ELEIÇÕES 2026: 'Já me sinto vitoriosa', afirma Neidinha Suruí sobre disputa ao Senado

Entrevistada pelo Rondoniaovivo na sexta-feira (25), a candidata pelo PSB expõe a violência política de gênero, a escassez de recursos e a sub-representação das mulheres em Rondônia

ELEIÇÕES 2026: 'Já me sinto vitoriosa', afirma Neidinha Suruí sobre disputa ao Senado

Foto: Reprodução

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Na terça-feira (29), o Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia (TRE-RO) indeferiu o registro de chapa do Partido Socialista Brasileiro (PSB) ao Senado após negar o registro do primeiro suplente, Renê Royos. A decisão atingiu a titular Neidinha Suruí, de 67 anos, e a segunda suplente, Berenice, em aplicação ao princípio da unicidade da chapa majoritária. Um novo nome para suplente precisa ser apresentado para que a candidatura continue válida. 
 
Antes do julgamento promovido pelo TRE-RO, o Rondoniaovivo ouviu Neidinha Suruí na sexta-feira (25) para tratar de sua trajetória, das disputas partidárias, da violência política de gênero sofrida por ela e da estrutura da campanha.
 
 
Contestação partidária e denúncia de violência política de gênero
 
 
Durante a pré-campanha, dirigentes do PSB nacional tentaram substituir Neidinha Suruí na disputa majoritária sob a justificativa de indicar outra mulher para a vaga. A candidata recorreu aos órgãos de controle e denunciou o movimento interno como uma infração contra a participação feminina. "Configura violência política de gênero contra duas mulheres, contra mim e contra a pessoa que eles utilizaram para justificar que não era violência política de gênero", afirma Neidinha ao Rondoniaovivo.
 
A violência política de gênero é tipificada pela Lei nº 14.192/2021 como qualquer ação, conduta ou omissão, de natureza física, psicológica, moral, simbólica ou econômica, praticada com o objetivo de impedir, obstaculizar, restringir ou anular os direitos políticos e o livre exercício do mandato ou da campanha eleitoral das mulheres. 
 
No Código Eleitoral (art. 326-B), a infração é conceituada como o ato de assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidatas ou detentoras de cargos eletivos, utilizando-se de menosprezo ou discriminação à condição feminina, cor, raça ou etnia. 
 
Na prática partidária e institucional, a violência se manifesta por meio de agressões, retenção de recursos de campanha, desqualificação intelectual e manobras internas voltadas a silenciar, inviabilizar ou utilizar candidaturas femininas de forma instrumental - assim como ocorreu com Neidinha.
 
Com a repercussão da denúncia de Neidinha, a Direção Nacional do PSB emitiu uma nota afirmando que a resolução contrária à candidatura dela foi editada em estrito cumprimento ao estatuto partidário. 
 
 
Motivação para disputar o Senado
 
 
Neidinha atua há quatro décadas na defesa de territórios indígenas, do meio ambiente e de direitos sociais em Rondônia. A candidata declarou que disputa uma vaga no Senado devido à falta de representação feminina do estado no Congresso Nacional e pela necessidade de pautar grupos marginalizados. Ao explicar a motivação para ingressar na disputa eleitoral, a candidata disse que "pouca gente defende os excluídos". Sobre a escolha do cargo, Neidinha complementou: "No Senado de Rondônia, não tem uma senadora".
 
A última (e única) vez em que Rondônia elegeu uma mulher para o Senado foi em 2002, com a eleição de Fátima Cleide (PT).
 
 
 
FOTO: Neidinha e Fátima Cleide durante o lançamento de candidatura da petista para deputada estadual / Reprodução via Instagram @rondoniapt
 
 
 
Historicamente, Rondônia é um estado perigoso para mulheres. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o estado liderou o ranking nacional de feminicídios em 2022, com uma taxa de 3,1 mortes por 100 mil habitantes, e em 2025 registrou a segunda maior taxa de feminicídios do país (2,9 vítimas por 100 mil mulheres), após uma alta de 66% nos casos. 
 
“A violência se dá de diversas formas. Às vezes as pessoas acham que violência é só quando bate. Muitas das violências às vezes você nem entende como violência. Tem muita gente que agride as pessoas com palavras e ela nem se toca que ela tá agredindo", analisa Neidinha.
 
Para contrapor o clima de hostilidade na política, a ativista defende o exercício constante da empatia no cotidiano e a recusa ao confronto. "Eu tenho dito assim: você tem que dormir no outro e acordar em si. Todas as vezes que eu for dormir, eu tenho que pensar no bem-estar do outro e acordar em mim. Se eu durmo com essa ideia, eu vou querer acordar bem, eu e a outra pessoa", explica Neidinha, que orienta seus apoiadores nas ruas a não responderem a provocações e a não brigarem com ninguém.
 
 
Dificuldades e resistências
 
 
Neidinha contou que realiza as atividades de campanha sem repasses do fundão eleitoral. Ela custeia o deslocamento e o material gráfico com doações de apoiadores. Neidinha criticou a concentração de recursos econômicos na política e ressaltou que recusa a captação ilícita de votos. "Eu não compro voto de ninguém. Todo voto que for dado em mim é voto de quem acredita em mim".
 
De acordo com a última pesquisa Quaest*, Neidinha acumula apenas 1% de intenção de voto. Quando questionada sobre a possibilidade do fracasso nas urnas, a candidata respondeu: "Da onde tu tirou que vai ter fracasso? Eu já sou vitoriosa, meu amigo". Neidinha sustentou que a manutenção da candidatura e a defesa de propostas sociais garantem o cumprimento de seus objetivos. 
 
"Vitória não é só quando tu ganha, sabe? Já ganhei quando o TRE decidiu por 7 a 0 para manter minha candidatura contra a intervenção nacional do partido. Mantiveram a candidatura de uma mulher. Na rua, tem um monte de gente pedindo voto pra essa mulher. Eu vou comemorar com esse povo, seja qual for o resultado, porque eu já sou vitoriosa", concluiu Neidinha.
 
 

 
* Pesquisa encomendada pela Rede Amazônica e divulgada em 24/9. A Quaest ouviu 804 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 20 e 23 de setembro. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. Levantamento registrado no TSE sob números RO-08556/2026 e BR-06511/2026.
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