante.
Sem avanço nas negociações, o risco de novos bloqueios na rodovia é iminente. No início do movimento, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) precisou intervir no km 697 para restabelecer o tráfego.
Outro lado
Procurada pelo Rondoniaovivo para responder às denúncias e ao avanço do movimento, a concessionária Nova 364 apresentou uma versão que contrasta frontalmente com as alegações do sindicato.
Por meio de nota oficial, a empresa rechaçou a acusação de vínculo societário, afirmando que a concessionária e o Consórcio responsável pelas obras "são pessoas jurídicas distintas, com personalidades jurídicas próprias e estruturas administrativas independentes". A responsabilidade pelas negociações coletivas, segundo a Nova 364, recai exclusivamente sobre as prestadoras de serviço.
A maior divergência, no entanto, diz respeito às negociações. Enquanto os grevistas afirmam não ter propostas, a concessionária assegurou que o Consórcio já concluiu as tratativas. "Com a formalização do instrumento coletivo na última semana, as disposições pactuadas passaram a ser observadas e implementadas, em conformidade com os prazos", garantiu a empresa.
Para conter o avanço do STICCERO e evitar novos bloqueios como o ocorrido no km 697, a Nova 364 revelou ter acionado o Judiciário. A concessionária e o Consórcio obtiveram uma liminar em ação de interdito proibitório, que "assegura o livre acesso de pessoas e veículos às frentes de trabalho e veda a prática de atos que impeçam ou restrinjam o exercício regular das atividades".
A concessionária finalizou o comunicado garantindo que mantém o monitoramento constante da via e que os serviços operacionais essenciais, como inspeção de tráfego e atendimento aos usuários da BR-364, seguem funcionando normalmente.