CORAÇÃO SATÂNICO: Obra-prima noir do terror: do fracasso ao sucesso cult? - Por Marcos Souza

CORAÇÃO SATÂNICO: Obra-prima noir do terror: do fracasso ao sucesso cult? - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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O diretor inglês Alan Parker, para mim, é um prodígio como cineasta pelo seu ecletismo de estilos e gêneros de que gosta ao fazer os seus filmes. Eu o acho um dos melhores de todos os tempos, sem dúvida. “Ah, Marcos, que exagero”. Não, não é.
 
Quem faz o clássico “Expresso da Meia-Noite”, em 1978, um drama de prisão pesado, depois realiza “Fama” (1980), um musical dramático mostrando um grupo de jovens artistas numa escola de arte, que fez enorme sucesso e gerou uma série, em seguida tem a coragem de cometer “Pink Floyd - The Wall” (1982), com base nas letras e história do álbum de enorme sucesso da banda Pink Floyd, outro musical — só que esquizofrênico e utilizando recursos como animação. É um diretor que não teme entrar em assuntos polêmicos ou de alçada específica, como a história real de conflitos provocados por racismo do ótimo policial “Mississippi em Chamas” (1988).
 
Em 1987, Alan Parker lançou essa obra-prima do suspense com terror, “Coração Satânico” (“Angel Heart”), adaptação do romance “Falling Angel”, de William Hjortsberg, publicado em 1978. Parker havia lido o livro e ficou muito interessado na história de um investigador particular de Nova Iorque que é contratado por um estranho homem de posses para encontrar um famoso cantor desaparecido, Johnny Favorite, mas, na sua investigação, acaba entrando numa seara de misticismo e numa série de assassinatos brutais sem explicação, ligados à sua procura.
 
Caso você não tenha assistido ao filme, não deixe ninguém contar a resolução final, quando algumas revelações chocantes são, de fato, surpreendentes, numa teia de mistérios que vai sendo desfeita conforme o detetive embarca mais fundo na sua investigação.
 
 
O filme é notável por trazer o ator Mickey Rourke no auge de sua fama, vindo do clássico erótico “9 e Meia Semanas de Amor” (1986), e que não foi a primeira escolha da produção para o papel do detetive Harry Angel. Alan Parker tentou o ator Jack Nicholson, que, depois de ler o roteiro, achou-o pesado e recusou. O ator Robert De Niro se interessou em fazer o papel de Harry, porém Parker o considerou perfeito para o personagem do misterioso homem que busca o desaparecido Johnny Favorite. Tanto que, no teste para o papel, De Niro se surpreendeu e topou esse personagem.
 
Rourke se ofereceu para fazer Angel quando descobriu a recusa de Nicholson.
 
Mas talvez, do elenco, a escolha que mais gerou polêmica foi a da jovem atriz Lisa Bonet, no papel de Epiphany. Muito nova, ela era uma das atrizes mais queridas da América pelo seu papel como uma das filhas do comediante Bill Cosby na série de grande sucesso “The Cosby Show”, sitcom clássica da TV norte-americana. Era um papel ingênuo e familiar. Lisa entraria num filme em que estaria envolvida com vodu e bruxaria, em cenas pesadas de violência e sexo.
 
Para dar uma ideia, ela teve que consultar o comediante Bill Cosby sobre o que ele achava. Após ter ciência de como seria o filme, ele fez restrições, mas deixou a cargo dela, pois o papel poderia lhe dar uma visibilidade e evolução muito grandes na carreira.
 
O roteiro foi escrito pelo próprio diretor, Parker, após ter lido o que foi feito pelo autor do livro, baseado em sua própria obra. Parker fez mudanças significativas na história, alterando alguns dados importantes, como colocar a ação para acontecer em duas cidades, Nova Iorque e, agora, Nova Orleans, por envolver misticismo e ritos de bruxaria. O que condizia melhor até com o desenrolar da trama dentro do processo investigativo de Harry Angel.
 
 
Na história, em 1955, Harry é procurado e contratado por um homem muito rico, que se chama Louis Cyphre (De Niro), para rastrear um cantor que ficou muito conhecido antes da Segunda Guerra Mundial, Johnny Favorite. Depois, quando ele foi convocado para ir ao front, acabou sofrendo um ferimento na cabeça e voltou com um trauma neurológico, ficando internado num hospital psiquiátrico para tratamento. Porém, depois de um período, desapareceu sem deixar pistas. Mas, devido a uma dívida de contrato com Cyphre, é necessário encontrá-lo para que possa quitá-la.
 
