PORONGA: Curta-metragem rondoniense e o retrato da solidão e do desejo - Por Marcos Souza

Curta-metragem foi selecionado para integrar a programação do Festival de Cinema de Vitória

PORONGA: Curta-metragem rondoniense e o retrato da solidão e do desejo - Por Marcos Souza

Foto: Reprodução

Receba todas as notícias gratuitamente no WhatsApp do Rondoniaovivo.com.​

  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
0 pessoas reagiram a isso.
Assisti em sessão fechada para elenco e produção o curta-metragem “Poronga”, produção rondoniense dirigida por Rafael Rogante, que, ao lado de Fabiano Barros, escreveu e dirigiu o excelente “Ela Mora Logo Ali”, uma das produções do audiovisual local mais reconhecidas em festivais Brasil afora.
 
Não há como não se impressionar com esse mais recente trabalho de Rogante pela qualidade técnica, muito acima da média e que faz total diferença na proposta do filme.
 
Um resumo da história é que vamos acompanhar a rotina de dois seringueiros dentro da floresta, numa lida dura e crua da retirada da seringa, enquanto passam por alguns problemas de relacionamento e entram num conflito de confinamento, solidão e desejo por parte de um deles, ao mesmo tempo em que enfrentam um breve luto pela perda de um companheiro.
 
Simples e objetivo, mas nem tanto, o filme ganha uma dimensão mais profunda quando observamos, nessa curta história, que os gestos, olhares e maneirismos das falhas humanas, num estreito relacionamento moldado pela integração com a mata — no caso, a Amazônia — e pelo trabalho duro, vão criando um vínculo entre a animosidade do desejo — aqui, até sexual, por parte de um deles — e a religiosidade como apoio pregresso, que pode romper essa ligação íntima refutada.
 
O filme tem um início magnífico, com um plano-sequência, sem cortes, de pouco mais de quatro minutos, na escuridão da mata, iluminada apenas pelo fogo da poronga — que, na Amazônia, é a lamparina utilizada como adorno na cabeça, alimentada por querosene, instrumento muito comum entre os seringueiros que trabalham de madrugada. Logo temos uma morte e o luto imediato.
 
 
Segue-se um rito da floresta, com o sepultamento feito de forma improvisada. Corpo pálido, esquálido, com as mãos dos dois companheiros jogando folhas e galhos sobre uma clareira. É simbólico perceber que é como perpetuar um filho da mata, amalgamando o corpo à floresta.
 
E talvez o que possam parecer apenas imagens e cenas, sequências mostrando a rotina desses dois homens da seringa, passando noites e madrugadas na floresta, em barracas improvisadas, colhendo a seiva e transformando-a em borracha, traga muito além do que se pode ver, com simbolismos claros em torno da solidão — o fato de o filme não ter diálogos reforça essa percepção, com os sons da floresta e a reza para o santo sem cabeça.
 
São simbolismos que podem ser traduzidos de acordo com a percepção de cada um. Até mesmo quando se acolhe um companheiro em um determinado momento de agonia, faz-se a barba, raspa-se a cabeça ou se lança um olhar a mais para o corpo nu, para o suor que escorre do peito. Tudo ali vai desenhando um cenário improvável, mas que pode ser inevitável.
 
A punição, talvez. Eu escrevi "talvez". Ela vem com a doença, a febre, o tremor, mas também com o acolhimento e a perda. Cabe a quem for assistir dar a interpretação desejada.
 
“Poronga” é um curta-metragem de pouco mais de 15 minutos que faz pensar e refletir sobre a natureza humana de um modo simples. Talvez, por propor temas mais adultos e com um teor quase erótico, seja direcionado para maiores de 16 anos. Mas é sutil, e as imagens tratam disso com esmero.
 
 
Vale ressaltar o trabalho sempre caprichado do diretor de fotografia, Neto Cavalcanti — diretor do ótimo “Vai com Deus” (2025) —, que tem um olhar além do que podemos ver na superfície, com cortes em closes mais reveladores, no tratamento das imagens em relação à luz ambiente, em comum fusão com a artificial, e que se revela no capricho da beleza plástica de algumas cenas importantes. Isso é contribuir com a narrativa e construir as motivações dos personagens apenas com imagens e a captação precisa dos gestuais e das expressões.
 
“Poronga” foi produzido e realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio de edital da Fundação Cultural de Ji-Paraná, e teve como proponente o ator e produtor Artur Nestor, um dos protagonistas, que está muito bem no filme. O curta-metragem foi selecionado para integrar a programação do Festival de Cinema de Vitória este ano.
 
Quando pesquisei detalhes sobre o filme, encontrei um ótimo depoimento do diretor de fotografia, Neto, sobre os bastidores, que resume um pouco da experiência de participar de uma produção rondoniense tão bem realizada:
 
“Fazer a direção de fotografia do Poronga pela Cena Viva Filmes foi uma das experiências mais intensas e transformadoras da minha carreira. Três dias completamente imerso na floresta amazônica, respirando a mesma atmosfera que moldou a história de dois seringueiros em 1899, vivendo cada raio de sol, cada sombra, cada gota de chuva como parte da narrativa. (...) Criar a luz desse filme foi mais que um trabalho técnico: foi um compromisso com a memória do nosso povo, com a força da Amazônia, com o cinema que nasce daqui. E ver cada plano ganhar vida em meio à floresta foi uma alegria imensa. Uma honra”.
Direito ao esquecimento
Ernande Segismundo - 15/07/2026 17:26
A julgar pela resenha do genial Marcos Souza, deve ser uma bela obra de arte. De qualquer modo, as resenhas do jornalistas são tão magníficas quanto as obras que ele comenta. Parabéns ao jornalista e à produção cinematográfica da nossa Amazônia rondoniense.

MAIS NOTÍCIAS

Por Editoria

CLASSIFICADOS veja mais

EMPREGOS

PUBLICAÇÕES LEGAIS

DESTAQUES EMPRESARIAIS

EVENTOS

Instale o app do Rondoniaovivo.com Acesse mais rápido o site