O Brasil tem essa capacidade fascinante de produzir apocalipses com hora marcada. Basta abrir as redes sociais num dia qualquer e lá está o julgamento final em andamento. A sensação é de que o mundo vai acabar, mas, na prática, é só mais uma terça-feira em Brasília.
Desta vez, a euforia do tribunal da internet foi provocada pelo ministro André Mendonça, que resolveu jogar holofotes sobre o colega de Corte, o famoso “Cabeça de Ovo” — como os detratores apelidam carinhosamente Alexandre de Moraes.
Numa república, qualquer cidadão está ao alcance da lei, desde que se respeitem o devido processo legal e as atribuições institucionais, algo que a PGR fez questão de pontuar. Mas a estrutura do enredo é velhinha, bem conhecida dos brasileiros: lembram da Lava-Jato? Juízo incompetente, investigações seletivas, o espetáculo midiático atiçando o clamor popular para sacudir o cenário eleitoral. Um clássico da nossa dramaturgia jurídica.
A seletividade das lupas em Brasília é quase uma obra de arte. Enquanto o casal Moraes ocupa as manchetes devido às conexões com o hoje prisioneiro e altamente explosivo Daniel Vorcaro, certas figurinhas carimbadas seguem imunes ao mesmo rigor.
Se a controvérsia reside na advocacia da esposa de Moraes para o banqueiro, caberia olhar para a ascensão meteórica do filho do ministro Kassio Nunes — um jovem advogado que, em tempo recorde, passou a figurar na elite da advocacia nacional, gravitando ao redor dos mesmos clientes controversos, o Banco Master de Vorcaro. O Pimpolho Nunes já faz inveja à esposa do Xandão.
Também ex-líder do governo Lula, senador Jaques Wagner, já recebeu visitas da Polícia Federal sob o comando de Mendonça, por simples indícios de que possa ter sido beneficiado por um parceiro baiano de Vorcaro.
Mas qual seria a diferença entre os Moraes e o senador Flávio Bolsonaro, envolvido em áudios no qual pede dinheiro ao empresário caído em desgraça, tudo chancelado por figuras ilustres da política nacional?
Se o casal tem um contrato formal, hoje conhecido, Flávio afirmou no Jornal Nacional que também tem algo do gênero para justificar a generosidade do maior investimento empresarial na história do cinema nacional, quiçá do mundo A coincidência é tanta que até os valores milionários se aproximam. Muito além de uma centena de milhões, em ambas as generosidades.
O desenho final revela a engenharia dos afetos de Brasília. Se na Lava-Jato um juiz vestiu a toga messiânica para conquistar uma cadeira no Supremo. Agora, a impressão é que um magistrado laureado tenta retribuir a indicação dada por um ex-presidente pagando os dividendos.
No meio desse tiroteio, quem deve estar no canto da sala, roendo as unhas de profunda inveja, é o ex-juiz Sérgio Moro: "Esse lugar seria meu", suspira ele. Olha para Mendonça com o olhar triste de quem percebe que outro tomou seu lugar na bancada dos grandes estrategistas e das manobras seletivas.
DANIEL PEREIRA, um advogado entristecido por não ser filho de ministro do STF, desde que da parte indicada pelo Bolsonaro, claro.