Sentei à mesa numa noite calma e silenciosa. Era o ambiente perfeito para poder entrevistar a minha querida mãe Leda, de 58 anos (embora ela seja a minha avó). Quando abri o notebook, com as perguntas prontas para serem respondidas, eu lhe disse que o tema seria a sua juventude: como isso a ajudou a amadurecer e o que ela gostaria de ter feito diferente. Quando minha mãe escutou, pareceu um pouco perdida. Naquele instante, percebi que talvez ela nunca tivesse pensado nisso tão profundamente. Não foi uma entrevista fácil, a conversa ficou um pouco bagunçada porque ela se sentiu extremamente nervosa.
Naquele momento, fiz a primeira pergunta: qual era o maior sonho ou plano que ela tinha na juventude? Ela respondeu de forma simples e direta, sem se aprofundar: “O maior sonho da minha vida naquela época era fazer uma faculdade para ser professora.” Pedi que ela contasse um pouco mais, porque senti que faltava algo sobre o porquê de não ter realizado esse sonho. Então, ela explicou que, aos 15 anos, tinha muita vontade de estudar e de ser professora, porque admirava quem ensinava e via a educação como uma forma de mudar vidas. Mas, infelizmente, isso se tornou um sonho impossível, porque seus pais, por serem leigos e do interior, nunca entenderam a importância dos estudos. Sua mãe a criou — junto com as irmãs — para ser dona de casa e ter filhos, como se isso fosse o destino de toda mulher.
Por ver seus sonhos se tornarem impossíveis, ela se casou aos 18 anos. No relacionamento, teve um casal de filhos, Lucas e Leidiane. Na vida de casada, não precisou trabalhar e se dedicou apenas ao lar. Quando perguntei em que momento ela sentiu que amadureceu, ela me contou que o relacionamento foi bastante curto, e que precisou começar a trabalhar para sustentar os filhos. Mas o amadurecimento veio com a dor também. No fim dos 20 e início dos 30 anos, ela viveu um relacionamento abusivo — uma fase muito difícil. Quando começou a ficar depressiva, foi necessário ser internada e se automedicar. Ela só abriu os olhos quando o médico a aconselhou, dizendo: “Você realmente vai sofrer por alguém que não a merece? Você tem filhos, e eles precisam de você.” Após esse conselho, ela se ergueu firme e forte e buscou concluir seus estudos.
Leda e os filhos (1993)
Uma das perguntas mais interessantes que fiz foi se ela se arrependia de algo e o que mudaria se pudesse. Ela contou que teria se dedicado mais aos seus sonhos e que nunca teria se permitido sofrer em um relacionamento. Disse: “Naquela época, tudo era fácil — até os concursos eram fáceis de passar. Se eu tivesse buscado, estaria mais bem-sucedida hoje. Queria ter aberto os olhos antes e ter sido uma mãe mais presente, sabe? Porque, por conta do trabalho, fiquei mais distante.” As duas últimas perguntas foram sobre o que ela deixou de se preocupar e o que hoje não significa mais nada, e qual mensagem deixaria às mulheres de hoje em dia. Ela respondeu: “Deixei de me preocupar tanto com o trabalho. Eu só vivia me dedicando a trabalhar e esqueci de viver. Só foi aos 50 anos que decidi que queria aproveitar, criar momentos especiais e me divertir. Uma mensagem que eu deixo a todas as mulheres é: estudem, busquem ser independentes e criem ótimos momentos na vida. Eu nunca desejei ser dona de casa, mas tive que viver isso. E, embora eu quisesse ter me dedicado mais aos meus filhos, afirmo que hoje as mulheres têm outras opções. Antes não era fácil, mas hoje tudo é acessível — então aproveitem a vida e sejam independentes”, disse minha mãe Leda, sorrindo e mostrando que a vida tem que ser aproveitada.
Ao escutar os relatos da minha mãe, percebi como a vida das mulheres antigamente era difícil, principalmente numa época em que elas eram ensinadas de que esse era o seu dever na sociedade. Acho interessante ver como a sociedade evoluiu em relação às mulheres. Foi triste ouvir que ela perdeu oportunidades por não ter o apoio dos pais, que tinham outra visão de vida para ela. Ela contou os relatos com nervosismo, mas sorrindo, mostrando que, mesmo com as dificuldades que a vida lhe impôs, conseguiu recomeçar e criar momentos incríveis em sua trajetória.
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Leda, 58 anos (2025)
Crônica escrita a partir de relatos de registros fotográficos de Leda Maria Monteiro dos Santos Alvarado, 58 anos, cozinheira escolar, em entrevista concedida no mês de outubro de 2025.
Rebeca Monteiro é aluna do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
As fotografias fazem parte do acervo pessoal da entrevistada.