O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta segunda-feira (4) o programa Desenrola 2.0, uma nova etapa da política federal de renegociação de dívidas, com foco em aliviar o alto nível de endividamento das famílias brasileiras e estimular o consumo. O anúncio oficial foi feito no Palácio do Planalto, após prévia apresentada no pronunciamento do Dia do Trabalho.
A iniciativa amplia o escopo do programa anterior e permitirá a renegociação de débitos como cartão de crédito, cheque especial, crédito rotativo, empréstimos pessoais e financiamentos estudantis, incluindo o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Um dos principais mecanismos será o uso de até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitação de dívidas, condicionado à concessão de descontos mínimos de 40% pelos credores.
O lançamento ocorre em meio à escalada do endividamento. Dados da Serasa apontam que 81,7 milhões de brasileiros estavam endividados em fevereiro. Já o Banco Central do Brasil indica que o comprometimento da renda das famílias atingiu 49,9%, próximo ao recorde histórico registrado em 2022. A inadimplência também apresenta tendência de alta, tanto entre consumidores quanto empresas.
O programa foi uma determinação direta de Lula ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, ainda no fim de março. A estratégia do governo envolve três frentes principais: famílias, trabalhadores informais e pequenas empresas — grupos considerados mais vulneráveis ao crédito caro.
Segundo o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos poderão acessar o FGTS para quitar dívidas renegociadas, desde que apresentem acordos com descontos relevantes. A medida busca reduzir o custo efetivo das dívidas e destravar o acesso ao crédito.
Apesar do potencial de impacto, ainda há lacunas operacionais. O governo não detalhou completamente a duração do programa nem os critérios finais de adesão por parte de bancos e instituições financeiras. Esse ponto é crítico: sem ampla participação do sistema financeiro, o alcance real da política tende a ser limitado.
Na prática, o Desenrola 2.0 tenta atacar um problema estrutural: o crédito caro e a baixa capacidade de pagamento. O risco ignorado é simples — sem ajuste de renda ou redução consistente dos juros, o programa pode virar apenas um alívio temporário, com possibilidade de reendividamento em curto prazo.