Erguido no século XVIII às margens do rio Guaporé, no município de Costa Marques (RO), o Real Forte Príncipe da Beira teve sua importância histórica reconhecida mundialmente. No último dia 4 de dezembro, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) concedeu à edificação o status de "Proteção Reforçada", a mais alta classificação internacional prevista na Convenção de Haia de 1954 para resguardar bens em casos de conflitos armados.
A fortificação, que hoje é mantida sob a guarda do 6º Batalhão de Infantaria de Selva (6º BIS) do Exército Brasileiro, é a mais imponente edificação colonial construída na Amazônia Ocidental. O título recém-adquirido exige o cumprimento de critérios rigorosos do Governo Brasileiro e insere o forte rondoniense em um seleto conjunto de patrimônios mundiais que não podem ser utilizados para fins militares, possuindo prioridade absoluta de salvaguarda e mitigação de danos.
A construção da "Sentinela do Guaporé"
A história do Forte Príncipe da Beira confunde-se com a própria demarcação do território nacional. Fruto da política de limites imposta pelo Marquês de Pombal para frear o avanço da Coroa Espanhola na América do Sul, a obra teve sua pedra fundamental lançada em 20 de junho de 1776. A ordem partiu do governador e capitão-general da Capitania de Mato Grosso, Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, que decidiu erguer uma estrutura definitiva de "pedra e cal" para substituir o antigo e arruinado Forte de Bragança.
"Plano do Forte Príncipe da Beira, Mato Grosso", ca. 1775. Cartografia do Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa.
O nome da fortaleza foi uma homenagem ao príncipe D. José, neto do rei D. João V e futuro monarca de Portugal. O projeto arquitetônico original, idealizado em formato de quadrado abaluartado sob o rigoroso sistema militar Vauban, foi inicialmente conduzido pelo engenheiro Domingos Sambuceti. A construção em meio ao "Inferno da América", como a região altamente insalubre era chamada, cobrou um preço alto: Sambuceti faleceu vítima de malária durante as obras, sendo substituído pelo capitão Ricardo Franco de Almeida Serra.
As obras exigiam uma logística brutal. A cal utilizada vinha de Corumbá (MS) subindo os rios Jauru e Guaporé, enquanto ferramentas e outros materiais chegavam do Pará, pelo rio Madeira. A estrutura vultosa, orçada em 480 contos de réis, só foi considerada concluída em 1783.
Abandono, saques e retomada
No início de sua operação, o local serviu como um ativo Armazém Real, guardando de munições a equipamentos náuticos. A partir da década de 1830, já com a presença portuguesa consolidada na região, o forte serviu como prisão para sentenciados e sofreu um levante de sua guarnição.
Reprodução do Comando Militar de Rondônia
Com a Proclamação da República no final do século XIX, a fortaleza acabou abandonada à própria sorte e passou a ser constantemente saqueada. Moradores da fronteira boliviana atravessavam o rio para furtar madeiramento, telhas, grandes portas, peças do piso e até os sinos e imagens da capela.
O gigante adormecido e asfixiado pela floresta só começou a ser resgatado do esquecimento em 1914, quando o então Major Cândido Mariano da Silva Rondon visitou o local e promoveu a limpeza da mata nas ruínas. Demorou ainda até o ano de 1930 para que o Exército Brasileiro voltasse a ocupar permanentemente o local com a instalação do Contingente Especial de Fronteira (atual Pelotão Especial de Fronteira).
Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1950, o Real Forte Príncipe da Beira resiste imponente ao tempo. Com o novo título de Proteção Reforçada da UNESCO, o guardião secular do Guaporé ganha visibilidade global, garantindo que o esforço histórico de preservação das fronteiras amazônicas seja protegido para as futuras gerações.