close
logorovivo2

Entrevista histórica - Por Selmo Vasconcellos

POR SELMO VASCONCELLOS

5 de Outubro de 2018 às 10:42

 

ARTUR DA TÁVOLA – BRASÍLIA, DF – 29 de DEZEMBRO de 1995.

(Em memória)

 

Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros “Artur da Távola”, nasceu em 3 de janeiro de 1936, Rio de Janeiro, RJ. Formado em Direito pela PUC, RJ.

Escritor, poeta, cronista, memorialista e Senador eleito pelo Rio de Janeiro.

Távola, durante muito tempo encantou leitores de todo o Brasil com sua mensagens, seja em jornais, seja em livros publicados.

 

SELMO – Qual o verdadeiro ofício de Artur da Távola?

ARTUR DA TÁVOLA – Sou um cronista. Como cronista e memorialista estou entre aqueles que não merecem ou recebem a consideração da crítica literária e das elites. Mas em compensação, exatamente por cronista e memorialista recebo algo melhor que é a leitura, a participação, a força de vivências com os leitores. Sou um escritor sem maior importância do ponto de vista da arte literária, mas uma pessoa que exerce o ofício com integridade.

 

SELMO – Quando começou a escrever?

ARTUR DA TÁVOLA – Escrevo desde os 12 anos e só publiquei meu primeiro livro aos 41 anos, o que mostra a longa trajetória, a dificuldade de publicar livros no Brasil e a militância de 14 livros publicados e 3 no prelo. Sou um artesão, um oficiante das palavras.

 

SELMO – Essa demora na publicação mostra as dificuldades de ser um escritor no Brasil. Quais foram as suas dificuldades?

ARTUR DA TÁVOLA – No meu caso, a excessiva ansiedade com que o primeiro livro é feito, escrito e esperado pelo próprio autor. O primeiro trabalho ainda é portador de todos os nossos fantasmas. Somos de certa forma vitimas dele e não senhores do mesmo. Mas a pessoa tem que insistir, não se intimidar com as possíveis derrotas.

 

SELMO – A política e a cultura são forças antagônicas?

ARTUR DA TÁVOLA – Não, elas se potencializam. Há um elemento sinérgico que opera entre elas apesar da aparente incompatibilidade de ambas.

 

SELMO  – Como está o Brasil culturalmente?

ARTUR DA TÁVOLA – O mesmo de sempre. Ativo, produzindo em grande quantidade, diversificado, riquíssimo do ponto de vista da variação e sem a correspondente repercussão nas áreas de rádio e da televisão e também nas atividades estatais.

 

SELMO  – Direitos Autorais funcionam no Brasil?

ARTUR DA TÁVOLA – No campo literário sim. O que falta é mercado.

 

SELMO – Como é o processo de sua criação literária?

ARTUR DA TÁVOLA – Estou permanentemente ligado na criação literária e mesmo no meio de afazeres opostos ou antagônicos encontro meios de anotar ideias em pedaços ou fatias de tempo nas quais vou tecendo minha pequena criação. Sinto-me assim como aqueles fazedores de colchas com retalhos.

 

SELMO  – Os intelectuais não estão calados demais?

ARTUR DA TÁVOLA – Acho que os intelectuais calam de menos.

 

SELMO  – O povo brasileiro não está se sentindo órfão?

ARTUR DA TÁVOLA – É uma resposta difícil. Quando um povo se sente órfão é porque precisa de um pai, ainda está criança. Um povo que se torna adulto não se sente órfão porque ele é pai. O Brasil está nessa transição.

 

SELMO – Que balanço você faria hoje dos seus trabalhos anteriores?

ARTUR DA TÁVOLA – Um balanço generoso. Vou fazer 18 anos de autor publicado, alguns livros meus até hoje têm edições sucessivas, alguns deles têm uma durabilidade maior do que eu esperava e nunca fui um sucesso literário. Sempre tive uma vendagem razoável e sou desconhecido por parte da crítica e das elites universitárias como escritor. O leitor médio me tem apreço, porém.

 

SELMO – O que espera para 1996?

ARTUR DA TÁVOLA – Continuar. Continuar é sempre mais difícil e mais importante. É preferível saber continuar que pensar em termos delirantes ou onipotentes. O bom é melhor do que ótimo.

 

*Quem ganha o logo perde o sempre.

*A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.

*A vida é múltipla e múltiplas são as formas de interpretá-la.

*experiência não se doa nem se oferta. Pouco adianta.

*Todas as vidas que temos dentro não cabem em todo o tempo de nossa vida.

*cada momento é sempre novo. Nós é que não somos novos a cada momento.

*O belo, o justo, o bom, a verdade e o bem são os ideais do ser humano.

*Vida: enorme desfile de pessoas e brincadeiras levadas a sério.

*Quem pode julgar ? cada qual faz o que pode, dá o que tem, tenta o que sabe e reage como aprendeu.

*As mulheres conduzem o mundo porque conduzem o sentimento do mundo.

 

MAIS COLUNAS

Selmo Vasconcellos

PRIMEIRA PÁGINA
RONDONIAOVIVO TV
DESTAQUES EMPRESARIAIS
PUBLICAÇÕES LEGAIS