Conhecido pela influência de Alfred Hitchcock em sua filmografia, Brian De Palma não se limitou ao suspense. Em três momentos diferentes, levou às telas histórias brutais de crime, poder e decadência, criando uma trilogia informal sobre o gangsterismo americano com Al Pacino como eixo central em duas delas.
Scarface, 1983
A primeira incursão foi a refilmagem do clássico de Howard Hawks dos anos 1930. Com roteiro de Oliver Stone, De Palma transportou a trama para Miami nos anos 1970. Al Pacino encarna Tony Montana, refugiado cubano que ascende no tráfico até se tornar um gângster violento, implacável e viciado.
O filme foi criticado na época pela violência excessiva e por retratar cubanos como bandidos, além dos exageros — como a cena em que Tony enterra o rosto numa montanha de cocaína. No original, a paixão de Tony Camonte por sua irmã era apenas subentendida. De Palma a tornou explícita na obsessão edipiana de Montana por Gina, vivida por Mary Elizabeth Mastrantonio.
O elenco ainda traz Robert Loggia como Frank Lopez, chefe traído por Tony; Michelle Pfeiffer no auge da beleza como Elvira, mulher que Montana rouba de Lopez; e F. Murray Abraham como o braço-direito de Lopez. Todos estão caricatos e exagerados, mas a interpretação de Pacino supera tudo. De Palma quis assim para realçar o clima kitsch de drogas, sexo, luxo e ambição. Na mansão de Tony, um globo girando exibe a frase "The World Is Yours" — mas o preço se mostra alto demais.
Os Intocáveis, 1987
Quatro anos depois, De Palma voltou ao tema com uma adaptação da série clássica de TV dos anos 1960. Com roteiro de David Mamet e trilha de Ennio Morricone, o filme acompanha a cruzada do agente do Tesouro Eliot Ness, vivido por Kevin Costner, para prender Al Capone e encerrar seu reinado de terror na Chicago da Lei Seca. Para isso, ele reúne a equipe chamada Os Intocáveis.
Apesar do protagonismo de Costner, quem rouba a cena são os veteranos: Robert De Niro como um Al Capone ameaçador e carismático, e Sean Connery como o policial irlandês James Malone. Pela interpretação, o eterno James Bond ganhou um merecido Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Completam o elenco Andy Garcia, Charles Martin Smith e Billy Drago como o assassino Frank Nitti, sempre de branco.
O longa não é perfeito, mas tem cenas memoráveis. A mais famosa é a da escadaria da estação. Originalmente, De Palma filmaria um tiroteio num trem, mas o estúdio vetou por ser caro. Ele improvisou recriando o massacre na escadaria de Odessa, de O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein. O resultado é uma sequência de tirar o fôlego e uma aula de tensão.
O Pagamento Final, 1993
Fechando o ciclo, De Palma se reuniu de novo com Al Pacino em O PagamentoFinal. Se Scarface era ascensão e explosão, aqui o tema é redenção e queda. Pacino vive Carlito Brigante, ex-traficante porto-riquenho que tenta largar o crime após sair da prisão, mas é puxado de volta.
O filme adapta dois livros de Edwin Torres, ex-juiz da Suprema Corte de NY, baseados em casos reais do Harlem espanhol. De Palma imprime sua marca com planos-sequência virtuosos — a perseguição na Grand Central Station levou 6 dias para filmar e virou referência.
Quem rouba o filme é Sean Penn como o advogado David Kleinfeld. Irreconhecível, cocainômano e paranoico, Penn entrega uma atuação brilhante que lhe rendeu o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante. Foi o papel que o consolidou como um dos grandes atores da geração. Hoje, Penn já tem três Oscars em casa: por Sobre Meninos e Lobos, 2003, Milk, 2008, e Uma batalha após a outra, 2026.
A marca de De Palma
Nas três obras, De Palma mistura operística violência, movimentos de câmera elaborados e uma visão trágica do poder. De Tony Montana a Al Capone e Carlito Brigante, seus gângsteres são maiores que a vida, mas condenados por suas próprias ambições. Não são filmes sobre crime. São sobre o preço de querer o mundo inteiro.