Lenice, conhecida como Lene, nasceu na Bahia e chegou a Rondônia aos 12 anos de idade, acompanhando a família para Ouro Preto do Oeste. Aos 17 anos, casou-se em Machadinho do Oeste, onde iniciou a construção de sua própria família. Hoje, mãe de dois filhos, avó de duas netas e atuando na área de vigilância após mais de 20 anos trabalhando no comércio, ela se define como uma mulher vitoriosa, marcada pelo amor à família.
As fotografias espalhadas sobre a mesa parecem simples à primeira vista. Mas, para ela, cada uma guarda muito mais do que uma imagem congelada no tempo. São retratos de uma trajetória marcada por mudanças, desafios, saudades e conquistas. Ao revisitar essas lembranças, ela percorre novamente o caminho que começou na Bahia e encontrou em Rondônia o cenário onde construiu sua história. A primeira fotografia [capa] mostra uma adolescente de 14 anos, sorridente, na comunidade da linha 80, em Ouro Preto do Oeste.
Naquele tempo, a igreja era mais do que um espaço religioso, era o centro da vida social da comunidade. Foi ali que participou de uma campanha para arrecadar recursos para a construção do templo e acabou eleita rainha da festa. O prêmio pouco importa hoje. O que permanece vivo é a lembrança de uma juventude simples, quando a diversão acontecia entre festivais de música, encontros comunitários e amizades construídas na convivência do campo.
A segunda fotografia registra uma nova fase. A menina havia se tornado esposa e, pouco depois, mãe. O nascimento do primeiro filho trouxe felicidade, mas também responsabilidades que chegaram cedo demais. As dificuldades financeiras exigiram coragem. Foi preciso trabalhar, aprender uma profissão e, em um dos momentos mais dolorosos de sua vida, deixar o bebê sob os cuidados da avó para garantir o sustento da família. Quando ele voltou, já não a reconhecia. A lembrança ainda aperta o coração, mas também revela a dimensão dos sacrifícios feitos em nome do amor de uma mãe para o filho.
O amor de mãe (1993)
A terceira fotografia apresenta uma realidade diferente. A segunda filha, a caçula nasceu quando a vida já oferecia um pouco mais de estabilidade e tranquilidade. Depois de anos de trabalho, mudanças entre cidades e muito esforço, a casa própria começou a ganhar forma. Cada tijolo carregava o peso das jornadas enfrentadas em Porto Velho, Rio Branco e tantos outros lugares por onde passou em busca de melhores oportunidades.
Serenidade e equilíbrio (2003)
Mas, entre todas as imagens guardadas na memória, nenhuma ocupa espaço tão especial quanto a figura da mãe. Mulher de mãos calejadas pelo trabalho na roça, olhar acolhedor e força admirável. Foi com ela que aprendeu o valor da família, da solidariedade e da persistência. A perda causada pelo câncer deixou uma ausência impossível de preencher, mas também a certeza de que o amor permanece vivo nas lembranças, nos ensinamentos e no legado deixado. Essa presença se mantém até mesmo no nome Helena, escolhido para a neta como uma homenagem à avó e uma forma de eternizar sua memória.
Hoje, ao olhar para trás, ela não enxerga apenas os momentos difíceis. Vê uma história de superação. Vê a adolescente da igreja, a jovem mãe que enfrentou dificuldades, a trabalhadora que ajudou a construir seu lar, a filha dedicada, a mãe amorosa e a avó orgulhosa. Acima de tudo, vê uma mulher que encontrou força para seguir em frente em cada etapa da vida.
Embora as fotografias estejam materialmente reunidas em um álbum, seu valor transcende a imagem registrada, constituindo vestígios de uma trajetória marcada pela resiliência, pelo aprendizado e pela superação dos desafios vivenciados ao longo do tempo.

Crônica escrita a partir de relatos de registros fotográficos de Lenice Alves dos Santos, 53 anos, vigilante, em entrevista concedida no dia 4 de junho de 2026.
Laiara Gonçalves é aluna do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
As fotografias fazem parte do acervo pessoal da entrevistada.