Auburn, Nova York, janeiro de 1894. O inverno mais parecia um manto de chumbo quando a tragédia caiu sobre a família Keller. Emil, imigrante suíço de trinta anos, havia tentado construir uma vida simples ao lado de sua jovem esposa, Mary, e da filha de nove meses, Anna. Mas, numa manhã gelada de 25 de janeiro, o lar se transformou em cenário de desespero.
Mary tomada por aquilo que os jornais da época chamaram de “colapso mental” pegou um revólver. Primeiro, atirou no marido, atingindo-lhe o coração. Depois, virou a arma contra a pequena Anna, e por fim contra si mesma. Emil morreu imediatamente. Mary resistiu por horas, entre a vida e a morte. A bebê ainda respirou até a noite seguinte, agarrando-se à vida como quem segura uma chama prestes a se apagar.
A comunidade, atônita, buscou explicações. Alguns falavam em brigas domésticas, outros em doenças da mente que ninguém sabia nomear. O certo é que nada pôde deter a onda de luto que se espalhou pelas ruas de Auburn.
Dois dias depois, o jornal Auburn Bulletin estampava o título: “Three in one casket”. Três em um único caixão. E assim foi feito. A encomenda especial chegou coberta de veludo cinza, mais largo e profundo que os comuns.
Dentro dele, Emil vestia um terno negro simples; ao seu lado, Mary, envolta em sudário branco, com a cabeça repousando sobre o ombro do marido, numa tentativa delicada de esconder a marca do disparo em sua têmpora. Entre os dois, a pequena Anna, também coberta de branco, de mãos dadas com a mãe.
As placas de metal na tampa eram curtas e definitivas: “Emil Keller, 30 anos”; “Mary, sua esposa, 29 anos”; e sobre a criança apenas: “Our Darling”.
Havia nisso um gesto de reconciliação final, como se a morte pudesse devolver a unidade que a vida havia partido. Uma fotografia pós-morte foi tirada, mostrando a família no último retrato. Ela sobreviveu ao tempo como lembrança do que foi e, sobretudo, do que não pôde ser.
Hoje alguns historiadores apontam que Mary Keller pode ter sofrido de depressão pós-parto ou até mesmo de psicose puerperal uma condição rara, mas gravíssima, que pode ocorrer nas primeiras semanas ou meses após o nascimento de um bebê.