REC: O filme que pode superar 'A Bruxa de Blair' como melhor found footage - Por Marcos Souza

'REC'— que, no Brasil, recebeu o ridículo subtítulo 'Possuídos'

REC: O filme que pode superar 'A Bruxa de Blair' como melhor found footage - Por Marcos Souza

Foto: Reprodução

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É um filme espanhol de terror escrito e dirigido pela dupla Jaume Balagueró e Paco Plaza, feito no estilo found footage — ou seja, como se fosse um documentário realizado em tempo real, em que o que assistimos é exatamente o que o cinegrafista está registrando naquele momento.

Filmes de terror nesse estilo tiveram seu ápice com “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project/1999), escrito e dirigido por Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, quando três estudantes de cinema desaparecem em uma floresta e, depois de meses de buscas, encontram-se as câmeras e os registros do que ocorreu com eles.

Um sucesso enorme. Ainda no estilo found footage, o filme “Holocausto Canibal” (Cannibal Holocaust/1980), do italiano Ruggero Deodato, é considerado um clássico do gênero e o primeiro a estabelecer o recurso do found footage — utilizando imagens da equipe de documentaristas que desapareceu na selva amazônica após encontrar uma tribo indígena violenta e canibal — como parte primordial da narrativa.

Com essa ideia simples e até barata na execução de um filme de terror, em que uma única câmera faz todo o registro da ação e do suspense, como se a pessoa estivesse vivendo aquilo em tempo real, veio a repercussão de “A Bruxa de Blair”, provocando o surgimento de alguns filmes no estilo, porém sem o mesmo impacto.

Somente a partir de 2008, os cinemas tiveram, em um intervalo de pouco mais de um ano, dois filmes que provocaram grande celeuma nas salas: “REC”, lançado no mercado espanhol em novembro de 2007 e distribuído para o restante do mundo em 2008; e “Atividade Paranormal” (Paranormal Activity/2007), lançado inicialmente no Screamfest Film Festival, em 2007, com enorme repercussão, chegando aos cinemas apenas em 2009.

Esses três filmes renderam continuações inferiores, mas de grande sucesso, criando e massificando o estilo em outros pseudodocumentários que envolviam desde a ação de serial killers até invasões alienígenas, além da franquia de grande sucesso “V/H/S”, da produtora Shudder.

Mas por que “REC”, a produção espanhola, é, para mim, na opinião de crítico e fã do estilo e do gênero, o ponto culminante de todo um segmento que produz 90% de material ruim e descartável para apenas 10% que realmente valem a pena assistir, sendo o único que tem o poder de superar a proposta tão bem realizada pela gênese de “A Bruxa de Blair”? Pela ideia simples, muito bem executada em uma história de suspense que vai se revelando aos poucos, em uma síncope narrativa cheia de cenas de alto impacto, em um ambiente fechado, opressor e que vai gerando uma carnificina com uma mistura de zumbis, rito religioso, misticismo e aplicação da ciência na manipulação do macabro.

Enquanto isso, o cenário é mantido como um perímetro de contágio, isolado em uma ação policial de segurança máxima conduzida pelo governo espanhol.

Sim, os diretores conseguiram misturar tudo isso em uma história que se desenvolve a partir de uma personagem carismática e que conduz todo o andamento da ação que ocorre ao seu redor.

Vejamos: Ángela Vidal (ótima interpretação da atriz Manuela Velasco) é uma repórter televisiva de um programa de grande sucesso na TV espanhola, “Enquanto Você Dorme”, no qual ela, acompanhada de seu cinegrafista, Pablo (Pablo Rosso), mostra atividades que ocorrem durante a madrugada, acompanhando a rotina de alguns trabalhadores.

O foco do filme é mostrar as atividades dos bombeiros de Barcelona durante o plantão noturno. Dois bombeiros, Álex (David Vert) e Manu (Ferrán Terraza), acompanham a repórter, mostrando como funciona todo o processo, desde o plantão até o atendimento quando ocorre uma chamada de emergência.

Com a câmera de Pablo acompanhando tudo, Ángela vai relatando todo o processo, até que um chamado é feito: em um prédio de apartamentos, aparentemente uma senhora idosa, identificada como Izquierdo (María Teresa Ortega), está presa, gritando muito e colocando todos em alerta.

No que aparentemente parece um caso simples, a repórter resolve acompanhar a equipe de bombeiros para registrar a ocorrência. Nem tudo é tão simples quanto aparenta.

No local, os bombeiros encontram alguns policiais que também foram atender ao chamado dos vizinhos, assustados com o desespero da senhora presa em um apartamento de um dos andares do edifício.

 

Os policiais, que no início detestam a presença da equipe de reportagem registrando tudo, sobem até o apartamento, entram e encontram a senhora Izquierdo transtornada, com o rosto coberto de sangue.

