ÚLTIMAS

BASTARDOS INGLÓRIOS: 17 anos depois, ainda é o melhor filme de guerra dos anos 2000 - Por Marcos Souza

Quentin Tarantino faz desse filme uma de suas obras-primas, em que mudar a história é também fazer cinema

BASTARDOS INGLÓRIOS: 17 anos depois, ainda é o melhor filme de guerra dos anos 2000 - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

Receba todas as notícias gratuitamente no WhatsApp do Rondoniaovivo.com.​

  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
0 pessoas reagiram a isso.
É notável o poder de manipulação e a inserção de referências cinematográficas na obra do diretor Quentin Tarantino. Seu filme de guerra, “Bastardos Inglórios” (Inglourious Basterds/2009), é um caldeirão referente a dois gêneros distintos, mas interligados pela comoção vingativa: os filmes de guerra e os westerns — nesse último, com uma dose maciça de western spaghetti do mestre Sergio Leone. Tarantino é fã confesso do gênero e utilizaria esse recurso de referência em outros filmes posteriores, como “Django Livre” (Django/2012) e “Os Oito Odiados” (The Hateful Eight/2015), este último com o detalhe de ter a trilha sonora, vencedora do Oscar, assinada pelo maestro Ennio Morricone, colaborador assíduo de Leone.
 
“Bastardos Inglórios” é uma fita que homenageia um filme de ação italiano situado na Segunda Guerra Mundial, chamado “O Expresso Blindado da SS Nazista” (Quel Maledetto Treno Blindato/1978), dirigido por Enzo G. Castellari, que, por sinal, faz uma aparição no filme de Tarantino, interpretando a si mesmo. Mas é também uma variação do tema dos soldados norte-americanos que buscam vingança contra os nazistas e planejam um ataque suicida, como ocorre no clássico de guerra “Os Doze Condenados” (The Dirty Dozen/1967), de Robert Aldrich.
 
Mas é na fonte dos westerns spaghetti que Tarantino busca suas melhores inspirações, desde a escolha da trilha sonora do maestro Ennio Morricone até a belíssima abertura do filme, ao mostrar uma fazenda francesa, enquanto um homem corta lenha e, ao longe, por uma estrada empoeirada, aproxima-se uma guarda nazista, que, a princípio, não se reconhece, mas, logicamente, se identifica.
 
 
 
 
A música que toca ao fundo é do filme “O Álamo” (Alamo/1960), protagonizado e dirigido por John Wayne, mas o plano aberto e os cortes para closes nos olhos, a expectativa e o campo como cenário parecem saídos de “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo/1966) e “Era uma Vez no Oeste” (C'era una Volta il West/1968), ambos de Leone.
 
Dividido em blocos distintos, com capítulos e títulos, mas seguindo a ordem cronológica dos fatos que quer mostrar, Tarantino apresenta aqui uma grande liberdade em relação ao que não está na história. Só ele consegue fazer um filme em que os fatos narrados são utópicos. Por isso mesmo, dividiu a crítica europeia.
 
Em Cannes, o filme foi recebido friamente. Mas “Bastardos Inglórios” era o filme sobre a Segunda Guerra Mundial que Quentin Tarantino sempre sonhou em fazer, à sua maneira, com citações pertinentes, diálogos espirituosos e bem elaborados, situações explosivas (literalmente) e personagens difusos. Perceba que o diretor é capaz de criar personagens inesquecíveis, mas apenas na medida suficiente para as situações propostas no filme. Propositalmente ou não, o diretor não quer que nos “apeguemos” demais aos personagens, mesmo aos ditos “mocinhos”, que são tão amorais quanto seus antagonistas.
 
No filme, logo no primeiro capítulo, um oficial da SS nazista, o coronel Hans Landa (Christoph Waltz, em atuação extraordinária, roubando todas as cenas em que aparece e que acabou lhe rendendo o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel), conhecido como “Caçador de Judeus”, vai entrevistar um fazendeiro francês, Perrier LaPadite (Denis Ménochet), suspeito de ter escondido uma família judia. No encontro, Hans Landa apresenta seu poder de persuasão e raciocínio lógico para conduzir a conversa até onde deseja, a fim de obter sucesso em sua missão. É um feeling notável de tensão e expectativa. Desse momento nasce o estopim para um plano de vingança incrível contra o generalato alemão.
 
 
 
 
Depois, somos apresentados ao grupo de soldados judeus norte-americanos liderados por Aldo Raine (Brad Pitt, careteiro, mas sem comprometer), cuja missão é matar o maior número possível de nazistas, das formas mais violentas possíveis, mas, principalmente, usando o “escalpo” como marca registrada.
 
