Os seringueiros do Rio Mamu sob a luz da repatriação – Por Marquelino Santana

Os seringueiros do Rio Mamu sob a luz da repatriação – Por Marquelino Santana

Os seringueiros do Rio Mamu sob a luz da repatriação – Por Marquelino Santana

Foto: Divulgação

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Marquelino Santana é professor, poeta e escritor.
Emergidos do bojo dos palcos florestais pandinos, protegidos pelo manto verde da floresta, envelhecidos pela dor do isolamento e alimentados no colo da mãe seringueira, os brasivianos do Rio Mamu ainda correm atrás do mais árduo sentimento de sua utopia humana: a terra prometida. Diante da magnitude de sua complexidade, os nacionais brasileiros estão sendo devorados pelo tempo, enquanto aguardam no silêncio da dor, o tão almejado pedaço de terra em território brasileiro: apenas um pedaço de terra.
Os extrativistas que se estendem de Santa Rosa Del Abuná até Santos Mercado não são dotados de nenhum tipo de ganância capital, não são adeptos da grilagem de terra covarde e assassina deste mundo chamado Amazônia, não sabem dizer o significado de Itamaraty, Embaixada, Consulado ou Ministério das Relações Exteriores.
O seringueiro desconhece o significado de organismos como: ONU, OIM, OEA, DUDH, e tantos outros que poderiam ingressar na defesa intransigente de seus direitos. Apenas escuta falar em INCRA, que encravado em seus impedimentos hierárquicos – financeiros, trava o caminho do direito deste excluso da pátria a obter um pequeno tapiri e uma casa de farinha de mandioca para de ela extrair a base do sustento de sua família.
Quem nasceu nos Seringais Mapiri, Palmares, Barro Alto, Porto Barba e demais denominações peculiares ao imenso vale pandino boliviano, não sabem a quem recorrer no sentido de ouvir apenas um sopro de esperança que seja capaz de aliviar a dor de um coração pisoteado, machucado e desolado. Um coração que bate às duras penas, mas que até hoje ninguém foi capaz de escutar seu batido quase fúnebre da morte em vida.
Pois bem, semana passada, recebemos de Puerto Arika em Extrema uma família de bolivianos doentes e famintos, com duas crianças a serem matriculadas e outra recém-nascida no colo da mãe. A mãe implorava porque queria colocar seus filhos na escola e os documentos escolares bolivianos precisavam ser traduzidos na forma da lei. Os servidores da escola se uniram e conseguiram a quantia necessária para pagar a tradução e assim foi feito: as crianças já estão matriculadas nesta fronteira intermulticultural, enquanto os pais conseguiram um emprego para ganhar o pão responsável pelo sustento da família.
Diferentemente de judeus e coreanos no Estado de São Paulo que propõe dar uma vida nova aos bolivianos ainda desprovidos de direitos e garantias trabalhistas dentro de um contexto legal, aqui nesta região a recepção por enquanto continua séria e acolhedora aos bolivianos, fator divergente da ação dos zafreros campesinos oriundos de Riberalta que humilharam e continuam a desonrar a alma verde amarela dos poucos nacionais brasileiros que ainda insistem permanecer no Rio Mamu.
Nesta fronteira Brasil / Bolívia deparamo-nos com crianças e adolescentes bolivianos trabalhando de forma desumana. As crianças não estudam, não possuem assistência médica, e não se alimentam dignamente. Um jovem jogado no meio da floresta carrega no ombro pedaços de toras de madeira de lei, coloca-as em velhos batelões, atraca do lado de cá do Brasil e sobe feito um “burro de carga” até chegar ao seu destino final: atender as necessidades básicas de fazendas de gado em Território Federal Brasileiro. Aqueles caboclos indígenas parecem não sentir fome, mas ao lado deles não pode faltar um litro de álcool e as folhas de coca que nunca deixam de mascar.
Enquanto isso, aqui na Ponta do Abunã nossos extrativistas continuam a chegar da Bolívia. No início deste ano Heraclito trouxe a família do Seringal Cotovelo do Rio Abunã, alugou uma casa em Nova Califórnia e está vivendo como pode para sobreviver. A família do senhor Raimundo Pereira chegou ao mês de fevereiro do Igarapé Preto também no mesmo distrito e está construindo um pequeno casebre para alojar sua família.
