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MEIO AMBIENTE: Extração de madeira valiosa na Amazônia tem indícios de fraude

A extração comercial de madeira na Amazônia precisa seguir uma série de condições

NOTICIASAOMINUTO

15 de Agosto de 2018 às 15:40

MEIO AMBIENTE: Extração de madeira valiosa na Amazônia tem indícios de fraude

FOTO: (Divulgação)

Pesquisadores identificaram fortes indícios de que as permissões para extração legal de madeira em florestas do Pará estão sendo manipuladas. As fraudes facilitariam a derrubada excessiva de árvores de madeira valorizada que são especialmente vulneráveis à exploração predatória, como os ipês.

 

"É preciso deixar bem claro que nós não temos nada contra a atividade madeireira em si. Trata-se de uma opção econômica importante para a Amazônia. Mas é algo que precisa ser feito de acordo com critérios corretos, que não afetem a viabilidade futura dessas espécies", diz Pedro Brancalion, professor do Departamento de Ciências Florestais da USP de Piracicaba e um dos autores do estudo sobre o tema que acaba de sair na revista especializada Science Advances.

 

A extração comercial de madeira na Amazônia precisa seguir uma série de condições. Não se pode ultrapassar, por exemplo, o volume de 30 metros cúbicos por hectare de madeira, em ciclos de corte que vão de 25 anos a 35 anos. 

 

Os troncos só podem ser cortados se tiverem um diâmetro mínimo (50 cm na altura do peito), e é preciso deixar na mata uma proporção das árvores maduras de cada espécie, para que elas sirvam de matrizes para a regeneração da floresta.

 

O grupo de pesquisadores, que também inclui Paulo Molin, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), e Mark Schulze, da Universidade do Estado de Oregon (EUA), entre outros cientistas, cruzou uma série de dados e fez observações em campo para demonstrar que havia incongruências muito suspeitas entre o que diziam as permissões oficiais de corte de árvores e o que de fato estava sendo extraído da mata.

 

Primeiro, eles compararam o que estava descrito em mais de 400 licenças de extração com um número equivalente de áreas, cada uma medindo 1 hectare de área, que tinham sido analisadas no projeto Radam, dos anos 1970.

 

O inventário florestal feito durante o Radam dá aos pesquisadores uma ideia do quanto seria possível extrair, em média, das áreas exploradas comercialmente. A comparação se concentrou em 11 espécies vegetais que aparecem com frequência nos dois conjuntos de dados, correspondendo a quase 500 mil árvores derrubadas entre 2012 e 2017.

 

De cara, discrepâncias claras apareceram no caso dos ipês, cuja madeira de alta durabilidade é muito procurada para o uso em pisos e deques de piscinas. Por seu crescimento lento, a árvore é especialmente vulnerável à exploração descontrolada.

 

No caso de seis permissões de extração que depois foram analisadas in loco pelos pesquisadores, por exemplo, a intenção declarada era obter mais de 4 metros cúbicos de madeira por hectare, enquanto a densidade natural da espécie é muito menor (0,7 metros cúbicos por hectare).

 

A mesma coisa acontece com outras espécies valorizadas -em geral, quanto mais cobiçada a madeira, maior a diferença entre a densidade esperada de árvores segundo os dados do Radam e o volume de extração nas permissões.

 

E isso não acontece porque as permissões estão concentradas em certas áreas onde as árvores cobiçadas são mais abundantes -a distribuição geográfica delas não se concentra em regiões específicas.

 

As análises de campo deram mais peso às suspeitas. De 152 árvores identificadas como ipês pelos madeireiros, só 61% foram confirmadas pelos pesquisadores -dependendo do local, a taxa de "erro" ultrapassava os 90%. Curiosamente, as árvores identificadas erroneamente como ipês eram, em geral, de espécies pouco valorizadas comercialmente (como tanimbuca, jarana e timborana).

 

O que está acontecendo, muito provavelmente, é que as permissões estão sendo usadas para "esquentar" madeira de ipê extraída irregularmente -seja em APPs (áreas de preservação permanente, como a beira de rios, nas quais não se pode mexer), seja em reservas indígenas ou unidades de conservação etc.

 

De posse da papelada, o madeireiro pode afirmar que as árvores foram cortadas de acordo com o plano de manejo nos locais corretos, apesar da fraude.  

 

Parte da dificuldade de evitar esse tipo de subterfúgio vem da falta de gente para fiscalizar a exploração madeireira -apenas 55 funcionários têm de acompanhar todo o processo no Pará, numa área do tamanho do Peru. Não seria difícil aumentar a precisão das análises sem ter de contratar mais gente, porém.

 

"Na verdade seria muito fácil, com intervenções bobas de tecnologia", diz Brancalion.

 

Bastaria informatizar todo o processo de emissão das permissões -hoje, ainda feito na base do papel, em muitos casos- e padronizar o cadastro das espécies extraídas.

 

Os funcionários verificariam se os números propostos para a exploração batem com o esperado, dentro de uma margem de tolerância, priorizando a avaliação in loco apenas nos casos em que o sistema mostrasse algo fora do padrão. Com informações da Folhapress.

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