O descontentamento com a derrota de Flávio Bolsonaro produziu a sua habitual safra de espasmos dramáticos. Tivemos de tudo um pouco: fanáticos propondo marcar estabelecimentos de esquerda com estrelas vermelhas, saudosistas ressuscitando a ideia de fatiar o Brasil para fundar uma república sulista e a tradicional ameaça de empresários jurando que vão mudar para Miami. Mas a pérola mais reluzente desse insano rosário veio do meio pseudo-católico-evangélico-patriótico, quando indignados disseram (alguns): "No domingo, soltaram Barrabás!"
Vamos por partes, como diria Jack, o Estripador.
A ideia de boicotar e "marcar" os inimigos com uma estrela na porta padece de um grave defeito de originalidade. Um sujeito de cabelo lambido e bigodinho ridículo teve exatamente a mesma ideia há noventa anos. Não é preciso ser doutor em História para lembrar que judeus ganhavam uma estrela amarela no peito e um pijama listrado na mala antes de serem enviados ao pesadelo. A proposta nefasta poderia ser inspirada, por exemplo, em uma militante que votou de boné do MAGA e fez saudação nazista na porta da seção eleitoral no Rio de Janeiro. Os malucos (segundo o Bolsonaro pai) querem agradar aos judeus e, ao mesmo tempo, namorar o fascismo. Isso não chega a surpreender. Apenas confirma o nível de confusão mental coletiva.
Depois temos a tese do separatismo do Sul. Também não há nada de novo sob o sol de Curitiba, Florianópolis ou Porto Alegre. Há séculos essa fantasia povoa o ideário de certas elites locais. A Guerra dos Farrapos, ainda no século XIX, em pleno Brasil Império, já queria se divorciar do restante do país quando criaram a República de Piratini — até que a espada de Caxias colocou juízo na gauchada.
Nos anos noventa, vieram novos teóricos do retalho: gente como Adílcio Cadorin e Celso Deucher, com o movimento O Sul É o Meu País, ou Irton Marx, pregando a República do Pampa. Tudo isso na alvorada da redemocratização, muito antes de Lula ou o PT sonharem com o Planalto.
Curiosamente, esses novos separatistas foram gestados durante os anos de chumbo da ditadura militar, mesmo que a maioria dos generais-presidentes — Costa e Silva, Médici e Geisel — fossem nativos dos pampas.
Diante de tanto fervor separatista, cabe apenas uma pergunta sincera: se o Sul sempre foi esse paraíso terrenal injustiçado, por que tantos milhares de sulistas — ainda sob o regime militar, a partir dos anos setenta — debandaram para o Mato Grosso, Rondônia, Acre, Pará e outros cantos da pátria? Qual a diferença entre eles e as hordas de nordestinos que vieram para a Amazônia (os "soldados da borracha") e mesmo os "paus de arara" que construíram São Paulo, Brasília e outras de nossas metrópoles?
É óbvio que as coisas não estava tão florescentes assim por lá. E eu sei disso. Graças a Deus e a Nossa Senhora Aparecida, minha avó paterna e meus pais me tiraram de lá para não permitir que a única opção profissional fosse arriscar a vida em um caminhão de boia-fria.
E o que dizer da ameaça dos empresários? Veja Luciano Hang, o paladino verde-amarelo, dono da poderosa Havan. Ele garantiu em 2022 que fecharia as portas após o triunfo do "comunismo". Mas basta dar um passeio pelos corredores de uma das lojas dele para notar que a imensa maioria da quinquilharia vendida ali traz a etiqueta Made in China.
Outra ironia é quem frequenta o local: o povo do "bolsa-miséria". Os ricos não aparecem por lá. Por que deixariam de fazer compras em Milão, Paris ou Nova Iorque?
Quer mais informação? Em 2026 a empresa dele fez o seu quadragésimo aniversário, com duzentas lojas abertas, a última em Fortaleza, Ceará. Somente nos governos petistas (2003/2016 – 2023/2026), impulsionado pelo dinheiro do BNDES, o "véio da Havan" abriu mais de uma centena de suas lojas. E o império da Estátua da Liberdade verde não para de se expandir pelo Nordeste, conquista obtida a partir dos governos petistas, impulsionada pelo aumento do poder de compra dos povos daquelas bandas, fruto de políticas públicas expansionistas com o apoio do banco público. É o PT enriquecendo o Luciano, esse ingrato.
Do que essa gente fala, nada se escreve. Ninguém vai embora. Mudança de domicílio só para os fujões, em voo direto para a Flórida — já uma hábito familiar.
Mas fiquemos com o melhor do enredo: a neoteologia política do herético "cristoneofascismo".
Segundo a lógica de alguns dos inconformados, ao escolherem Lula, a maioria dos eleitores repetiu o gesto do povo judeu na Sexta-Feira da Paixão, quando preferiu soltar o salteador e mandou Jesus para a cruz, cravado com pregos romanos, que hoje seriam dos EUA. A conclusão implícita é fascinante: o sacrificado da vez seria o "Jesus Bolsonaro", o “Cristo” herdeiro do Mito. É o "cristoneofascismo", conceito do filósofo espanhol Juan José Tamayo, encarnado na prática.
Fica escancarado que, para eles, o Nazareno perdeu o emprego de Salvador para a milícia carioca. Se isso ocorresse na Idade Média, ia faltar lenha para tanta fogueira. Confesso que sou fã do Lula, mas jamais cometerei a heresia de chamá-lo de "Jesus da Silva", pois, quando muito, ele tenta colocar em prática as bem-aventuranças do Sermão da Montanha, revelado pelo Filho do Criador.
E o Barrabás tupiniquim? Na analogia rasteira da extrema-direita, o papel cabe a Lula. Curiosamente, a figura histórica de Barrabás nem fica tão deslocada assim: ele pertencia ao partido dos Zelotas, que combatia a ferro e fogo o Império Romano — o equivalente geopolítico, à época, aos Estados Unidos de hoje. E Lula está à frente da resistência ao império do Norte desde os anos oitenta, quando se tornou o maior líder sindical nacional de todos os tempos.
A história só não fecha quando tentamos juntar as pontas da mitologia. O "Jesus" da nossa insana política adora bater continência para a bandeira americana e, pelo que se sabe nos Evangelhos, o Cristo original jamais pensou em pedir asilo em Roma ou em Miami. Quando foi testado, cunhou: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus".
Por fim, embora seu primeiro milagre tenha ocorrido numa festa em que não faltou o bom vinho, não há registro se na lista de convidados estivesse alguém chamado Vorcaro, acompanhado de moçoilas que não conheciam a "língua dos patriotas", para lhes preservar os segredos de alcova. A única ligação a tão controvertida figura poderia ser uma moça em pecado carnal levada ao Galileu, ameaçada de pedradas. Para a turba enraivecida, Ele afirmou: "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra". Como ela não levou pedrada alguma, apenas a aconselhou: "Vá e não peques mais".
DANIEL PEREIRA, professor, advogado e político militante de esquerda, o qual nunca teve problema para conviver com políticos de direita, os quais, na sua maioria, sempre souberam se comportar quando perderam — e melhor ainda quando ganharam uma eleição.