As três obras falam de mulheres performando um papel que Hollywood impôs. Em O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, performam estrelato mesmo falidas. Em Mamãezinha Querida, Joan performa maternidade perfeita mesmo sendo abusiva. Em Feud: Bette e Joan, as duas performam ódio porque o estúdio lucrava com isso. No fundo, todas expõem o mesmo: quando a imagem pública é tudo que resta, a vida privada vira um filme de terror.
A atriz Joan Crawford, uma das grandes estrelas da história do cinema, manteve uma acirrada disputa com outro mito, a não menos talentosa Bette Davis. Juntas protagonizaram o clássico O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, de 1962, dirigidas por Robert Aldrich. Foi a única vez que as estrelas trabalharam juntas.
Capa da edição brasileira do livro Mamãezinha Querida, de Christina Crawford.
A história dos bastidores deste longa e os altos e baixos da carreira de Joan e Bette são contados com requintes de crueldade na minissérie de Ryan Murphy, Feud: Bette and Joan, de 2017, estrelada por Susan Sarandon, perfeita como Bette Davis, e Jessica Lange em soberba interpretação como Joan Crawford.
Décadas antes, Faye Dunaway também interpretou Joan Crawford no devastador Mamãezinha Querida, de 1981. O filme é uma adaptação do livro biográfico homônimo escrito pela filha adotiva de Joan, Christina Crawford, lançado em 1978.
Joan Crawford e Faye Dunaway caracterizada como a atriz no longa Mamãezinha querida.
A obra causou enorme polêmica ao expor o comportamento tirânico, abusivo e o descompasso emocional de Joan com seus quatro filhos adotivos. Christina relata episódios de violência física e psicológica, incluindo a famosa cena do “cabide de arame”, que virou símbolo do filme.
Mamãezinha Querida, apesar de massacrado pela crítica na época, chegando a ganhar o Framboesa de Ouro de Pior Filme da Década, tornou-se cult pelo tom exagerado e pelas cenas realmente assustadoras da performance de Faye Dunaway.
Faye Dunaway em momento dramático em Mamãezinha Querida
Ao morrer em 1977, a diva, em seu testamento, nada deixou para Christina nem para seu outro filho adotivo, Christopher. Doou sua fortuna de cerca de US$ 2 milhões para instituições de caridade e sociedades protetoras de animais. Para os dois filhos deserdados, apenas uma mensagem: “Se querem dinheiro, façam como eu, trabalhem”. Realmente, uma "mamãezinha querida".
O livro de Christina Crawford se tornou um marco por quebrar a ideia da maternidade idealizada em Hollywood. Antecipou discussões que só ganhariam força décadas depois, como abuso parental, imagem pública vs. vida privada.
Joan Crawford e Bette Davis no embate entre irmãs no terror psicológico O que teria acontecido com Baby Jane?, de Robert Aldrich
O filme de Aldrich usa o grotesco. Baby Jane infantilizada e cruel. O público vê duas divas se destruindo em cena e a violência física e psicológica entre irmãs.
Já Mamãezinha Querida expõe que a “mãe perfeita” dos jornais era violenta em casa. A performance pública era teatro. Sadismo doméstico, violência física e psicológica mãe-filha explodem em cenas como a do cabide, entre outras de igual crueldade.
A série mostra que a briga Davis x Crawford foi alimentada pelo estúdio. Elas performavam rivalidade para sobreviver. Toda a série gira no pânico de Joan e Bette de ficarem obsoletas. “Não contratam mulheres velhas”, dizem. Ryan Murphy abraça o camp de propósito.
Jessica Lange e Susan Sarandon reprodução na minissérie Feud - Bette e Joan, uma cena de O que teria acontecido com Baby Jane?
O mais impressionante são as performances de atrizes extraordinárias: Bette Davis e Joan Crawford interpretando personagens fictícias, Faye Dunaway encarnando uma Crawford assustadora, violenta, instável e abusiva, e Susan Sarandon e Jessica Lange em seus respectivos papéis de pessoas da vida real, Bette Davis e Joan Crawford.
Não posso deixar de citar a batalha de Robert Aldrich para tirar O Que Terá Acontecido a Baby Jane? do papel e que Feud: Bette and Joan dramatiza muito bem os percalços do cineasta, por exemplo, os muitos problemas com as duas estrelas. Em 1962, Bette Davis e Joan Crawford estavam com a carreira em baixa. Hollywood achava que elas já tinham passado da idade pra protagonizar. Nenhum estúdio grande queria arriscar. Aldrich comprou os direitos do livro What Ever Happened to Baby Jane?por conta própria e teve que bancar o projeto quase como independente.
A minissérie mostra que Aldrich bateu na porta da Warner Bros. Jack Warner topou distribuir, mas só depois que Aldrich conseguiu financiamento parcial da Seven Arts. O orçamento foi baixo, filmado em preto e branco, para cortar custos.
Cartaz da minissérie Feud - Bette e Joan com montagem de personagens vividos pelas duas atrizes em filmes como A Malvada (Bette Davis) e Johnny Guitar (JoanCrawford), entre outros
Bette e Joan se odiavam desde os anos 1930. Aldrich virou mediador em tempo integral. Na série, tem a cena famosa da máquina de Coca-Cola que ele autorizou no set a pedido da Bette, só pra provocar a Joan. Joan era viúva de um executivo da Pepsi.
Aldrich usou o roteiro macabro e o status "grand guignol" para convencer as duas que seria um retorno digno. Prometeu close-ups e cenas que mostrassem que ainda eram atrizes de peso. Para Joan, prometeu um Oscar. Para Bette, deu a personagem mais chamativa.
O filme custou 980 mil dólares rendeu 9 milhões na época. Bette foi indicada ao Oscar e Joan ficou fora, o que azedou de vez a relação e é o clímax de Feud. Aldrich conseguiu revitalizar a carreira das duas e criou o subgênero "hagsploitation": terror com atrizes mais velhas.