SOCORRO!: Aventura e terror com o humor bruto numa ilha deserta - Por Marcos Souza

Filme teve um atraso de cinco anos até ser realizado

SOCORRO!: Aventura e terror com o humor bruto numa ilha deserta - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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O diretor Sam Raimi tem uma carreira irregular em sua filmografia, mas possui um olhar clínico na construção de cenas de impacto, principalmente quando utiliza recursos de fotografia e montagem — com aceleração ou um malabarismo de câmera para ângulos inusitados —, e isso se transformou em uma marca, uma identidade de estilo única.
 
Já escrevi a crítica do seu primeiro filme, “A Morte do Demônio” (Evil Dead/1981), um clássico do terror independente que fez enorme sucesso no circuito alternativo e gerou uma franquia. Ele também foi quem deu vida à primeira trilogia dos filmes do Homem-Aranha — via Sony — nos anos 2000. Vez ou outra, ele escreve, produz e lança um filme de gosto pessoal, que sacia a vontade cinéfila dos fãs.
 
Se, no ótimo “Arraste-me para o Inferno” (2009), a protagonista, uma gerente de crédito, lutava contra os poderes amaldiçoados de uma velha senhora após contrariá-la no sistema bancário, Raimi, depois de um período envolvido com produções aleatórias que subestimaram seu talento, como a chatíssima aventura de fantasia “Oz: Mágico e Poderoso” (2013) ou ainda o segundo filme do místico Dr. Estranho, para a Marvel, em 2022, ele entregou este ano “Socorro!” (Send Help/2026), um filmaço de sobrevivência que transita por dois gêneros: a aventura e o terror.
 
O filme teve um atraso de cinco anos até ser realizado, pois era um projeto antigo de Raimi. Ele topou produzir e dirigir o roteiro original escrito por Damian Shannon e Mark Swift. A Sony seria a produtora responsável, mas achou o filme muito violento. Depois de uma longa negociação, a 20th Century Fox assumiu a produção, pelo potencial do diretor e porque ele queria que a atriz Rachel McAdams fosse a protagonista do filme, em um papel atípico em sua carreira.
 
“Socorro!” fez relativo sucesso nas bilheterias e foi lançado nos cinemas em janeiro deste ano. Teve um custo de US$ 40 milhões e arrecadou US$ 94 milhões.
 
No filme, Linda Liddle (McAdams) é uma das mais talentosas e brilhantes estrategistas de uma grande empresa corporativa e ambiciona uma promoção prometida por Bradley Preston (Dylan O’Brien), filho de seu antigo chefe, que acabou de assumir a direção e foi nomeado o novo CEO. Ela escreve uma proposta de crescimento da empresa, porém tem sua ideia roubada por Donovan, um recém-contratado que despreza seu talento por achar que ela é sem graça, veste-se mal e não corresponde ao perfil de um cargo superior ao dele.
 
 
Bradley acaba dando o cargo para Donovan em detrimento da pretensão de Linda, que se sente humilhada. Desprezada e desconsiderada pelo CEO, que a intimida dentro da corporação, Linda se frustra, mas, mesmo diante do revés, é insistente. Como prova de que ela pode ter uma chance de crescimento, o CEO a convida para participar de uma importante reunião que deve finalizar a fusão entre empresas. Ela então acompanha, em um voo fretado, Bradley e Donovan, que conseguiu um vídeo comprometedor de Linda quando ela tentou participar do programa “Survivor” e fica exibindo o material ao chefe, dando risadas como forma de apequenar o talento da colega.
 
Porém, quando o avião em que eles estão atravessa uma tempestade, ocorre uma pane no motor e todos entram em pânico quando a aeronave começa a cair rapidamente. Donovan ainda tenta estrangular Linda para escapar da morte, porém ela consegue se defender, cravando um garfo nele. O avião cai no mar, e somente Linda e Bradley escapam da morte.
 
No dia seguinte, Linda desperta em uma praia de uma ilha remota no Golfo tailandês e encontra seu chefe gravemente ferido. Pelo fato de possuir conhecimentos de sobrevivência, utiliza isso para construir um abrigo, conseguir comida e água, fazendo com que Bradley fique dependente de seus cuidados.
 
A partir desse ponto, o roteiro dá uma guinada, e Raimi mostra o que de fato representa o pedido de socorro, pois será nessa relação entre os dois que a ação se desenrola em um conflito que começa com Linda se impondo sobre ele, pelo fato de estarem sozinhos naquele lugar, ele ferido e ela dominando as técnicas de sobrevivência, subvertendo os papéis de quem manda naquele momento.
 
Óbvio, Bradley, machista e ressentido por estar à mercê de uma mulher que despreza no ambiente de trabalho, tenta criar maneiras de controlar Linda, mas a falta de habilidade para buscar recursos — algo que ela domina — o torna quase um inútil naquele pedaço de terra no meio do mar. À medida que os dias passam, vamos vendo que ela é, de fato, quem tem o domínio da situação, como é mostrado quando enfrenta um javali em uma das sequências mais sangrentas do filme.
 
 
O diretor não poupa sangue, situações que beiram a violência explícita ou a exposição latente de um conflito que, às vezes, lembra uma guerra dos sexos.
 
Linda, após sofrer uma tentativa de envenenamento por parte de Bradley, que tenta fugir em uma jangada improvisada, reverte a situação e consegue arquitetar uma ação que levará seu chefe ao limite da sanidade. A coisa piora quando a namorada de Bradley, Zuri, que estava acompanhando um barco de resgate, chega à ilha para tentar salvá-lo.
 
Assista, pois essa é apenas a primeira metade do filme, que vai crescendo como uma sinfonia descontrolada envolvendo os dois e trazendo consequências inesperadas e absurdas.
 
E acredite: o final tem uma reviravolta reveladora que culmina em um confronto inesperado e brutal.
 
“Socorro!” é um filme com humor ácido calculado e muito bem estruturado na narrativa direta e na excelente construção de personagens. E é muito bom ver a atriz Rachel McAdams, tão comum em papéis de mocinha em filmes românticos ou comédias, em um filme de terror e aventura no qual sua expressão física e corporal é exigida na medida em que a personagem pede.
 
 
Um belo trabalho do diretor Raimi, que já está disponível no catálogo do serviço de streaming Disney+ e vale muito a pena. Para assistir com a sala cheia: muitos vão rir de nervoso.
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