Mesmo sem mandato, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, é suspeito de indicar irregularmente emendas parlamentares.
O que aconteceu
A Polícia Federal encontrou conversas de Valdemar com ex-assessora de Arthur Lira (PP-AL). "A extração e análise de dados do aparelho de MARIÂNGELA FIALEK indicam a existência de um arranjo decisório paralelo para a destinação de verbas públicas, no qual VALDEMAR COSTA NETO, presidente do PL, mas desprovido de mandato, aparece como vetor de definição e remanejamento de emendas", diz a corporação.
Mariângela foi alvo de operação da PF em dezembro. Conhecida como Tuca, ela era responsável por cuidar da liberação do "orçamento secreto" quando Lira era presidente da Câmara dos Deputados. No ano passado, os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão na sala onde a ex-assessora de Lira trabalha.
Valdemar tinha autonomia para direcionar recursos, afirma a PF. As informações constam na decisão do ministro do STF Flávio Dino que determinou o bloqueio de até R$ 119,2 milhões em bens do presidente nacional do PL. O ministro também decidiu suspender a execução das emendas — no valor total de R$ 119,2 milhões — que estariam ligadas a Valdemar. O UOL procurou Valdemar e a assessoria do Partido Liberal e aguarda um retorno.
O valor é referente ao montante identificado pela PF como emendas indicadas por Valdemar. A investigação analisou os recursos no Portal da Transparência. "Ao menos 21 emendas parlamentares foram empenhadas ou pagas e, nesse cenário, foram forjadamente documentadas para escamotear o verdadeiro solicitante da indicação", diz a Polícia Federal.
A PF aponta que planilhas indicavam as emendas solicitadas por Valdemar. "O encaminhamento direcionava essas emendas, alocando, falsamente, deputados federais como 'solicitantes' das indicações, a fim de conferir ares de legalidade às indicações formalizadas conforme diretrizes de um não parlamentar", afirma a Polícia Federal.
Dino determina entrega de documentos das emendas. Na decisão, o ministro diz que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), deve enviar em até 10 dias todo o material relacionado às emendas identificadas pela PF.
Envolvidos supostamente no esquema
Além de Mariângela, a PF cita envolvimento de outra servidora. Nara Benedetti Nicolau Brum seria "agente funcional central na engrenagem de tratamento e encaminhamento de emendas" a Valdemar, segundo a investigação. "Nara faz menções recorrentes a indicações qualificadas como sendo "do Valdemar" ou "do VCN", abreviação que, no contexto dos diálogos, refere-se de forma consistente e inequívoca a VALDEMAR COSTA NETO. Tais referências surgem associadas a valores expressivos", diz.
A investigação coloca Garigham Amarante como interlocutor de Valdemar. Advogado da liderança do PL na Câmara, ele é homem de confiança do presidente do partido e já ocupou cargos em órgãos públicos. Segundo a Polícia Federal, ele "não apenas transmite recados e demandas, mas participa ativamente da negociação dos valores globais das indicações, das áreas prioritárias e do momento oportuno para sua formalização".
Em uma das conversas, Garigham questiona: "fechou o valor do pres. Vadelmar?". A cobrança foi feita para Mariângela, segundo a PF, que teria respondido: "se puder trocar tudo turismo ótimo". Ele afirma que "24 milhões tá bom". Os investigadores apuram também os crimes de associação criminosa.