O amigo e jornalista Marcos Souza, há alguns dias, escreveu
um excelente texto sobre o longa Iracema, uma transa amazônica. Hoje, é a minha vez de complementar o material anterior com um texto sobre o documentário Era uma vez Iracema, obra que traz à pauta os bastidores da produção realizada em 1974.
Trinta anos depois do longa-metragem Iracema, uma Transa Amazônica ser proibido pela ditadura, Jorge Bodanzky volta à Transamazônica para reencontrar os fantasmas que deixou na estrada com a realização do documentário Era Uma Vez Iracema (2005), acerto de contas do diretor com seu próprio filme e com a Amazônia.
Com montagem de Marcelo Moraes e Isabel Vidor, e produção de Márcia Bodanzky, Vídeofilmes e CTAV, o documentário refaz o trajeto do filme original em busca de Edna de Cássia, a adolescente que viveu Iracema, e dos caminhoneiros que contracenaram com ela sem saber que era ficção. É um reencontro bruto: a Edna real, os homens da estrada, a BR-230. Tudo ainda lá, só que mais cansado.
O filme funciona como o segundo ato que a censura tentou impedir em 1974. Se Iracema usava a ficção para documentar a prostituição infantil e a devastação da Amazônia durante o “milagre” militar, Era Uma Vez Iracema usa o documentário para provar que a ficção não inventou nada. Bodanzky encontra uma região onde o ciclo de exploração só trocou de nome.
Como Eduardo Coutinho fez em Cabra Marcado para Morrer ao retomar as filmagens 17 anos depois, Bodanzky transforma a passagem do tempo no argumento central: a ditadura acabou, mas a Iracema continua na beira da estrada.
Iracema, uma Transa Amazônica (1974), uma encomenda da TV alemã ZDF, dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, o longa mistura documentário e ficção. Acompanha o caminhoneiro ufanista Tião Brasil Grande, vivido por Paulo César Pereio, e a jovem indígena Iracema, interpretada pela não-atriz Edna de Cássia, então com 15 anos, numa viagem pela recém-inaugurada Transamazônica.
Escancarou o avesso do “milagre econômico”: desmatamento, grilagem, trabalho escravo e prostituição infantil. Por isso ficou proibido no Brasil por 6 anos, estreando oficialmente só em 1981.
Por sua temática e por registrar um Brasil que a Ditadura queria esconder, Iracema foi vetado em 1974 sob alegação de ser “produção estrangeira” e atentar contra a imagem de progresso da ditadura.
Enquanto circulava premiado na Europa e chocava a ZDF com imagens de queimadas e troncos carbonizados, no Brasil era filme-fantasma. Bodanzky e Senna exibiam cópias clandestinamente em casas, cineclubes e universidades.
Em 1978, integrou uma mostra de filmes proibidos em Minas Gerais. Liberado em 1980, estreou no Festival de Brasília e levou Melhor Filme, Melhor Montagem, Melhor Atriz para Edna de Cássia e Melhor Atriz Coadjuvante.
De acordo com Jorge Bodanzky, fotógrafo e documentarista, em depoimento para o livro Jorge Bodanzky, o homem com a câmera, para Carlos Alberto Mattos, um dos volumes da Coleção Aplauso, a ideia nasceu em 1968, num posto da Belém-Brasília, observando caminhoneiros e prostitutas. Dirigia com a câmera na mão, sem decupagem tradicional, para preservar a naturalidade dos não-atores.
O cineasta e roteirista baiano, Orlando Senna, trouxe o tom político e a estrutura narrativa. A parceria criou liberdade formal rara: roteiro-guia não mostrado aos atores, improvisação e reação ao real, conforme seu relato para o livro Orlando Senna, o homem da montanha, de Hermes Leal, que integra também a Coleção Aplauso.
Paulo César Pereio (1940–2024) interpreta Tião Brasil Grande, com adesivos “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Misturou carisma e cinismo do Brasil da ditadura. Seu método de improvisação com não-atores virou marca do filme. Faleceu em 12 de maio de 2024, no Rio de Janeiro.
Edna de Cássia tinha 15 anos quando foi descoberta num programa de auditório em Belém, nunca tinha entrado num cinema. Sua naturalidade virou símbolo do método: reagia às provocações sem conhecer o texto.
Em 1980, foi a primeira mulher indígena a vencer o Troféu Candango de Melhor Atriz. Hoje, formada em pedagogia e avó, mora em Belém. Diz que “o filme não mudou muito a minha vida, mas mudou completamente a forma como eu via a Amazônia”.
No documentário, o crítico Ismail Xavier situa Iracema, uma transa amazônica, como ponto de virada do Cinema Novo tardio. Destaca como o filme desmonta o discurso de “integrar para não entregar” a Amazônia.
Para Xavier, a fusão doc/ficção é estratégia política: ao colocar Pereio contracenando com pessoas reais, cria-se um “documento encenado” que revela a violência do “progresso”. As queimadas não são só cenário, são personagem. A fumaça que cobre a estrada é a mesma que a censura tentou jogar sobre o filme.
Iracema entrou na lista da Abraccine dos 100 melhores filmes brasileiros. Foi restaurado em 4K pela Cinemateca Brasileira + Gullane, estreou no Festival de Berlim 2024 e teve relançamento comercial em julho de 2024 pela Gullane+. Disponível para aluguel no YouTube Filmes, Google Play Filmes e Apple TV. Também passou pelo Canal Brasil e Canal Curta!. Antes, circulava em DVD pela Versátil Home Video.
A Imprensa Oficial de São Paulo publicou biografias dos diretores Jorge Bodanzky, por Carlos Alberto Mattos, e Orlando Senna, por Hermes Leal, que detalham as filmagens clandestinas em zona de segurança nacional, o uso da câmera como “roteiro” e a estratégia de exibição durante os 6 anos de censura. São fontes diretas de Era Uma Vez Iracema.
Tanto Iracema quanto o filme de Eduardo Coutinho (1964/1984) filmaram o Brasil que a ditadura queria esconder e foram proibidos. Ambos borram ficção e documentário e usam pessoas reais improvisando suas histórias. Mostram como o “milagre econômico” foi construído sobre exploração, grilagem e abandono. Assim como Cabra teve continuação em 1984, Era Uma Vez Iracema é o segundo ato de um filme que a censura tentou enterrar.