Segundo Raimundo e Heraclito, os campesinos disseram que eles não vão poder continuar morando nos seringais bolivianos. Enquanto isso servidores da educação se uniram para comprar materiais para as crianças e adquiriram cestas básicas para as famílias. Os alunos estão frequentando normalmente as aulas e almejam um mundo melhor, mais justo e mais acolhedor, diferente dos abusos sofridos no país vizinho.
A desestruturação do modo de vida dessas famílias acarretou sérios danos bio – psíquico – sociais, a quem passou a vida inteira vivendo na escola do mundo ribeirinho e agora precisam passar por uma adaptação nos centros urbanos dos distritos da região da Ponta do Abunã. Os Guardiões da floresta estão com os dias contatos para seguir outra viagem.
Quem não se lembra de Elisiane que em 2008 conseguiu fugir das garras dos campesinos varando a mata, carregando uma criança recém – nascida nos braços para enfim chegar à Extrema depois de dois dias de viagem? Hoje ela está paraplégica e depende de cuidados médicos para continuar vivendo e sonhando com uma vida melhor.
Que não se lembra de Dona Guilhermina, esposa de Leonardo Piedade, que faleceu este ano sem conseguir realizar o sonho de ter um pedaço de terra aqui no Brasil?
Quem não se lembra de Dona Francisca que viveu dois meses morando com uma família numa canoa na beira do Rio Abunã à espera de alguém para lhe dar um abrigo, e assim escapar do sol e da chuva? Felizmente ela conseguiu através de muito esforço e com o apoio da comunidade se estabelecer definitivamente no Brasil.
Quem não se lembra de Luiz Piedade, expulso do Seringal Cachoeirinha e obrigado a passar a noite num galinheiro junto com sua família, enquanto os campesinos usufruíram das redes de sua família? Devido uma forte diabete, Luiz encontra-se hoje sem uma das pernas e recebe um benefício do Governo Federal Brasileiro.
Quem não se lembra de França Lima que foi assaltado dentro de sua própria casa com 141 sacos de castanha? Ele teve seus burros mortos devido ao excesso de carga comandado pelos campesinos e ainda teve que abandonar o Seringal Providência para não morrer.
Quem não se lembra da pequena brasileirinha que passou três dias com malária esperando autorização de campesinos armados para vir fazer tratamento médico no Brasil? Depois de autorizada sua saída do Porto Bolívia, ela chegou a óbito no Hospital Regional de Extrema.
O seringueiro do Mamu sabe como ninguém a arte de extrair o látex e em seguida partir para o tempo da colha. Ele sabe abrir estradas como um velho mateiro. Sabe estudar seus varadouros e como ninguém chegar ao espigão no tempo certo. Ele sente de perto o cheiro da fumaça do buião e escolher sabiamente sua espera, para dali conseguir seu alimento. Ele é peculiar como todo homem que sobrevive da floresta sem precisar assassiná-la.
Se ele não sabe se deslocar à Brasília a procura de seus direitos, se ele não sabe utilizar métodos que possam chamar a atenção das autoridades, com certeza sabem continuar a esperar pelas promessas infindáveis da terra prometida. Uma carta já amarelada escrita por um ser semianalfabeto, nada mais é de que um pedido de socorro à pátria que ele mais ama. Um pedido dos mais simples e humildes, implorando por dignidade. França ainda guarda esta carta como lembrança das atrocidades cometidas contra sua família.
Se o Brasil escutar o lamento da dor dessa gente, talvez amanhã seja lembrado como o Brasil que um dia estendeu sua mão aos filhos e filhas da floresta ocidental brasileira. Se o Brasil acordar sensibilizado com o lamento misturado com a humilhação fronteiriça, certamente saberá de forma justa e soberana, repartir um pedaço de chão brasileiro e entregar com justiça, uma pequena fatia a quem tanto dela precisa para arrancar seu sustento: Os seringueiros do Rio Mamu.
Direito ao esquecimento
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