Há quase um mês (10/02/2007), a maior feira do agreste brasileiro, a conhecida Feira de Caruaru, em Pernambuco, passou a ter assento no Livro de Registros dos Lugares, depois de ter recebido do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão ligado ao Ministério da Cultura (MinC), o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
*O diploma que confere à referida feira o título, foi recebido pelo povo caruaruense, em festa que contou com a presença do ministro da Cultura, Gilberto Gil. Em seu pronunciamento, o ministro disse que a Feira de Caruaru é “um patrimônio do nosso povo e o Estado brasileiro deve reconhecer o quanto esta feira expressa a nossa identidade”.
Um nordestino falando sobre sua própria identidade, Gil afirmou que a feira representa “um permanente movimento e encontro entre o que vem do litoral e do sertão nordestinos. Para ele, a feira é o lugar onde a fazenda dialoga com as povoações urbanas, onde as produções de uma e de outra são oferecidas, conhecidas, intercambiadas”.
*Estes “saberes tradicionais”, e “expressões populares” nordestinos - que têm morada especial no meu coroação e na minha mente - estão representados na feira, que mantém sempre vivos os bens culturais ali circulantes, passando-os de geração a geração, e consagrando-os como referenciais culturais.
*O título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil para a Feira de Caruaru, se deu por iniciativa da prefeitura da cidade, que fez tal indicação ao Iphan, em 2004, dando início ao Inventário Nacional de Referências Culturais(INRC), uma espécie de metodologia de pesquisa, desenvolvida pelo instituto, que se destina a documentar aspectos da vida social e suas práticas culturais.
*De acordo com o Iphan, o registro da Feira de Caruaru como patrimônio imaterial visa proteger a dimensão do espaço sócio-cultural. Caso especial da Feira de Caruaru que se tornou o pólo comercial mais importante da região, chegando a movimentar hoje algo em torno de R$ 20 milhões a R$ 40 milhões, por semana.
*O livro onde o título está assentado destina-se a englobar locais fundamentais para a continuidade das práticas e atividades que (eles) abrigam - sem, necessariamente, levar em conta valores arquitetônicos, urbanísticos, estéticos ou paisagísticos.
*A feira, que se expandiu enormemente nos últimos 20 anos, tem um conjunto de equipamentos sócio-econômicos e culturais, retratados nos mercados - de carnes, farinha, medicina popular, cosméticos, bijuterias, tecidos, raízes, móveis, vestuário e brinquedos e - e nas feiras - do troca-troca, livre, de gado, de artesanato e de confecções - com todas as suas subdivisões.
*Tão grande é a capacidade de invenção, recriação e inovação da Feira de Caruaru, que seu realismo ficou registrado na Música Popular Brasileira. Ainda hoje ecoa em meus ouvidos o refrão: “A feira de Caruaru/Faz gosto da gente ver/De tudo que há no mundo/Nela tem pra vender”... “Tem massa de mandioca/Batata assada/Tem ovo cru...”. De autoria de Onildo Almeida, esta música foi imortalizada na voz do saudoso Luiz Gonzaga, sanfoneiro pernambucano, que liderou o rádio e as cidades interioranas do Nordeste.
*Os primeiros registros da feira, conforme historiadores, são do Século 18, quando a Fazenda Caruru foi transformada em ponto de pernoite de tropeiros, mascates e boiadeiros, o que fez surgir o comércio de gado e similares, e formou a cidade em torno da feira.
*De acordo com o Portal Caruaru, o nome Caruru desapareceu dos escritos, em 1848, dando lugar à palavra Caruaru, nome pelo qual a cidade passou a ser chamada, em 1849, tornando-se município, tendo, então, sua Câmara Municipal instalada.
*Por que escrevi sobre a feira de Caruaru? Por um motivo sentimental muito forte: fazer uma homenagem ao meu pai, o paraibano João Rosendo, de quem desde criança ouvi falar sobre esta feira. Por muito tempo, enquanto morou no Nordeste, ele trouxe desta feira para dentro de nossa casa, saberes, expressões, conceitos, mercadorias diversas e dinheiro para nossa sobrevivência.
*Daí minha percepção sobre a expansão da Feira de Caruaru até nossa casa, tornando-se uma referência cultural. Aliás, é comum a todo nordestino nascido naquela tão fértil região do país, ter a Feira de Caruaru como referência cultural; principalmente, àquelas pessoas oriundas das classes média e baixa.
*Na casa de minha família, por exemplo, os cômodos ficavam repletos daquelas mercadorias, trazidas pelo meu pai, para serem vendidas por ele, meus irmãos, minha avó (in memorian) e demais familiares, que por muito tempo, fizeram desse tipo de comércio, uma forma digna de sobrevivência. E meu pai, se sentia um grande comerciante.
*Hoje, com 72 anos de idade, meu pai lembra saudoso, dos repentistas e emboladores nordestinos que, vivendo seus momentos de estrela na famosa feira, lhe faziam passar de 15 a 20 dias longe de nossa família. Foi assim, lutando pela vida, que João Rosendo nos criou e deu-nos um legado cultural: a feira.