O INCRÍVEL EXÉRCITO BRANCALEONE: Comédia clássica e o grito contra a ditadura - Por Marcos Souza

Assista, se possível, com a sala cheia

O INCRÍVEL EXÉRCITO BRANCALEONE: Comédia clássica e o grito contra a ditadura - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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Esse é um dos melhores filmes da comédia clássica italiana ao retratar uma aventura burlesca, inspirada claramente na obra “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. “O Incrível Exército de Brancaleone” é também um marco ideológico de estudantes e artistas em plena efervescência cultural e política do Brasil no início da Ditadura Militar, nos anos 60, antes da promulgação do Ato Institucional nº 5 (o famigerado AI-5, que retirava os direitos políticos e a liberdade democrática da livre manifestação).

 

Escrito e dirigido pelo ótimo diretor italiano Mario Monicelli, mestre da comédia, que no início da carreira trabalhou com o comediante Totó em oito produções, o filme foi lançado em 1966 na Europa e chegou ao Brasil no ano seguinte, com pouco estardalhaço, mas caiu logo na graça dos estudantes universitários, que viram na aventura uma metáfora, praticamente um espelho daqueles anos iniciais do governo militar, fazendo referência a grupos opositores ao regime, como a seleta armada do cavaleiro Brancaleone (num papel sob medida para o grande ator Vittorio Gassman), em busca de um feudo e que passa a limpo as agruras da Europa no período medieval.

 

Na trama, o ano corresponde a 1000 d.C., quando, após uma invasão a uma aldeia por saqueadores, ocorre um massacre. Surge então um cavaleiro misterioso que acaba sendo vítima de alguns moradores sobreviventes, que se juntam para saquear seus pertences, mas descobrem que ele tem um documento que permite assumir a administração de um feudo distante, onde terá direito às suas riquezas. Ao encontrar um velho mercador que anda com um baú-carroça, que leva para todos os lados, descobrem que precisam de um cavaleiro autêntico para assumir esse feudo.

 

Encontram então o ignóbil, fanfarrão e atrapalhado Brancaleone de Norcia (Gassman). A partir daí, eles seguem caminho por várias regiões com destino ao feudo que fica longe. É nessa jornada que Brancaleone e seu grupo vão passando por situações inesperadas, esdrúxulas e muito, muito atrapalhadas, como a peste negra, a luta contra os sarracenos e os bizantinos, fora os bárbaros (do início do filme, com cenas de violência circense), tratando de temas e focos sociais do feudalismo e discutindo a religião como pregressa do fanatismo católico e a efervescência meritocrática de alguns bastardos — como o personagem do ator Gian Maria Volonté, um cavaleiro perdido que propõe um acordo de sequestro para pegar o dinheiro do resgate do pai, um importante e muito rico senhor do reino, o que gera uma das sequências mais hilárias do filme, envolvendo Brancaleone e a tia do cavaleiro.

 

O grande charme do filme é a desconstrução do heroísmo, com uma produção esmerada em utilizar locações reais de cidades medievais, castelos e aldeias históricas preservadas, como se o diretor desmontasse os frutuosos épicos hollywoodianos (como El Cid, por exemplo), tirando totalmente qualquer romantização, mas tornando-o hilário em muitos momentos, bruto, sem poupar o fato de que a Idade Média real era um ambiente tóxico, pernicioso, cheio de lama, peste, ignorância e miséria uma estética de choque entre o que deveria ser encantador, mas é grosseiro e, acredite, na proposta do filme, é perfeita.

Com o lema marcante, que justamente abre o filme e em vários momentos é entoado como trilha sonora, vem a frase inesquecível da “Armata Brancaleone”:

 

Branca, branca, branca
Leon, leon, leon

 

Tão marcante quanto o lema são os detalhes da história e o desenrolar de alguns cortes no filme, que se tornam gags constantes. Entre eles, o mais marcante é a relação do cavaleiro Brancaleone com seu cavalo amarelo, Aquilante. Uma relação de amor e ódio, mas um não vive sem o outro.

 

Ainda sobre o marco relativo ao seu lançamento no Brasil no período da ditadura militar, vale lembrar que “O Incrível Exército de Brancaleone” se tornou uma referência de dito popular e foi incorporado ao vocabulário, virando uma expressão de enfrentamento e deboche ao militarismo, que vinha intimidando estudantes e a classe operária, principalmente aqueles que faziam oposição ao regime. O filme virou um grande sucesso antes de ser retirado de cartaz, por conta da ampliação do tempo de sua exibição graças à propaganda boca a boca e a uma certa apropriação do seu título para ser usado como expressão de grupos que se insurgiam com idealismo e poucos recursos.

 

O filme está disponível em diversas versões no YouTube, inclusive dublado, na íntegra. Procure o falado em italiano com legendas em português, na melhor versão restaurada.

 

O longa foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e conquistou três prêmios no Nastro d'Argento (Fita de Prata), a principal premiação do Sindicato Nacional de Jornalistas Cinematográficos da Itália.

 

O diretor Mario Monicelli, depois do enorme sucesso do filme, realizou uma continuação em 1970, “Brancaleone e as Cruzadas” (Brancaleone alle Crociate), mas sem o mesmo impacto da novidade.

 

Assista, se possível, com a sala cheia. É um dos filmes mais divertidos já feitos e, com certeza, foi enorme influência para o clássico da trupe Monty Python, “Em Busca do Cálice Sagrado” (1975).

 

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