Um dos policiais é atacado e mordido, dando início ao horror.

Conduzido pelos bombeiros, juntamente com outro policial ferido para receber atendimento, o grupo logo descobre que o prédio foi isolado pela força nacional de segurança e que todas as saídas foram fechadas, mantendo todos presos no interior do edifício, sem qualquer explicação.

Sabem apenas que a ordem é de caráter sanitário, em razão do contágio de um mal presente no prédio.

Álex, um dos bombeiros, permaneceu no apartamento da idosa tentando controlar a situação. Quando todos estão reunidos no saguão — vizinhos e moradores —, ele cai pelo vão da escada, ferindo-se gravemente.

A equipe policial, junto com a equipe de reportagem — que utiliza a iluminação da câmera de Pablo para clarear o ambiente, já que parte do prédio teve a energia comprometida —, resolve confrontar a velha senhora, que parece ainda mais transtornada, até ser abatida a tiros.

Então, a história dá a primeira grande guinada, com Ángela e Pablo se desesperando diante da situação. Mas ela se controla e pede que ele continue registrando tudo.

A história vai ganhando contornos de mistério quando a repórter passa a entrevistar os moradores para entender o que está acontecendo.

Em seguida, entra um inspetor de saúde usando uma roupa de proteção especial para atender os feridos e recolher amostras de sangue de todos.

Ele revela que o local está contaminado por uma doença misteriosa, transmitida pela saliva, como se fosse uma espécie de raiva que deixa as vítimas transtornadas e violentas.

Explica, então, o motivo do isolamento do prédio e da investigação em torno de seus moradores.

Todo esse registro é feito pela câmera de Pablo, que segue as ordens de Ángela, a qual, a cada revelação, vai se surpreendendo com os acontecimentos.

Nesse ambiente fechado e claustrofóbico, uma série de situações inusitadas passa a ocorrer quando policiais e outras pessoas são contaminados.

Um grupo formado por Ángela, Pablo, um dos policiais e alguns moradores tenta sobreviver aos ataques e entra em diversos apartamentos para se proteger ou se esconder.

Em um desses apartamentos, a repórter descobre um laboratório e as possíveis informações sobre a origem do vírus que causou toda a confusão, a partir da identidade de um morador misterioso: um agente do Vaticano, biólogo e obcecado por possessões demoníacas, que pretendia provar que esse mal era causado por um vírus, além da menção e dos registros envolvendo uma menina.

Todo o processo narrativo que impulsiona as ações, os sustos, o medo e o ambiente opressor faz com que o registro da câmera de Pablo seja o termômetro do que o espectador irá ver, presenciar e testemunhar, conduzindo-nos a um medo imersivo fora do comum.

Os cortes abruptos da câmera, a correria e o tremor das imagens em determinados momentos transformam a experiência de assistir ao filme em uma verdadeira montanha-russa de emoções genuínas.

Se em “REC” não temos momentos mortos ou repetitivos — como ocorre em “A Bruxa de Blair”, com a repetição de sequências dos dias de conflito entre os estudantes perdidos na floresta, nas quais muitas vezes nada acontece —, a principal receita dessa incursão imersiva deriva da direção da dupla de cineastas espanhóis, que não mede esforços para provocar reviravoltas na trama e usar de criatividade para explorar o espaço limitado do interior do prédio por meio de uma única câmera, responsável por todo o registro dos acontecimentos.

Esse filme fez tanto sucesso na época que a Fox Searchlight Pictures (o braço da Fox para filmes independentes) adquiriu os direitos internacionais da franquia, que teve três continuações. “REC 2” (2009) continua exatamente do ponto em que termina o original.

Depois, “REC 3” foi lançado em 2012, com uma queda brutal na qualidade da história, ambientada em um casamento tomado pelos infectados.

A franquia foi concluída com “REC 4”, lançado em 2014, trazendo o retorno da personagem Ángela Vidal, agora presa em um navio em alto-mar submetido à quarentena após um surto entre os passageiros.

A Sony Pictures produziu uma refilmagem norte-americana e a lançou em 2008 com o título “Quarentena” (Quarantine), dirigida por John Erick Dowdle e estrelada por Jennifer Carpenter (famosa por interpretar a irmã do protagonista da série “Dexter”) no papel de Angela Vidal.

É um filme regular, que segue praticamente o mesmo roteiro do original, com mínimas alterações.

Se você assistiu ao filme original, prefira ele. “REC” está disponível no catálogo do serviço de streaming Prime Video e também no YouTube (versão dublada). Para quem ainda não assistiu, recomendo muito.

É uma excelente opção para ver no escuro da sala ou do quarto. 

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