Muito bem pago para rastrear e localizar Johnny, Harry inicia uma investigação criteriosa e cheia de percalços, e descobre que o médico responsável pelo seu tratamento pode ter ajudado o cantor a fugir do hospital, revelando que ele estava com o rosto desfigurado por conta da guerra.
 
Seguindo pistas que vai encontrando no caminho, ele entra num mistério avassalador quando descobre, depois, que o médico, viciado em morfina, acabou se matando com um tiro no olho. Com medo das consequências, o detetive tenta desistir do serviço, mas Cyphre oferece mais dinheiro para ele continuar a investigação. Com uma pista de uma mulher muito rica que foi casada com Favorite, através dela descobre que o cantor teve uma amante, Evangeline Proudfoot, que motivou a separação.
 
Harry vai parar em Nova Orleans para conhecê-la. Descobre que a mulher já morreu, mas ela tem uma filha jovem de 17 anos, Epiphany (Lisa Bonet), que pode ser filha de Favorite. Ela também tem um filho pequeno de pele clara e afirma não se lembrar de quem seria o pai do menino. O detetive descobre que ela está envolvida com rituais de magia e vodu.
Epiphany seduz Harry e, num momento de transe e êxtase, tem um envolvimento sexual com ele. A partir daí, não posso contar mais nada.
 
A trama é muito detalhista em apresentar pistas e encaminhar o protagonista por uma viagem de medo, sufocamento e pura agonia. Quando ele percebe que a pessoa que procura pode estar envolvida com magia negra ou coisas mais sombrias, entra numa espiral de loucura, devaneios e crimes brutais que vão surgindo por onde passa, como se fossem avisos.
 
No terço final do filme, vão vindo as revelações, e o roteiro preciso de Parker encaminha o personagem Harry para uma solução improvável e catártica, em que a solução estava mais próxima do que ele supunha. Vale destacar a trilha sonora climática e muito bem realizada pelo músico e multi-instrumentista Trevor Jones, que foi uma escolha pessoal do diretor. É um show à parte, numa mistura de ambientação sonora eletrônica, uso de instrumentos de sopro e jazz. Uma pérola que enriquece muito o filme.
 
“Coração Satânico” foi um filme de inteira dedicação do diretor Parker, que ofereceu o roteiro para dois produtores independentes, Mario Kassar e Andrew G. Vajna — que depois renderiam muito ao fazer a franquia “Rambo” nos anos 80, “O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final” (1992) e “Instinto Selvagem” (1992) —, que investiram 18 milhões de dólares na produção através da Carolco Pictures. Mas o filme foi um fracasso na época, rendendo somente 17,2 milhões de dólares e dividindo a crítica especializada.
 
 
Teve problemas com a censura por conta da sequência de cenas de sexo de Rourke com Lisa Bonet e quase recebeu a classificação “X” — o que significaria ficar restrito a poucas salas de cinema, para o público adulto. Parker foi obrigado a cortar dez segundos dessa cena, o que fez contrariado, para atender ao pedido da Tri-Star International, empresa que integrava a Columbia Pictures, responsável pela distribuição nos cinemas.
 
Mas, com o tempo, “Coração Satânico” se tornou um filme cult, tornando-se referência no gênero terror pela abordagem explicitamente em homenagem aos filmes noir — muito por conta do personagem do detetive solitário, sofrido, que trabalha sozinho e entra nos meandros de uma investigação intricada.
 
Lançado em DVD no ano de 1998 pela Artisan Entertainment, no formato econômico, somente com um trailer e um featurette de making of, numa edição bem porca. Tanto que depois, no Brasil, recebeu edições de banca com capa cartonada.
 
O DVD especial, mais recheado, só foi lançado em 2004, aí sim com comentários do diretor, entrevista com o ator Mickey Rourke e trailer. E o Blu-ray veio em 2009, com o filme em alta resolução — definição 1080p.
 
“Coração Satânico” está disponível no YouTube em versão dublada clássica da Herbert Richers. Procure no canal Sombrafix, onde a qualidade é melhor. No Google vão aparecer os serviços de streaming Prime Video e Mubi, porém o filme já foi retirado dos respectivos catálogos.
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