IRACEMA - UMA TRANSA AMAZÔNICA: A real história que a ditadura militar queria esconder - Por Marcos Souza

Foi gravado, de fato, em trechos da estrada, em povoados à beira da rodovia e com pessoas comuns grande parte das cenas improvisadas ou apenas mantidas por um roteiro-guia

IRACEMA - UMA TRANSA AMAZÔNICA: A real história que a ditadura militar queria esconder - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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O filme “Iracema - Uma Transa Amazônica”, dos diretores e roteiristas Jorge Bodanzky e Orlando Senna, é um drama documental coproduzido por uma estatal alemã - ZDF, emissora de TV -, que mostra de forma crua uma narrativa que mistura personagens reais e fictícios, como a prostituta Iracema (vivida pela então iniciante Edna de Cássia) e o caminhoneiro Tião “Brasil Grande” (o ator gaúcho Paulo César Pereio, excelente). Foi gravado, de fato, em trechos da estrada, em povoados à beira da rodovia e com pessoas comuns - grande parte das cenas improvisadas ou apenas mantidas por um roteiro-guia.
 
Filmado em 1973 e lançado em 1974, o filme acabou sendo barrado pela censura na época - vamos lembrar que era o período da Ditadura Militar, governo linha-dura - e só foi lançado, de fato, no Brasil, em março de 1981.
 
Revendo hoje “Iracema - Uma Transa Amazônica”, é um filme consolidado como o registro histórico de uma estrada quase mítica, ainda hoje desconstruída ou inconclusiva em muitos trechos, mas a que preço se consolidou como a maior rodovia de acesso unindo três ecossistemas distintos, ligando o Nordeste ao interior da Amazônia, como a cidade de Cabedelo (Paraíba) até Lábrea (Amazonas). Mas, também, um estudo social sobre o Brasil que o governo militar não queria mostrar em seu cerne no período de sua construção. Projeto então consolidado para atender ao ufanismo nacional vigente, impulsionado pelo crescimento econômico do "milagre brasileiro", visando consolidar a soberania sobre a região, que tinha o lema “Integrar para não entregar”.
 
 
 
Em uma cena do filme, o motorista Tião mostra os “decalques” (a forma como ele chama os adesivos) que ele tem no parabrisa do seu caminhão, com lemas do governo, como: “Brasil: Ame-o ou deixe-o”.
 
No contexto histórico, as obras da estrada iniciaram oficialmente no dia 10 de outubro de 1970, em ordem de serviço assinada, com lançamento oficial na cidade de Altamira, no Pará, com a presença do presidente general Emílio Garrastazu Médici.
 
Os produtores do filme, três anos depois, iniciaram as filmagens em alguns trechos e deixam claro, durante a sua projeção, que é uma visão muito crua e crítica da região, com suas personas miseráveis e vilarejos precários, mostrando que os objetivos dos militares de ocupar a "terra sem homens" (como o governo chamava a Amazônia) com "homens sem terra" (como distinguiam os nordestinos), integrando o Norte e Nordeste ao restante do país, era uma farsa.
 
A abertura da estrada iniciou o chamado "arco do desmatamento", que causou danos temporais aos migrantes que chegavam e favoreciam, principalmente, grandes latifundiários, facilitando a exploração madeireira - de forma desordenada -, a grilagem de terras e a pecuária extensiva na floresta. A promessa do governo militar de criar agrovilas e assentar milhares de famílias através do Incra fracassou, pois a terra, em muitas partes, não era fértil para a agricultura familiar e não havia fiscalização nem mediadores administrativos de ordem federal que orientassem proprietários e empregados.
 
