A minissérie “All Her Fault” que, numa tradução literal, significa “Tudo Culpa Dela” é uma das maiores surpresas desse início de ano, disponível no catálogo do serviço de streaming da Prime Video. Já é a produção mais vista atualmente no Brasil e vem arrebatando fãs pela sua história de mistério, reviravoltas e, principalmente, por mostrar de forma intensa como as relações familiares, conjugais e as pressões da maternidade transformam vidas e criam o caos.
“All Her Fault”, em oito episódios, é uma adaptação do livro de sucesso de Andrea Mara, de 2021, e toca em temas incômodos, mostrando as inter-relações pessoais e conjugais a partir de um mistério que vai atingir todos os personagens.
Marissa Irvine (numa interpretação maravilhosa da atriz Sarah Snook, que já havia estourado na clás-sica “Succession”) é uma mulher de negócios que vai buscar seu único filho, Milo (o ótimo ator mirim Duke McCloud), na casa de uma senhora que a escola disse que a babá havia levado. Sem atentar ao aviso incomum, ela chega à casa e descobre que ninguém no endereço informado viu a criança. Em choque, ela tenta falar com a escola, com a professora do filho, até compreender que a criança foi ví-tima de um sequestro.
Essa é a cena de abertura não é um spoiler, pois toda a base da trama da minissérie decorre com esse desaparecimento.
A partir disso, a vida de Marissa vira de cabeça para baixo e, com a ajuda da polícia, ela vai tentar montar um quebra-cabeça dos últimos momentos do seu filho antes de ser sequestrado, como desco-brir a última pessoa que esteve com ele: uma outra babá, chamada Carrie (a ótima Sophia Lillis, do filme “It – A Coisa”), que o levou.
Carrie é a babá do filho de Jenny (Dakota Fanning, muito bem, por sinal), uma editora de sucesso que tenta dividir seu tempo entre o trabalho na empresa onde atua, os cuidados com o filho e a vida do-méstica.
Quando o detetive McConville (o sempre ótimo Michael Peña) entra em cena como o investigador encarregado do caso, ele apura a situação na casa de Marissa, interrogando a família, como o marido dela, Peter Irvine (Jake Lacy), um bem-sucedido empresário do setor de finanças e investimentos; o cunhado, Brian (Daniel Monks), que tem uma deficiência na coluna que o obriga a andar de muleta; a cunhada, Lia (Abby Elliott); e a babá de Milo, Ana Garcia (Kartiah Vergara), que no início gera des-confiança no investigador.
Com a ajuda da imprensa e a polícia em cima do caso, o desaparecimento ganha grande repercussão na mídia, pois Marissa e Peter são um casal bem-sucedido nos negócios e moram numa mansão, tendo Brian como um dos moradores devido à sua condição especial.
Jenny, comovida e se sentindo culpada porque a babá do seu filho, Carrie, que está desaparecida, foi quem levou Milo, resolve conhecer Marissa e lhe dar apoio. As duas acabam se identificando e se tornam amigas.
Com esse núcleo de personagens, vamos então descobrindo, a cada episódio, como é a vida de cada um incluindo a do detetive McConville, que tem um filho de dez anos com necessidades especiais e é constantemente cobrado pela ex-mulher por sua presença.
Uma das coisas mais interessantes dessa minissérie é que, a cada episódio, vamos nos enredando pelo mistério desse sequestro e por como todos estão envolvidos de forma dramática, onde a maior dor é a de Marissa, mas alguns segredos são mostrados como uma teia que precisa ser desatada. As viradas vêm no final de cada episódio para que, no próximo, seja colocada uma pista que levará a alguma sequência dramática.
Um fator que nos engana no início, principalmente nos três primeiros episódios, é que tudo leva a crer que a força motriz dessa produção é o sequestro e sua motivação, como se isso fosse, de fato, a maior relevância do enredo. Mas, quando existe uma superexposição de diálogos entre os personagens en-volvidos, como Marissa e seu marido Peter, ou quando ela confidencia alguns de seus problemas a Jenny, ou ainda quando, numa conversa com o detetive, descobre que ele é um pai que tenta estar presente na vida do filho com necessidades especiais.
O que parece ser uma embromação ou “encheção de linguiça”, vamos descobrir que tudo faz sentido no desenrolar da trama. Quando, no quarto episódio, há uma sequência de “lavagem de roupa suja” entre a família de Marissa, envolvendo seu marido e os irmãos, as revelações são chocantes e intensas. É onde verificamos o sentido dos segredos familiares, a quebra de confiança e as soluções nada fáceis para decisões que mudam destinos como na vida real.
A partir desse momento, há uma reviravolta no caso, e alguns segredos obscuros apresentados antes na narrativa vão eclodir nos dois últimos episódios. No penúltimo, quando temos um capítulo inteiro dedicado à vida de Carrie, a babá sequestradora, vamos compreender que existe um fator muito im-portante para tudo o que aconteceu e que afetará todo mundo.
Outro fator interessante apresentado é a forma como as relações afetivas das personagens Marissa e Jenny com seus maridos têm algo em comum: a maneira como eles lidam com os problemas domésti-cos sem a devida preocupação com o trabalho delas, sufocando pela ausência em momentos cruciais, abdicando de estar presentes. O caso mais insólito é o do marido de Jenny, Richie (Thomas Cocque-rel), que vai provocar uma reviravolta na vida dela.
É o máximo que posso contar dessa história instigante, que justifica todo o sucesso que vem obtendo na plataforma. Essa é, com certeza, uma das melhores minisséries do ano. Tem o impacto emocional perfeito.