PURPLE RAIN: O filme que implodiu o Cine Lacerda na década de 80 - Por Marcos Souza

Minha recomendação? Assista a 'Purple Rain'. A trilha sonora e o visual das apresentações no palco do artista são espetaculares

PURPLE RAIN: O filme que implodiu o Cine Lacerda na década de 80 -  Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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No último episódio da quinta temporada da série “Stranger Things”, exibido no dia 31 de dezembro, um dos maiores sucessos do serviço de streaming da Netflix, uma das cenas mais pungentes e com um clímax emocional latente foi a despedida da Eleven (Millie Bobby Brown) com o Will (Finn Wolfhard), no portal que divide o Mundo Invertido do nosso, quando ela se declara mais uma vez para ele e dá adeus aos sonhos que acreditavam que iriam viver. A música de fundo, que toca em todo o seu esplendor, é a clássica “Purple Rain”, de Prince  um dos maiores hits da história da música pop, premiada com o Oscar de Melhor Canção em 1985 pelo filme de mesmo nome.
 
Só essa exposição de um trecho da canção em uma cena catártica da série a trouxe de volta para as plataformas de música como o Spotify , sendo a número 1 (um) em diversos países. O tom emo-cional, carregado em um arranjo sublime de guitarra e batida lenta, fez essa balada explodir quando foi lançada em 1984, graças não só ao filme, mas também à trilha sonora, toda composta pelo multi-instrumentista e gênio Prince.
 
Para fãs do cantor e compositor, como eu, ouvir essa canção e ver a Geração Z curtir e apreciar foi um fato que me deixou muito feliz, pois podem conhecer ou pesquisar sobre a carreira de Prince, que in-felizmente faleceu no dia 21 de abril de 2016.
 
 
No entanto, na década de 80, em Porto Velho, o filme “Purple Rain”, que recebeu um título comple-mentar no Brasil, “Viva a Música”, fez um sucesso absurdo quando foi exibido no Cine Lacerda. Tra-ta-se de um musical dirigido pelo então desconhecido diretor, que depois não fez mais nada relevante, Albert Magnoli, e escrito em conjunto com William Blinn. Claramente, deve ter tido uma enorme in-fluência no argumento do próprio Prince, já que o filme é quase uma menção autobiográfica do músi-co, ao mostrar seus conflitos familiares com um pai alcoólatra e a rivalidade de sua banda com outra, enquanto tenta conciliar um romance e o acerto com seus músicos para compor um repertório para suas apresentações.
 
Na verdade, é um fiapo de história, e Prince não é ator. Até se esforça para tanto, mas eu vejo o filme como um enorme “clipão”, com muitas imagens de impacto visual fotografia muito boa. As apre-sentações no palco da banda, vistas em tela grande, são um desbunde não só visual, como sonoro. Espetáculo.
 
E justo esse espetáculo visual, para um filme de apelo fácil e identificação instantânea com os adoles-centes, o transformou em um fenômeno extraordinário aqui em Porto Velho. O filme ficou mais de dez meses em cartaz no Cine Lacerda, em matinês concorridas, e chegou ao ponto de transformar a rotina e o comportamento da juventude da época. O filme estreou por essas bandas em 1985, em ple-no período escolar.
 
 
 
Aí vale contar uma historinha sobre essa mudança de comportamento dos jovens em relação ao filme e o motivo que levou “Purple Rain” a ficar tanto tempo em cartaz no Lacerda.
 
Em 1985, eu tinha 16 anos e estudava em uma das escolas de elite mais prestigiadas do período, o Colégio Einstein, que ficava na ladeira da Rua Gonçalves Dias, antes de chegar à Rua Barão do Rio Branco e à Avenida Sete de Setembro, na mesma quadra  grande, por sinal em que ficava o Cine Lacerda. Era descer a Gonçalves Dias, dobrar à esquerda na esquina da Sete de Setembro e, andando uns 50 metros, já dar de cara com a entrada do cinema.
 
A escola ficava em um ponto estratégico, bem no centro da capital, tanto que eu ia e voltava a pé para casa, que não ficava longe. Por ser uma elite que ali estudava, nesse período as tribos em Porto Velho eram claramente divididas entre os playboys, as patricinhas, os atletas e os “sem graça”, os nerds onde eu me encaixava. Só que havia nerds importados de outros estados, como São Paulo ou Rio Grande do Sul. Dessa fase de colegas de classe, conheci os irmãos Bernard e Ava, paulistas, e os ir-mãos Alberto e Roberto, que eram do Sul. Todos notoriamente cinéfilos e com uma carga cultural grande por virem de grandes centros. Havia também um mineiro, metido a desenhista, como eu, o Jaques.
 