Tudo poderia descambar para o exagero e o ridículo se não fosse o fato de Tarantino ter um notável poder de manipulação, como demonstra toda a sequência em que o próprio Adolf Hitler (Martin Wuttke) aparece irado com a barbárie que seus soldados vêm sofrendo nas mãos da tropa de Aldo Raine. Assistimos, por meio da narrativa de um soldado sobrevivente, à descrição de como agem os soldados judeus — com um humor negro para poucos.
 
Mas é por meio de uma francesa judia, Mimieux/Shosanna (Mélanie Laurent), que gerencia um cinema, que conhecemos o soldado alemão e herói da SS, Fredrick Zoller (Daniel Brühl), que fica encantado com ela e, posteriormente, convida-a para um tenso encontro em um café, onde ela conhece o cineasta Goebbels, que dirigiu um filme de propaganda para a campanha nazista de Hitler, intitulado “O Orgulho da Nação”. O filme utiliza como enredo o fato de o soldado Fredrick ter matado quase 200 soldados inimigos ao ficar confinado por quatro dias no alto de uma edificação, com munição suficiente para derrotar um exército. Por sinal, Fredrick interpreta a si mesmo no filme de Goebbels.
 
O diretor do filme e o comando nazista decidem, então, lançá-lo no cinema de Mimieux, reunindo os generais alemães e até o próprio Hitler. Essa oportunidade é vista como uma chance única de acabar com a guerra, matando o próprio ditador. Com a ajuda de Aldo Raine e seus soldados, a situação é perfeita para aquilo que é chamado pelo comando das tropas aliadas de “Operação Kino”: explodir o cinema com todos os generais do alto comando nazista dentro. Para isso, Aldo conta com a ajuda da atriz alemã e agente infiltrada Bridget von Hammersmark (Diane Kruger, a Helena de “Troia”). Mas Mimieux, a dona do cinema, elabora uma vingança ainda mais cruel, junto com seu parceiro — que é amante e projecionista —, em razão do sofrimento que passou ao ver toda a sua família ser morta pelos alemães.
 
Expor todas as sequências de “Bastardos Inglórios” seria estragar também momentos incríveis, como a catártica e violenta cena do bar, ou ainda desconsiderar o ápice da vingança em um final apoteótico, ainda que exista um epílogo irônico e perfeito.
 
 
O filme tem outras citações cinematográficas que fazem a alegria de qualquer cinéfilo. Basta dizer que, no primeiro capítulo, além de Leone, a cena da porta aberta em sua conclusão é uma citação clara do clássico western de John Ford, “Rastros de Ódio” (The Searchers/1956). A apresentação da personagem Shosanna/Mimieux, no capítulo 3, é uma homenagem ao cineasta François Truffaut (um dos criadores da Nouvelle Vague francesa).
 
Em determinado momento do filme, a música-tema de “O Dólar Furado” integra-se à cena de forma precisa e harmoniosa. Tudo funciona perfeitamente para Tarantino, que sabe combinar catarse e referência, a despeito de qualquer maniqueísmo risível. Tudo é preciso, calculado e muito bem-feito.
 
Entre as curiosidades do filme, basta dizer que um dos soldados judeus de Aldo Raine é interpretado pelo cineasta Eli Roth (diretor dos filmes trash “Cabana do Inferno” e dos dois “Albergues”). Ele faz o Urso Judeu Donny, que sempre usa um taco de beisebol para matar os nazistas — e tem uma sequência violentíssima no início do filme. Eli Roth é também o diretor responsável pelas cenas do filme “O Orgulho da Nação”, exibido no cinema para os nazistas.
 
Os cartazes dos filmes mostrados nas paredes do cinema de Paris são verdadeiros e servem para Tarantino homenagear alguns cineastas importantes da história do cinema, como Clouzot, Antonio Margheriti, Ulmer, Pabst e até a discutível, mas importante, documentarista alemã Leni Riefenstahl.
 
Mas vale ressaltar que, apesar de todas as referências citadas e ainda outras que passaram despercebidas, o filme funciona perfeitamente sem que seja necessário conhecê-las, pois é incrível como Tarantino consegue reciclar, à sua maneira, velhas histórias e criar algo novo. Não é o retrato real dos fatos que fizeram da Segunda Guerra Mundial um dos momentos mais importantes do século XX, mas uma maneira particular de imaginar como ela deveria ter sido para aqueles que acreditam na utopia e/ou buscam apenas diversão.
 
“Bastardos Inglórios” está disponível no catálogo do serviço de streaming Prime Video.
Direito ao esquecimento

MAIS NOTÍCIAS

Por Editoria

CLASSIFICADOS veja mais

EMPREGOS

PUBLICAÇÕES LEGAIS

DESTAQUES EMPRESARIAIS

EVENTOS

Instale o app do Rondoniaovivo.com Acesse mais rápido o site