As ferramentas - por Augusto Branco

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Ainda me lembro do agricultor dos anos 1960.
 
O dia começava cedo. Antes que o sol se impusesse sobre a lavoura, ele já caminhava entre as fileiras de feijão. O chapéu de palha protegia-lhe o rosto. Nas mãos, uma enxada de cabo liso pelo uso de muitos anos.
 
Golpe após golpe, retirava as ervas daninhas que disputavam com o feijão a água, a luz e os nutrientes da terra. Não havia máquinas sofisticadas. Havia paciência. Havia experiência. Havia um conhecimento transmitido de pai para filho, quase sempre sem palavras.
 
De vez em quando interrompia o trabalho. Sentava-se à sombra de uma árvore, retirava do bolso uma pequena lima e, com movimentos precisos, devolvia o fio à lâmina da enxada. Passava delicadamente o polegar sobre o aço, certificando-se de que estava novamente afiada. Depois voltava ao trabalho, como se aquela breve pausa também fizesse parte da plantação.
 
Sempre achei bonita essa cena.
 
Aquele homem talvez jamais imaginasse que fazia parte de um Brasil que começava a mudar.
 
Poucos anos depois, o país viveria uma profunda transformação social. Aos poucos, a figura do pequeno agricultor trabalhando quase exclusivamente com a enxada deixaria de fazer parte da paisagem de tantas regiões brasileiras. Novas tecnologias chegariam ao campo. Muitos seguiriam outros caminhos. Aquele homem, tão comum naquele tempo, tornar-se-ia cada vez mais raro.
 
Mas havia algo que permaneceria.
 
A relação entre o ser humano e suas ferramentas.
 
Enquanto eu observava aquele agricultor, nunca pensei apenas na enxada. Pensava nas mãos que a conduziam.
 
A enxada não distinguia o feijão da erva daninha. Não sabia a profundidade do golpe. Não conhecia o tempo da chuva nem o momento da colheita.
 
Tudo isso pertencia ao agricultor.
 
A ferramenta ampliava sua força.
 
Jamais ocupava o seu lugar.
 
Talvez a história da humanidade possa ser contada também por suas ferramentas.
 
Primeiro veio a pedra lascada. Depois o fogo. O arado. A enxada. O martelo. O formão. A agulha. A pena de escrever. A prensa. O microscópio. O telescópio. A máquina fotográfica. O computador.
 
Cada ferramenta abriu uma nova possibilidade.
 
Nenhuma delas pensou sozinha.
 
Nenhuma delas amou.
 
Nenhuma delas substituiu a inteligência, a sensibilidade ou a criatividade humanas.
 
Um pincel nunca pintou um quadro sozinho.
 
Um bisturi nunca realizou uma cirurgia.
 
Uma câmera fotográfica nunca escolheu o instante que merecia ser eternizado.
 
As ferramentas sempre dependeram de alguém que lhes desse propósito.
 
Durante toda a minha vida também trabalhei com ferramentas.
 
Primeiro foram o lápis, a máquina de escrever, os livros, os gravadores, os microfones, as câmeras, o computador.
 
Cada uma delas ampliou minhas possibilidades de ensinar, comunicar e escrever.
 
Mas o tempo também trouxe algumas limitações físicas.
 
Escrever, que durante tantos anos foi um gesto espontâneo, começou a exigir um esforço cada vez maior. Muitas vezes imaginei que talvez não conseguisse mais colocar no papel as histórias que ainda habitavam a minha memória.
 
Foi então que uma ferramenta veio ao meu socorro.
 
Encontrei na inteligência artificial uma companheira de trabalho.
 
Não para pensar por mim.
 
Não para viver as minhas lembranças.
 
Não para sentir as minhas emoções.
 
Essas continuam pertencendo somente a mim.
 
Ela apenas me ajudou a reencontrar o caminho das palavras.
 
Com sua assistência, voltei a organizar ideias, reconstruir cenários, lapidar frases e dar forma às histórias que durante tantos anos permaneceram guardadas dentro de mim.
 
Foi graças a essa parceria que pude devolver voz ao meu pai, reconstruir a fotografia de 1922, imaginar pessoas, lugares e cenas que o tempo levou, e transformar memórias em páginas de um livro.
 
Percebi, então, que a inteligência artificial ocupa o mesmo lugar que a enxada ocupava nas mãos daquele agricultor.
 
A enxada não cultivava o feijão.
 
Era o agricultor quem o cultivava.
 
A inteligência artificial não escreve a minha história.
 
Sou eu quem a escreve.
 
Ela apenas amplia aquilo que ainda sou capaz de fazer.
 
Talvez seja essa a verdadeira vocação de toda ferramenta.
 
Não substituir o ser humano.
 
Mas ampliar suas possibilidades.
 
Socorrê-lo quando as limitações aparecem.
 
Permitir que ele continue criando, construindo, cultivando, curando, escrevendo e deixando às gerações futuras um pouco daquilo que viu, aprendeu e amou.
 
No fim das contas, talvez a história da humanidade não seja apenas a história de seus povos ou de suas civilizações.
 
Talvez seja também a história das ferramentas que o ser humano inventou para ir um pouco mais longe.
 
Da pedra lascada à inteligência artificial, muda a ferramenta.
 
Permanece o homem.
Direito ao esquecimento

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