“Eu gostaria de ser vista como humana. Mas a minha imagem chega antes: olha, ela é negra”, diz Marcela Bonfim, que lançou nesta sexta-feira (31) o livro Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível. O evento, realizado no Espaço Cujuba, em Porto Velho (RO), integrou o 'Julho das Pretas'.
Aos 43 anos, a fotógrafa paulista radicada em Rondônia reuniu o público para celebrar os dez anos da exposição
(Re)Conhecendo a Amazônia Negra, que integra seu projeto de pesquisa multi-artística. A celebração aconteceu em formato de sarau, com apoio do Levante Feminista Contra o Feminicídio.
FOTO: A rapper e assistente social Sandra Braids também atuou como cerimonialista - Ícaro Campos da Cunha / Rondoniaovivo
“Nossa arte é nossa capacidade de transformar o mundo”, declarou a produtora artística
Sandra Braids na abertura das apresentações ao lembrar que o Julho das Pretas nasceu para que mulheres negras contassem suas próprias histórias.
“Quando falamos da presença negra na Amazônia, é impossível não lembrar o trabalho de Marcela Bonfim”.
Natural de Jaú, no interior paulista, Bonfim chegou à capital rondoniense em 2010, recém-formada em economia pela PUC-SP e em busca de trabalho. Na bagagem, ela trazia o pensamento de uma Amazônia puramente verde.
Entretanto, encontrou na beira do rio Madeira outras cores. Estas, afrodescendentes. Marcela foi surpreendida por abordagens e perguntas afetuosas de moradores locais que queriam saber se ela pertencia às famílias Johnson, Maloney ou Shockness - das tradicionais linhagens de imigrantes caribenhos e barbadianos trazidos à região no início do século XX para erguer os trilhos da
Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
FOTO: Fotografias foram registradas entre Rondônia, Mato Grosso e Bolívia - Ícaro Campos da Cunha / Rondoniaovivo
“Comecei a fotografar a partir dessas perguntas. Quando eu olho a família Johnson e vejo semelhanças com a minha, isso me empodera muito”, conta a artista ao
Rondoniaovivo. Ao registrar esses rostos através do que chama de um ‘exercício narcísico’, ela encontrou o espelho e a ancestralidade que a história oficial havia apagado de sua própria biografia.
Tal busca visual provocou uma expansão da visão de mundo. “Em São Paulo eu me via como economista, mas dentro de um lugar muito concreto. E dentro de um lugar muito concreto você não cria, você repete. Aqui é um lugar onde a gente ainda vê a terra, sente o ar, consegue ter a sensação da água”, explica.
Para ela, a imagem do negro e do indígena na Amazônia é um capital que resiste às
pressões econômicas ofensivas do agrotóxico.
“O capital é um criador de paredes e muros muito altos. É um sistema muito bélico que às vezes se destrói para reconstruir algo maior. Mas essa superação vem do corpo preto, pode ter certeza, do corpo indígena”, continuou a artista, reafirmando que o verdadeiro motor econômico e cultural da floresta fica na beira dos rios e nas pequenas produções familiares.
FOTO: A artista também é assessora de comunicação - Ícaro Campos da Cunha / Rondoniaovivo
“Afeto é tempo, desafeto é pressa. Quem me ensinou isso foi Rondônia”, conclui Marcela. A escuta atenta e o tempo do afeto proposto pela artista fazem parte da mobilização coletiva que ocupa Porto Velho neste início de agosto.
O sarau com o lançamento do livro de Marcela é início de uma agenda de atos culturais, debates e ações de resistência articulada pelo movimento de mulheres do estado. As atividades celebram o protagonismo feminino e marcam as duas décadas da
Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) sob o lema nacional:
“Seguimos em marcha por reparação e bem viver”.
FOTO: "Quando uma mulher negra se movimenta, toda a cidade se move com ela", diz a mestranda Alinne Mape durante o sarau - Ícaro Campos da Cunha / Rondoniaovivo
Rondoniaovivo selecionou os principais pontos do cronograma de atividades:
02/08 (17h às 20h): 2ª Edição "Mulheres do Sol" (20 anos da Lei Maria da Penha), no Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
04/08 (19h): Roda de Conversa e Projeto 20 Anos Lei Maria da Penha, promovido pelo Ministério Público do Estado de Rondônia (MPRO), no auditório da instituição (Rua Jamari, 1555 – Olaria)
04/08: Estreia nacional do programa “Mulheres no Poder”, com transmissão ao vivo pelo canal oficial da TV Travessia no YouTube
07/08 (12h): Lançamento da “Casa de Resistência pelo fim do feminicídio e da Rua das Penhas”, na calçada em frente ao MPRO (Rua Jamari, 1555 – Olaria)