Quem Segura a Escada - Por Sara Xavier

Estava dentro do carro, esperando o Paulo

Quem Segura a Escada - Por Sara Xavier

Foto: Divulgação

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Era uma tarde comum, dessas que não prometem nada. O trânsito seguia seu ritmo habitual, as pessoas iam e vinham, e eu observava a cidade através do para-brisa, como quem assiste a um filme sem roteiro.
 
Foi então que vi um homem tentando retirar um banner de uma parede.
 
A comemoração anunciada no cartaz já havia passado há alguns dias. O vento e a chuva começavam a fazer seu trabalho silencioso, desgastando o material. Alguém precisava removê-lo.
 
O homem apareceu carregando uma escada.
 
Encostou-a na parede e tentou subir. A escada, porém, parecia não concordar com o plano. Escorregava para um lado, ameaçava deslizar para o outro. Ele subia um ou dois degraus e descia rapidamente. Tentava novamente. Recuava.
 
Confesso que fiquei apreensiva.
 
Por diversas vezes pensei em abrir a janela e alertá-lo sobre o perigo. Em outras, pensei que talvez estivesse sendo apenas intrometida. Permaneci observando, mas sem conseguir desviar os olhos da cena.
 
À medida que ele insistia, aumentava em mim a sensação de que algo poderia dar errado.
 
Foi então que um homem que passava pela rua percebeu a dificuldade.
 
Não perguntou nada.
 
Não fez comentários.
 
Não ofereceu conselhos.
 
Apenas aproximou-se e segurou a escada.
 
Só isso.
 
O trabalhador então subiu com tranquilidade, retirou o banner, desceu em segurança, recolheu seus materiais e foi embora.
 
A cena durou poucos minutos.
 
Nem me lembro se houve agradecimento. Talvez tenha havido. Talvez não.
 
O que ficou na memória foi outra coisa.
 
Durante alguns instantes, dois desconhecidos compartilharam uma tarefa simples. Um precisava retirar o banner. O outro percebeu que a escada balançava.
 
Sem combinar nada, resolveram o problema.
 
O trânsito continuou passando.
 
As pessoas seguiram seus caminhos.
 
E eu fiquei ali, olhando para uma escada encostada numa parede, pensando como certas cenas pequenas acabam permanecendo por muito mais tempo do que imaginamos.
 
Sara Xavier Duque Estrada de Oliveira
Direito ao esquecimento

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