Éramos uma turma de nerds, mas com certa popularidade por conversar sobre praticamente tudo o que envolvia música e cinema. Eu, apaixonado por filmes e assíduo frequentador do Cine Lacerda e do Cine Brasil.
 
Por ser um adolescente de 16 anos, estava descobrindo a música ainda, mesmo sendo roqueiro e qua-se um punk, mas adepto de uma boa melodia e de artistas diferenciados na época pela popularidade como Madonna e Prince.
 
Quando o Lacerda colocou um enorme cartaz anunciando “Purple Rain”, com direito a uma faixa de pano pintada na cor púrpura com o título do filme, foi uma febre automática. Os nerds de fora já ti-nham assistido ao filme e diziam para não perdermos, pois era um show com um pouco de drama.
 
 
Para se ter uma ideia, nas primeiras semanas a sala de cinema teve lotação absoluta. E, claro, eu pen-sei que o filme ficaria seus dois meses em cartaz e depois sairia da programação. Ledo engano.
 
Com a abertura do horário da tarde, em sessões às 14h30 e 16h30, “Purple Rain” entrou na zona de risco para as escolas próximas ao cinema, pois a exibição se tornou uma rotina para os mesmos estu-dantes que gazeteavam as aulas da tarde em diversas escolas para assistir ao filme e, claro, interagir e conhecer outros adolescentes que estavam no local. A ponto de o drama do filme ninguém entender e nem querer saber, mas eram as apresentações de Prince e de sua banda, The Revolution, na tela gran-de, que traziam a catarse para todos aqueles jovens.
 
O espectro de expectativa na narrativa musical do filme era que Prince, em seu conflito interno com a banda, não queria tocar a música-tema quando deveria fazê-lo, pois era algo muito pessoal e que re-metia aos seus conflitos internos com o pai e à sua relação com a vida. Então, a música “Purple Rain”, quando finalmente é tocada, já próximo ao final, fecha o ciclo dramático do personagem, que reco-nhece sua resignação perante o destino seja como uma estrela da música ou no perdão ao pai.
 
Tocar “Purple Rain” e o tom emocional da balada, uma música poderosa e linda, com variações vo-cais intensas podemos sentir emoção e dor, alívio e tensão, uma sensação de prazer e intensa pure-za no que a música propõe. O solo de guitarra, os urros do cantor. Essa supremacia melódica era um atrativo para você assistir, querer reassistir e novamente assistir ao filme por causa dessa sequência.
 
Era esse momento esmerado dentro do cinema em que todos ficavam calados, olhos grudados na tela, emocionados com a música e a apresentação. Incrivelmente maniqueísta, propositalmente manipula-dora e essencial.
 
Eu mesmo assisti ao filme cinco vezes no Lacerda, sempre acompanhado da turma de outras escolas, que gazeteava para ir ao cinema. Posso, então, justificar que “Purple Rain” implodiu toda uma gera-ção em Porto Velho para dentro de um cinema, deixando o filme quase dez meses em cartaz, com um sucesso estrondoso.
 
Uma das melhores lembranças da minha carreira de cinéfilo adolescente, que sentiu o peso emocional de um filme não tão ruim, simples, porém com uma trilha sonora magnífica e inesquecível.
 
Algumas curiosidades sobre “Purple Rain”: o filme teve um orçamento relativamente baixo, pouco mais de cinco milhões de dólares, e arrecadou acima de 60 milhões, tornando-se um sucesso cult. Sua trilha sonora já clássica  e a música-tema renderam o Oscar em suas categorias, e o disco foi um sucesso estrondoso na carreira de Prince.
 
O filme ainda tem o feito de ser listado entre os melhores musicais já feitos para o cinema e, em 2019, conseguiu a proeza de ser selecionado para preservação no National Film Registry, da Biblioteca do Congresso, pela sua contribuição cultural, histórica e grande significado estético.
 
“Purple Rain” está disponível no catálogo do serviço de streaming da HBO Max. Prince ainda tentou fazer uma espécie de continuação com o filme “Sob a Lua Cereja” (Under the Cherry Moon, 1986), marcando sua estreia como diretor. O filme é uma bomba, foi um fracasso de bilheteria, mas, por um daqueles mistérios de artista genial, a trilha sonora desse projeto veio do disco “Parade”, que se tornou um sucesso de público e crítica. O filme, não.
 
Minha recomendação? Assista a “Purple Rain”. A trilha sonora e o visual das apresentações no palco do artista são espetaculares.
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