No filme, no primeiro terço, vamos acompanhar Iracema, uma menor que sai de sua casa procurando a vida no mundo e, sem condições financeiras, acaba parando em um cabaré em Belém (PA), onde vai trabalhar como prostituta. É quando conhece o caminhoneiro que está de passagem, Tião “Brasil Grande”, motorista que vem do Sul do país, mas está na capital paraense para participar das festas do Círio de Nazaré. A jovem então resolve pegar uma carona com Tião pela rodovia Transamazônica, e a dupla testemunha o que a propaganda institucional da ditadura militar não mostrava: desmatamento, queimadas desenfreadas em grandes áreas florestais, saúde precária na região e venda de camponeses vindos do Nordeste, sinalizando as condições precárias de trabalho, com escravidão em fazendas.
 
Para piorar, em algumas cenas, quando Tião vai conversar com alguns trabalhadores humildes, geralmente gente pobre, eles falam da promessa de terras para plantio, onde poderiam ter o título, mas acabam enfrentando fazendeiros ricos que tomam tudo.
 
Em determinado diálogo, um pobre coitado fala: “pegar terra sem ter um título do Incra, você perde, e o homem rico vem e cata tudo que você construiu”. Tião apenas sorri e comenta: tem que ter título de propriedade, o Brasil é assim mesmo.
 
Quando chega a uma madeireira para pegar madeira de lei, expõe a maracutaia de barrar a fiscalização. Depois vai mostrando como é a relação das pessoas comuns em uma terra sem lei, mas que vivem com a promessa de uma vida nova e de esperança, como pioneiros em uma região inóspita.
 
 
 
A partir do momento em que Tião dispensa Iracema, pois não quer se amarrar a nenhuma mulher em suas andanças, vamos acompanhar a jovem em seus momentos de ganhar a vida, mas ela se torna a coadjuvante justa do que os diretores querem mostrar: as reais condições da promessa do governo militar brasileiro.
 
Com ela, vamos assistir à normalidade de trabalhos análogos à escravidão, com nordestinos sendo vendidos na cara dura por atravessadores malandros. Ou estar em meio a puteiros e casas malogradas, com mulheres à venda como mercadoria barata. Transas sendo negociadas a 20 cruzeiros - dinheiro do período.
 
No terço final do filme, Iracema e Tião vão se reencontrar em um cabaré de beira de estrada, com mulheres feias e bêbadas. Ela, destruída pelas circunstâncias, já não tem a aura juvenil de sua beleza de herança indígena, mas, castigada, não é reconhecida inicialmente por Tião, que fala de como aquela estrada sem vida ainda permite ter esperança de reencontrar pessoas que um dia serviram para algo em sua vida.
 
O filme tem uma cadência muito bem feita. Não tem uma história regular a contar, porém apresenta fatos como referência da narrativa que dão coerência às ações e diálogos dos personagens centrais, pois o formato de mostrar as situações críticas, usar pessoas comuns da região ou atores amadores torna tudo mais autêntico e realista.
 
O filme, que foi liberado pela censura seis anos depois de ter sido concluído, conseguiu uma excelente repercussão de público e crítica internacionalmente desde sua estreia, em fevereiro de 1975, na ZDF. No Brasil, em 1980, foi premiado no Festival de Brasília nas categorias Melhor Filme, Montagem, Atriz e Atriz Coadjuvante. Apesar de ser datado, acabou sendo laureado em festivais estrangeiros e convidado para a Semana da Crítica, do Festival de Cannes em 2016.
 
O filme está disponível no catálogo do serviço de streaming da Netflix e teve um trabalho excepcional de restauração, tanto dos fotogramas - recuperados de um copião dos arquivos da estatal ZDF - quanto do som, que foram digitalizados e refeitos no Brasil. Assista: é um ótimo filme e, com certeza, um marco histórico para o cinema brasileiro.
Direito ao esquecimento
Ernande Segismundo - 06/05/2026 19:48
Parabéns pela magnifica resenha, texto forte que desnuda a crueza da da duríssimo ma realidade retratada.
Você acredita que as igrejas devem pagar imposto?
O que você acha das obras e da largura da pista na Estrada dos Periquitos?

* O resultado da enquete não tem caráter científico, é apenas uma pesquisa de opinião pública!

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