O surpreendente documentário tailandês “Desaparecida e esquecida: o caso Chompoo” (Chompoo: Lost and Forgotten/2026) já está disponível no catálogo de streaming da Netflix desde essa quarta-feira (20) e mostra sem pudor as consequências de uma cobertura jornalística e midiática pela imprensa no caso do desaparecimento e morte de uma criança de três anos, Orawan Wongsricha, chamada pela família de Nong Chompoo, que acabou se tornando um bizarro entretenimento que transformou um caso policial em um circo de adoração ao principal suspeito.
O filme tem uma proposta muito clara de colocar em discussão a ética jornalística, suplantando uma situação em que um caso criminal em aberto se transforma em assunto de audiência e engajamento, que coloca a vítima em segundo plano de todo o processo.
Dirigido e escrito por Nontawat Numbenchapol, “Chompoo” tem o mérito de colocar a narrativa dramática principalmente nas entrevistas do pai da criança, Anamai Wongsricha, desde quando ela desapareceu misteriosamente, no dia 11 de agosto de 2020 – utilizando material da imprensa na época – até o desenrolar das situações que vão ocorrendo na pequena aldeia isolada na província de Mukdahan, na Tailândia.
Por se tratar de uma comunidade pequena, denominada Kok Kork, todos se unem em busca da menina, mobilizando vizinhos, amigos e a polícia. Um dos parentes que ficava parte do tempo com Chompoo era o seu tio, Chaiphol Wipha (conhecido como “Uncle Phol”) — e se torna o principal suspeito. Com a cobertura massiva das redes de TV em âmbito nacional, o desaparecimento ganha uma grande repercussão e se torna um material de engajamento nas mídias sociais e uma absurda audiência na TV aberta.
Por ser uma figura carismática e com um poder de comunicação, o tio Phol acaba virando uma espécie de porta-voz da família, ainda que de forma involuntária. No entanto, seus depoimentos sobre a sobrinha, a sua participação nas buscas e a forma como processa as informações acabam provocando uma onda de simpatia pela sua pessoa, virando, de forma surreal, uma figura superlativa nas matérias sobre Chompoo, a ponto de ele aproveitar esses momentos junto à imprensa e se tornar quase que um popstar.
Phol vira um querido entre os influenciadores digitais, com imensa popularidade e alavancando audiência para as TVs. As consequências são que os repórteres criam narrativas e pautas para mostrar Phol e utilizar a sua imagem pelo maior tempo possível.
É bizarro, em determinado momento, vermos as entrevistas desse homem, exaltando a sua popularidade e a empatia junto ao público, sabendo que ele é o suspeito pela morte da menina.
A própria polícia, depois de achar o corpo da menina, inicia uma ampla investigação, mas isolando a imprensa, sem poder passar nenhuma informação, somente colocando o tio sob suspeição por causa das várias versões diferentes sobre onde ele estava quando a vítima sumiu.
Mas, diante da fogueira de vaidades em que o suspeito vive o momento, sendo adorado e exaltado pelas pessoas por causa da equivocada cobertura da imprensa — que foca na popularidade do tio e esquece a menina —, sem uma progressão definitiva do caso, o chefe de polícia se manifesta, relatando ter chegado, em definitivo, ao suspeito após ter entrevistado 384 pessoas, com 113 provas sendo avaliadas pela perícia, sendo 16 delas encontradas na cena do crime. Por fim, ele revela que o relatório da investigação estava com 918 páginas.
A partir desse ponto, tem início um processo absurdo em que o tio é inocentado pela opinião pública graças à imprensa, que começa a rever a sua intenção, e vai caber aos jornalistas e à TV tentar reconstruir o caso a partir das provas contra o assassino.
Tem que assistir para compreender, em choque, como a falta de ética e a busca de personagens relevantes nas mídias sociais podem trazer consequências dolorosas à família da vítima.
Em um trecho do documentário, diante desse cenário, um advogado reflete: “O sistema judiciário no país mudou, a verdade não vai ser descoberta se as redes sociais tiverem essa liberdade para interferir nos fatos”.
Pior é constatar essa onda de reversão de papéis nessa história quando um dos jornalistas responsáveis pela cobertura do crime e do processo de investigação solta essa: “Ela era como um anjinho que acabou vivendo por pouco tempo, mas ela me ajudou a ganhar bastante dinheiro. Eu não vou negar que foi isso que me deixou famoso. Minha fama veio do caso Chompoo”.
O documentário atualiza sobre o caso em um julgamento tumultuado ocorrido em 2025 e que traz um desfecho surpreendente e que fica em aberto.
Ótimo documentário e vale conferir. Para jornalistas e acadêmicos, esse é um estudo de caso que mostra bem o revés do mau uso da ética no jornalismo referente a casos de crimes.