PAIXÃO MUNDIAL: Saudosismo de Copas do Mundo

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Saudosismo de  Copas do Mundo
 
Diz o clichê que a Copa do Mundo para o planeta. No Brasil, ela não para; ela nos transporta para uma dimensão paralela onde o humor da nação depende da junta médica,  do joelho de um atleta. Aquele calo inflamado vira drama. Ontem Pelé, Zico, Branco, Romário, Ronaldo; hoje, Neymar!
 
Ah, o ano de 2026. Aterrissamos na realidade fria dos números e do futebol burocrático. Duas rodadas se passaram e o torcedor brasileiro já gastou seu estoque anual de paciência e unhas roídas. Foram dois testes que, se fossem provas escolares, nos deixariam de recuperação por falta de capricho. Jogamos mal, muito mal. Ficamos devendo futebol e sobrou tédio. O brasileiro aceita a derrota se ela vier embalada em uma epopeia lírica; o que o brasileiro não perdoa é a mediocridade sem alma. É o que está acontecendo.
 
Mas o futebol é imune à lógica. Basta lembrar de 1994. Nos classificamos no sufoco contra o Uruguai, sob a ameaça de um fantasma conhecido pelo codinome de Maracanazo. Afastada a bruxa, Carlos Alberto Parreira e Zagallo aplicaram uma tese revolucionária: a de que jogar feio também ganha jogo. Romário consagrou o gol de bico, a estética foi sacrificada no altar do resultado e acabamos dando a volta olímpica. Exorcizamos os demônios com pragmatismo e um pouquinho de feiura.
 
A Estética da Derrota
 
Agora, se o assunto é o paradoxo entre o favoritismo e o desastre, precisamos falar de Telê Santana. O mestre comandou as emblemáticas seleções de 1982 e 1986. Como jogavam bonito aqueles homens! Zico, o Galinho de Quintino, escoltado por uma miríade de talentos.
 
E qual foi o resultado prático de tanta beleza? A tragédia, claro. O futebol adora punir o lirismo. Em 1982, a Itália nos despachou por 3 a 2, com três gols de Paolo Rossi, um sujeito que decidiu virar herói nacional justamente naquela tarde. Em 1986, foi a vez da França nos empurrar para o abismo em um jogo em que os deuses do futebol estavam de mau humor. Zico, recém-saído do estaleiro, entrou e perdeu o pênalti que nos daria a classificação. No fim, a bola que batia na trave, batia nas costas do goleiro e entrava, selando nosso destino. Fomos eliminados com requintes de crueldade. Haja sofrimento!
 
O Rádio e o Arroz
 
Recordar essas Copas me devolve aos cenários daqueles dias fatídicos. Em 1982, eu morava na zona rural do que hoje é o município de Pimenteiras. Naquela época, o mundo nos chegava em ondas curtas, pela Rádio Nacional de Brasília, na voz de José Carlos de Araújo e cia. Meu socorro acústico era um mini Moto Rádio, comprado a prazo de um vizinho. O bicho sofria de severas limitações técnicas para cumprir sua missão.
 
Para melhorar a audição, "assisti" ao jogo contra a Itália empoleirado em cima de uma carga de arroz, na carroceria de um velho Chevrolet. O veículo fora contratado para transportar a colheita do vizinho Félix Conceição.
 
Hoje, a estrada entre Cerejeiras e Pimenteiras é um tapete de asfalto percorrido em poucos minutos. Naquele tempo, a viagem durava uma eternidade pontuada por obstáculos medievais. Não havia pontes. Diante de cada riacho, a operação era sempre a mesma: descarregar a carga no braço, passar o caminhão pelas estivas de madeira e carregá-lo novamente. Um mutirão de suor e solidariedade vicinal.
 
No meio desse vaivém de estradas e futebol, o rádio chiar e perder a frequência era um drama à parte. A última vez que o aparelho tossiu algum som inteligível, Sócrates havia empatado o jogo. Na minha cabeça convicta de torcedor, o Brasil estava classificado. Só fui descobrir horas mais tarde que um tal Paolo Rossi havia enterrado nossas esperanças.
 
A Tecnologia da Engenhosidade
 
Em 1986, a civilização havia avançado alguns metros. As estradas ainda eram de terra, mas transitáveis. A grande novidade era a promessa da imagem: a televisão. Juntei minhas economias e comprei uma TV movida a bateria e a maior antena “escama de peixe” disponível no mercado. Era uma aposta contra a física e a geografia.
 
A começar pela logística da energia. A bateria automotiva era pesada e sua autonomia, de uma brevidade incômoda. Como o posto de recarga mais próximo ficava distante, criamos um tratado de cooperação comunitária: cada vizinho ficava responsável pelo revezamento da bateria, transportada no lombo de bicicletas. Funcionou. Não perdemos um jogo — ou melhor, assistimos a todos.
 
A antena foi outro épico. O sinal vinha da vizinha Cerejeiras, emitido pela Rede Amazônica, o que exigia uma estrutura de altura colossal. Como o orçamento não previa o luxo de um mastro metálico, resolvemos o problema à moda antiga. Armados de machados, entramos na mata até encontrar uma vara de madeira que parecia tocar o céu. Erguê-la foi uma operação de guerra que misturou engenharia intuitiva e força bruta. Instalada a engenhoca, restou passar o café, torrar o amendoim e esperar o confronto.
 
Minha pequena casa virou o Maracanã, gente pendurada até na janela. Não havia espaço nem para um suspiro mais profundo. Tudo ia bem até aparecer a França de Platini. Careca abriu o placar, e a casa quase veio abaixo. Veio o empate dos Les Bleus. Silêncio que poderia ser cortada à faca. No segundo tempo, o drama de Zico e o pênalti perdido. Na prorrogação e nas penalidades máximas, o colapso.
 
Ninguém daquela geração de ouro de 82 e 86 levou a taça da FIFA para casa. Nem Zico, nem Platini. Mas, olhando para trás, acho que eu e meus vizinhos vencemos as nossas próprias Copas do Mundo. Nós abríamos estradas no braço, construíamos pontes do nada e carregávamos o progresso nas costas. Isso exige exatamente o que se espera de um escrete campeão: espírito de equipe, algo que nos falta hoje.
 
Nestas tardes de expectativas, com o coração apertado à espera de novo  apito inicial, deixo um abraço nostálgico aos companheiros daquela seleção da vida real: os atacantes Zé Maria, Cico, Valentin e Alfino; os médios-volantes Quinzinho e Adair; os laterais João Correia, Sérgio e Félix Conceição; os zagueiros Celso, Luiz Alcides e Duda; os goleiros Cidão e Luzemar, dentre outros — além de um zagueirão desastrado que fazia mais gol contra do que os defendia.
 
Que os rapazes de chuteiras psicodélicas de hoje corram metade do que nós corríamos para ouvir um jogo chiado ou ver  na TV preta e branca e, mais ainda, para melhorar a nossa tribo. E que cada comunidade continue driblando suas dificuldades, para que daqui a algumas décadas outros velhos saudosistas tenham boas crônicas para contar.
Saúde, Neymar! Força, Brasil! Que venha o Hexa! Se for agora — melhor ainda!
 
Daniel Pereira, Lider do Santa Cruz, a melhor equipe de futebol que já existiu na Linha Sete/Pimenteiras/RO*.
*Foi o único que existiu por lá.
Direito ao esquecimento

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